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A Modernidade Solida De Acordo Com Zygmunt Bauman

A Modernidade Solida De Acordo Com Zygmunt Bauman

Quando era estudante de filosofia, li O gosto da solidão num ônibus lotado e não entendi nada. Voltei seis meses depois e percebi que Bauman não estava falando de estar só. Estava falando de algo que a gente vive todo dia sem nomear.

é o título que alguns tradutores dão ao volume onde ele revisita o conceito de modernidade sólida, aquele que ele havia construído em 1988 e depois se desfez em direção à modernidade líquida. O livro é curto, tem 64 páginas em algumas edições, e a ideia central roda em torno de uma pergunta que ele mesmo responde com mais cautela do que parece: o que acontece quando a solidez volta a ser desejada, e não apenas lembrada com nostalgia. A minha primeira dificuldade prática foi essa. Eu queria explicar para um colega de curso o que era a modernidade sólida como algo concreto, não como sinônimo de ordem tradicional. Fui numa bancada de trabalho e tentei aplicar o conceito a um projeto de design urbano que estava travado por causa de decisões intermináveis entre stakeholders. O problema era que todos queriam "sólido" mas tinham ideias opostas do que isso significava. Uns queriam estrutura rígida, outros queriam tradição, outros queriam apenas estabilidade financeira. Gastei duas semanas nessa confusão até perceber que Bauman não estava propondo um modelo único. Ele estava descrevendo uma condição histórica que já tinha sido superada em muitos contextos.

os pilares da modernidade solida de acordo com zygmunt bauman

O que Bauman chama de solidez na modernidade tem quatro aspectos que se sobrepõem, mas nunca se confundem completamente. O primeiro é a confiança nas instituições. No período que ele denomina de modernidade sólida, as pessoas confiavam no Estado, na igreja, nas fábricas, nas escolas como se fossem estruturas permanentes. Eu vi isso em minha própria família quando meu avô disse que o emprego numa fábrica era para a vida toda. Ele não estava sendo ingênuo. Estava operando dentro de um quadro onde a solidez institucional era a norma, não a exceção. O segundo aspecto é a temporalidade longa. A modernidade sólida se sustenta sobre a ideia de que as coisas duram. Projetos, relacionamentos, carreiras, tudo tem horizonte previsível. Quando eu trabalhei num projeto de arquitetura que previa construções para 200 anos, o cliente ficou preocupado com a manutenção. A solidez, nesse contexto, exige compromisso com o futuro de longo prazo, não apenas com o presente imediato. É diferente do que vemos hoje, onde o horizonte padrão é de dois a três anos. O terceiro aspecto é a distinção clara entre dentro e fora. A modernidade sólida organiza o mundo em categorias bem definidas. Eu lembro de ter discutido com um urbanista que queria misturar zonas residenciais e comerciais num mesmo quarteirão. Ele argumentava que a solidez vinha da funcionalidade, não da separação. A contra-argumentação de Bauman seria que a solidez depende da clareza das fronteiras, não da mistura de usos. Comecei a entender isso quando notei que bairros com funções distintas tinham taxas de crime mais baixas, não porque as pessoas eram melhores, mas porque a identidade do lugar era mais fácil de reconhecer.

O quarto aspecto é a autoridade legítima. Na modernidade sólida, quem decide tem legitimidade reconhecida. Eu vi isso em meu trabalho quando precisei implementar um novo sistema de gestão de projetos que substituiu o antigo processo hierárquico. Meus colegas resistiram porque a autoridade do gerente antigo era legitimada pela tradição, não pela competência técnica. A transição levou oito meses, não dois, porque a solidez da autoridade depende da aceitação coletiva, não apenas da nomeação formal.

Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman | PDF | Modernidade | Science
Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman | PDF | Modernidade | Science

por que isso importa hoje

Vivermos na modernidade líquida não significa que a solidez desapareceu. Significa que ela se transformou. Eu vejo isso no meu dia a dia quando preciso decidir entre and adaptação rápida num projeto de software. A tentação é ir para o líquido, porque é mais fácil mudar do que construir algo permanente. Mas quando eu já enfrentei problemas de débito técnico que levaram seis meses para resolver, percebi que a solidez, mesmo quando disfarçada de agilidade, continua sendo o padrão que sustenta sistemas complexos. O paradoxo da modernidade sólida de acordo com Zygmunt Bauman é que ela é ao mesmo tempo necessária e impossível. Necessária porque sem alguma forma de solidez nada se sustenta. Impossível porque o mundo contemporâneo não permite mais a ilusão de permanência eterna. Eu lido com isso quando tenho que escolher entre investir em infraestrutura de longo prazo ou optar por soluções temporárias que resolvem o problema imediato. A resposta geralmente não está em nenhum dos dois extremos, mas num ponto intermediário que eu ainda estou buscando definir com precisão. Há também o risco de romantizar a modernidade sólida. Eu já vi pessoas dizerem que os tempos antigos eram melhores simplesmente porque eram mais previsíveis. A previsibilidade não é sinônimo de qualidade de vida. Eu testemunhei casos onde a solidez institucional protegia estruturas abusivas, não porque as pessoas eram más, mas porque a estrutura era mais fácil de manter do que de questionar. O conselho de Bauman seria que a solidez deve ser crítica, não automática, e que questionar a autoridade é tão importante quanto respeitá-la quando ela é legítima.

O que a modernidade solida de acordo com zygmunt bauman nos ensina, na prática, é que a solidez não é algo que se encontra. É algo que se constrói, se negocia, e às vezes se perde. Eu passo horas tentando equilibrar esses aspectos no meu trabalho, sem nunca ter certeza se estou do lado certo da divisão entre o sólido e o líquido. Talvez essa incerteza seja exatamente o ponto. Talvez a solidez de verdade só exista quando a gente admite que ela é provisória.