A Mãe Do Bezerro É A
Criando bezerros: o guia prático que ninguém te dá
Bezerro é um animal que não perdoa erro. Você acha que está tudo bem, oferece o leite, faz a transferência, e na semana seguinte aparece diarrhea que não para, ou pior, uma pneumonia que custou caro para diagnosticar. Já vi gente jogar dinheiro fora por causa de colostro mal administrado na primeira hora de vida. O ponto de partida simples, mas que a maioria das fazendas trata como secundário, é entender exatamente o que alimenta esse bezerro nos primeiros meses.
a mãe do bezerro é a base, mas nem sempre funciona assim na prática
O conceito de criação com a mãe é mais comum do que parece em operações de corte, especialmente em sistemas extensivos. A vaca cuida da alimentação, do aquecimento e do vínculo comportamental do animal. O problema é que essa dinâmica não garante desempenho produtivo ideal se você quer engorda ou reposição qualificada. O leite materno tem composição variável. A quantidade que o bezerro consegue retirar depende da ordenha natural da vaca e do estado de saúde dela. Em vacas primíparas, por exemplo, a produção pode ser comprometida por problemas de ubere ou estresse pós-parto. Meu primeiro contato sério com isso foi num rebanho no Triângulo Mineiro onde as novilhas estavam produzindo menos de 4 litros por dia e os bezerros chegavam ao desmame com 180 quilos quando o esperado seria mais de 220. A solução não foi separar à força no início, mas sim fazer suplementação com leite artificial a partir dos 21 dias de vida, mantendo a mãe apenas como complemento até o desmame completo.O leite materno contém anticorpos maternos através do colostro nas primeiras 24 horas. Esse é o único momento em que o sistema imunológico do bezerro permite absorção de imunoglobulinas intactas. Depois desse prazo, a parede intestinal sela e esses anticorpos não passam mais para a corrente sanguínea. Quem faz criação natural depende totalmente desse período. Se a vaca não colostrou adequadamente ou se o bezerro não maminha nas primeiras horas, o risco de mortalidade antes dos 30 dias aumenta significativamente. Já perdi dois bezerros porque a vaca teve retenção de placentas e o colostro estava comprometido. A solução foi administrar substituto lácteo de emergência junto com soroterapia, e os dois sobreviveram, mas gastamos tempo e produto que poderíamos ter evitado com teste de refratômetro no colostro logo após o parto.
Como funcion na prática o manejo com a mãe
A criação com a mãe exige que o produtor acompanhe o peso da vaca e do bezerro regularmente. Não adianta soltar o rebanho e esperar que a natureza resolva tudo. O controle de peso mensal permite detectar perda de condição corporal na vaca que reflete diretamente na produção de leite. Um bovino de corte em pastejo bem manejado pode sustentar um bezerro até o desmame, mas isso depende de forragem de qualidade mínima. Em períodos de seca, a produção cai de 6 a 8 litros por dia para menos de 2 litros. O bezerro perde ganho de peso rapidamente e o desmame chega com animais abaixo do peso recomendado para venda ou reposição.Uma técnica que uso regularmente é o box de amamentação controlada. Consiste em separar a vaca e o bezerro durante o dia, alimentando o animal com substituto ou farelado, e reunindo apenas à noite para mamar. Isso dura de 45 a 60 dias antes do desmame total. O ganho de peso do bezerro melhora porque ele recebe nutrição constante sem depender exclusivamente da disponibilidade de leite da mãe. No final, o desmame é mais tranquilo porque o animal já está adaptado a outras fontes de alimento. A vaca também recupera condição corporal nesse período, o que beneficia a próxima prenhez. O manejo sanitário segue regras específicas. Desverminação deve ser feita aos 60 dias de vida, independente de estar com a mãe ou não. Vacinação contra bóvino viral diarreia, rinotraqueíte infecciosa bovina e pasteurela começa a partir das 8 semanas, com reforço 30 dias depois. Quando o bezerro permanece 24 horas por dia com a mãe, o risco de transmissão de parasitas internos é maior porque ambos compartilham a mesma área de pastejo. O controle de carrapatos também precisa ser observado, especialmente em regiões como o Cerrado e o Nordeste, onde o Amblyomma cajennense é endêmico e pode transmitir febre maculosa tanto para animais quanto para humanos.
