5 Instrumentos Da Capoeira
Os 5 instrumentos da capoeira na prática
A batucada de uma roda de capoeira depende basicamente de cinco instrumentos. Não é apenas sobre saber o nome de cada um. É sobre entender como eles se encaixam, quem comanda a harmonia e o que acontece quando um deles falha no meio da roda. Eu já vi berimbau partir ao meio num jogo, já vi alguém chegar com um atabaque afinado demais e destruir o clima, já vi mestres trocarem de palhetas no calor do jogo sem interromper o toque. O que segue é o que realmente funciona. Eu costumo montar meus conjuntos começando pela afinacão dos instrumentos de percussao antes mesmo de entrar na roda, porque isso resolve 80% dos problemas que aparecem nos ensaios. Ninguém fala disso.
5 instrumentos da capoeira: lista e funções
O primeiro e mais importante é o berimbau. Ele não é apenas o instrumento mais sonoro, ele é o verdadeiro maestro da roda. O toque do berimbau define qual jogo está sendo tocado — se é iúna, angola, Cavallinho, São Bento Grande. O mestre define o repertorio ali, mudando de golpe pelo som. Se você ouve apenas uma coisa na roda, é a linha do berimbau. O gunga, o medio e o viola formam a trinca basica. Cada um tem uma funcao diferente dentro do conjunto. O gunga cuida do ritmo fundamental, o medio complementa com sincopes, e o viola faz as variações de alta frequencia que sobem o clima. A alfinete, que é a pedrinha usada para modular o timbre, precisa ser trocada conforme o volume da roda. Em rodas grandes com muitos participantes, a alfinete comum nao produz efeito suficiente e eu paso a usar uma de latão mais pesada. O segundo instrumento é o pandeiro. O pandeiro na capoeira nao toca como num forro ou samba. O toque é mais contido, mais sincronizado com o berimbau. O pulso vem da mao esquerda, os dedos da direita fazem os estalos e os pratos. Um erro comum que eu vejo em iniciantes e até em capoeiristas intermediarios é tocar o pandeiro muito alto durante o jogo lento de angola. Isso estraga completamente a atmosfera. A solucao e manter o pandeiro quase sussurrando nos toques de angola e só aumentar a intensidade quando o mestre trocar para um Cavallinho. O terceiro e o atabaque. O atabaque é o coracao rítmico do conjunto, mais profundo que o pandeiro, mais grave que o bereimbau. Ele entra com um contraponto sutil. Em muitas baterias amadoras que eu ja vi, o atabaque fica repetindo o mesmo padrao o jogo inteiro sem nenhuma evolucao. Isso é um erro. O atabaque deve responder ao berimbau, nao apenas seguir o ritmo fixo. Quando o berimbau muda de toque, o atabaque tambem precisa se adaptar, mesmo que levemente. Isso exige ouvir mais do que simplesmente contar batidas. Eu ja tive um atabaque que tinha a pele ressecada e perdia o agudo completamente nos toques mais fortes. A solucão foi tratar a pele com uma mistura de agu e cola branca uma vez por semana, mantendo o timbre estavel por meses.
O quarto é o agogô. O agogô é um sineiro duplo que marca o tempo com notas altas e penetrantes. Ele e muitas vezes subestimado, mas e crucial para dar brilho e estrutura rítmica ao conjunto. O agogô nao deve competir com o berimbau, mas sim preencher os espacos que sobrarem entre os golpes do gunga e do medio. Quando bem tocado, ele adiciona uma camada de complexidade que separa uma bateria profissional de uma amadora. O quinto e o reco-reco. O reco-recre é um raspador que gera aquele ruido caracteristico de lixa. Ele complementa o agogô e o pandeiro, dando textura. Alguns grupos nao usam reco-recre, mas eu recomendo fortemente que usem. A ausencia do reco-recre deixa a percussão mais oca, menos densa. E importante notar que o reco-recre exige uma tecnica especifica de embolada que nao e intuitiva para quem esta começando. Eu demorei cerca de tres meses até conseguir um som limpo sem aqueles ruídos abafados que parecem um barulho de estufa. O que a maioria das pessoas nao entende e que esses 5 instrumentos da capoeira funcionam como um unico organismo sonoro. Cada instrumento depende dos outros para ter sentido. Se o berimbau toca um toque rapido e o atabaque responde com um padrao lento, o resultado e uma bagunça sonora que desorganiza a roda inteira. O equilibrio entre os instrumentos e tudo. E necessario pratica constante para desenvolver essa sensibilidade. Eu dedico cerca de meia hora por dia apenas para exercicios de sincronismo entre o pandeiro e o berimbau, e isso fez toda a diferença na qualidade das nossas rodas após dois anos de pratica regular.

Há tambem uma questao pratica que poucos levam em conta: a afinação do berimbau varia com a temperatura e a umidade. Num dia frio e seco, a pele do berimbau tensiona mais e o som fica mais agudo. Num dia quente e úmido, o som fica mais grave e mais abafado. Isso significa que o mesmo instrumento pode soar completamente diferente em uma rodona manhã versus à noite. Eu sempre levo uma chave de afinacão e faço um ajuste rapido antes de começar qualquer roda, e isso evita situacoes constrangedoras com mestres que percebem o problema imediatamente.
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V.A.R Ed.Física: Movimentos da Capoeira e Instrumentos Musicais