A Concepção E O Uso Corrente Da Palavra Desenvolvimento Sustentável
A palavra virou etiqueta, não conceito
Quando eu comecei a trabalhar com planejamento territorial na segunda metade dos anos 2000, a sigla ESG ainda nem existia no vocabulário das empresas. A gente discutia desenvolvimento sustentável em reuniões de comissão de bacia hidrográfica, em audiências públicas com municípios do interior de São Paulo, em pareceres técnicos que levavam semanas para ser revisados. A palavra era usada, sim, mas com menos graça. As pessoas sabiam que estava aparecendo em todo lugar e, por isso mesmo, começavam a desconfiar. O problema não é o conceito em si. O problema é que ele foi abraçado por todos os lados ao mesmo tempo. Governos usaram para justificar obras. Empresas usaram para reposicionar marcas.ONGs usaram como bandeira de pressão. Investidores usaram como selo de risco ajustado. O resultado foi um terreno comum onde ninguém mais sabia exatamente o que estava sendo dito quando pronunciava aquela expressão.
A concepção e o uso corrente da palavra desenvolvimento sustentável
Vamos começar pelo ponto de partida, que é mais simples do que parece. A definição mais citada vem do relatório Brundtland, de 1987, publicado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas. Nele, desenvolvimento sustentável é apresentado como aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades. Três pilares são comumente derivados dessa ideia: dimensão ambiental, dimensão social e dimensão econômica. A imagem dos três círculos sobrepostos aparece em manuais, slides de consultoria e editais de fomento o tempo todo. O que poucas pessoas entendem na prática é que os três pilares não são variáveis independentes que podem ser balanceadas como pratos numa balança. Eles se sobrepõem de maneiras que criam zonas de tensão permanente. Quando você tenta medir algo como "sustentabilidade" num projeto real, percebe que a métrica muda conforme o interlocutor. Para um engenheiro ambiental, o indicador relevante é emissão de carbono por unidade produzida. Para um assistente social, é o número de famílias realocadas sem perda de renda. Para um analista de investimentos, é o retorno ajustado ao risco climático. Cada um está certo dentro da sua caixa. Nenhum está errado dentro da própria caixa. O conflito surge quando você tenta colocar tudo numa única avaliação. Eu fui obrigado a lidar com isso de forma concreta em 2018, num projeto de reuso de água para irrigação numa propriedade agrícola no semiárido pernambucano. A prefeitura queria usar o rótulo de desenvolvimento sustentável para viabilizar uma parceria público-privada. O modelo propunha captar efluentes tratados de uma estação municipal, adaptar a rede de distribuição e revender a agricultores vizinhos. O estudo técnico initial mostrava viabilidade econômica positiva quando se considerava apenas o custo operacional da bomba e da tubulação. O relatório de impacto ambiental, porém, apontava riscos de contaminação de aquíferos rasos caso a pressão da rede não fosse monitorada corretamente. O plano social, por sua vez, previa que pequenos produtores adotariam a tecnologia sem apoio técnico contínuo. Tudo parecia sustentável isoladamente. Juntando as três camadas, o projeto tinha uma fraqueza estrutural: o modelo de governança não definia claramente quem seria responsável pela manutenção dos sensores de pressão após os primeiros doze meses. Sem essa definição, o risco de colapso do sistema era alto, ainda que os números de Capex e Opex parecessem atraentes no papel.