Pontos cegos que os produtores ignoram

A maioria dos criadores foca apenas no bezerro e esquece a vaca. O estado nutricional da mãe determina tudo. Uma vaca magra não produz leite suficiente, não entra em cio no tempo certo e complica o planejamento reprodutivo da próxima temporada. O escore corporal ideal para vacas de corte é entre 5 e 6 na escala de 1 a 9. Abaixo disso, a taxa de prenhez cai de 85 para menos de 60 por cento em um ciclo reprodutivo. A suplementação mineral da vaca gestante com fósforo, cobalto e selênio nos três meses finais de gestação faz diferença mensurável no peso ao nascer e na sobrevivência do bezerro. Outro ponto que passa despercebido é a socialização do bezerro. Animais criados apenas com a mãe têm menos interação com outros bezerros. Isso pode gerar estresse elevado no momento do desmame, especialmente se for feito de forma abrupta. Bezerros criados em grupo, mesmo com a mãe presente, desenvolvem comportamentos de alimentação mais adaptados ao consumo de volumoso e concentrado. O desmame entre 7 e 8 meses de idade é o padrão recomendado para sistemas de corte no Brasil, mas o peso ao desmame é mais relevante do que a idade. Um bezerro com 200 quilos aos 7 meses já é considerado dentro da média para a maioria das raças comerciais. Há ainda o aspecto econômico que ninguém gosta de discutir. Criar com a mãe parece mais barato porque não exige investimento em estruturas de creche ou ordenha artificial. Mas o custo oculto é grande. O tempo de acompanhamento diário, o controle de peso, a suplementação complementar e os problemas sanitários que surgem quando o manejo é negligente podem superar o investimento em criação sem mãe. Dados da Embrapa mostram que a diferença de ganho de peso por dia entre bezerros criados com mãe em sistema convencional e bezerros em creche com substituto lácteo pode chegar a 200 gramas a mais por dia a favor da creche, desde que o manejo nutricional seja adequado.
Quando a mãe não é opção
Existem situações em que a criação com a mãe é inviável. Vacas com histórico de rejeição de cria, mães First-paras com produção insuficiente, bezerros órfãos ou gêmeos competitivos, e operações de alta densidade onde o pastejo não comporta o número ideal de vacas com cria dependentes. Nessas condições, o substituto lácteo de qualidade é a alternativa. O produto deve ter mínimo de 20 por cento de proteína e 15 por cento de gordura, misturado na proporção de 150 gramas por litro de água morna. A oferta inicial é de 8 a 10 litros por dia, divididos em duas refeições, aumentando gradualmente até 12 litros nos primeiros 60 dias. O bezerro deve ter acesso a água limpa a partir do terceiro dia de vida e iniciante com 18 por cento de proteína a partir da primeira semana. A introdução de volumoso de qualidade, como feno de leguminosa ou silagem de boa qualidade, deve começar a partir das duas semanas, mesmo que o consumo inicial seja baixo. O objetivo é preparar o rúmen para a transição alimentar. Sem volumoso disponível, o desmame é muito mais traumático e o risco de acidose digestiva aumenta, especialmente se o concentrado for oferecido precocemente em excesso.O custo do substituto lácteo varia conforme a região e a marca. Em média, o produtor gasta entre 80 e 120 reais por bezerro até o desmame, considerando o consumo total de produto mais o iniciante. Comparado ao ganho de peso adicional que esse manejo proporciona, o investimento se paga na maioria dos casos quando o bezerro é vendido com 20 a 30 quilos a mais no desmame. O preço de venda por quilograma vivo em muitas regiões do Brasil gira em torno de 6 a 8 reais, então 20 quilos extras representam entre 120 e 160 reais a mais na receita. A escolha entre criar com a mãe ou sem mãe depende do sistema produtivo, da infraestrutura disponível e do objetivo de mercado. Não existe resposta única. O que existe é conhecimento do manejo de cada opção e capacidade de identificar os pontos de falha antes que se tornem perda financeira. Bezerro é negócio de detalhe. Um erro de dosagem no colostro, uma desverminação fora de prazo, uma vaca com escore corporal baixo no final da gestação são coisas que fazem diferença real no resultado final.

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