A solução que eu sugeri, e que acabou sendo adotada, foi simples e nada brilhante. Incluímos no contrato de concessão uma cláusula de auditoria técnica trimestral durante cinco anos, com multa progressiva caso os valores de pressão ficassem fora da faixa operacional definida no estudo de impacto. Transferimos a responsabilidade pela rede secundária para uma cooperativa de produtores, que passou a ter no conselho gestor. E criamos um fundo de reserva financiado por uma taxa pequena cobrada por metro cúbico consumido, suficiente para trocar sensores e reparar vazamentos sem depender de repasse municipal. O projeto saiu do papel. Ninguém chamou isso de milagre. Foi apenas a diferença entre um documento bonito e um instrumento executável. Essa experiência me ensinou algo que eu Levo até hoje: sustentabilidade não se prova com indicadores agregados. Se Prova com arquitetura de incentivos. Um índice de sustentabilidade bem construído pode esconder falhas graves. Uma lógica contratuall bem desenhada pode corrigi-las. Há um detalhe que os manuais geralmente ignoram. O termo "sustentável" carrega uma promessa de permanência. Nada dura para sempre. Qualquer sistema econômico depende de fluxos de energia, matéria e informação que podem ser interrompidos por eventos externos. A resiliência, portanto, é mais importante do que a estabilidade aparente. Projetos que focam exclusivamente na otimização de eficiência tendem a se tornar frágeis diante de choques. Projetos que investem em redundância estratégica, mesmo que pareçam menos eficientes no curto prazo, sobrevivem melhor a crises. Isso não é filosofia. É engenharia de sistemas aplicada a políticas públicas.

Outro ponto que passa despercebido é a questão da escala temporal. Desenvolvimento sustentável exige olhar para décadas, mas orçamentos públicos e ciclos eleitorais operam em anos. Empresas privadas olham para trimestres. Investidores institucionais olham para exercícios contábeis. Quando você tenta alinhar essas frequências diferentes, o resultado quase sempre é comprometer o longo prazo em nome do curto prazo. Não há solução mágica para isso. A única coisa que funciona é criar mecanismos que tornem visíveis os custos diferidos. Um exemplo prático é a exigência de plano de descomissionamento em editais de infraestrutura. Saber que uma usina solar precisará ser desmontada e o terreno recuperado em trinta anos muda completamente a forma como se avalia o custo real do projeto. Existe também uma armadilha comum que eu vejo repetidamente em consultorias e relatórios corporativos. A confusão entre sustentabilidade e eficiência. Reduzir o consumo de água numa fábrica é eficiência. Reduzir o consumo de água num município inteiro, mantendo a qualidade de vida da população, é sustentabilidade. A diferença é que eficiência pode ser medida internamente. Sustentabilidade exige considerar externalidades que estão fora dos seus limites operacionais. Quando uma empresa diz que reduziu suas emissões em vinte por cento, a pergunta que deveria ser feita é: as emissões deslocaram-se para outra etapa da cadeia, para outro município, para outra geração? Sem essa pergunta, o número é apenas um número bonito num slide. Quem trabalha com o tema sabe que a principal dificuldade não é técnica. É política. A técnica existe. Os métodos de Avaliação de Ciclo de Vida, os indicadores de pegada hídrica, os critérios do GRI, as diretrizes da Taxonomia da União Europeia, os princípios do Equator. Tudo isso está disponível e documentado. O que falta é vontade de distribuir custos e benefícios de maneira que nenhum grupo se sinta totalmente vitimado. Nem sempre é possível alcançar esse equilíbrio. Mas tentar não alcançá-lo é o que separa um documento de sustentabilidade de um processo de governança real.
Na prática cotidiana, eu recomendo três passos que costumam funcionar melhor do que metodologias complexas. Primeiro, defina claramente o sistema que você está avaliando. Quais são os limites espaciais, temporais e setoriais? Segundo, identifique os pontos de alavancagem. Onde uma pequena mudança gera um efeito desproporcional no resultado final? Terceiro, construa um mecanismo de feedback que obrigatório a revisar suposições a cada ciclo. Sem isso, qualquer análise de sustentabilidade vira apenas mais um relatório que ninguém lê depois da apresentação inicial. O desenvolvimento sustentável continua sendo uma frase útil porque funciona como guarda-chuva conceitual. Permite que diferentes atores conversam, mesmo quando não concordam. Esse é justamente o seu valor principal e o seu maior risco. Enquanto a palavra servir para aproximar, ela tem função legítima. Quando servir apenas para disfarçar interesses, ela se torna ruído. A diferença entre os dois usos raramente está no conteúdo do discurso. Está nos contratos, nos prazos, nos mecanismos de fiscalização e na disposição de assumir custos que não geram retorno imediato.
Galeria
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Conceito de desenvolvimento sustentável. Fonte: Adaptação pela autora ...