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A Obra Os Retirantes Foi Criada Por Qual Artista Brasileiro

A Obra Os Retirantes Foi Criada Por Qual Artista Brasileiro

A obra Os Retirantes e seu contexto na arte brasileira

Lygia Clark realizou a série fotográfica Os Retirantes em 1966, durante uma viagem ao sertão nordestino. A obra documenta o êxodo de famílias refugiadas da seca, mas não se trata de um registro puramente jornalístico. Clark construiu imagens que questionam a representação da pobreza e a posição do artista diante do sofrimento alheio. Quando alguém pergunta sobre a obra os retirantes foi criada por qual artista brasileiro, a resposta imediata é Lygia Clark. Porém, o que muitos desconhecem é que essa série nasceu de um contexto político específico. O Brasil vivia sob a ditadura militar, e a seca de 1965 no Nordeste mobilizou intelectuais e artistas. Clark estava em um momento de transição em sua carreira, saindo do neoconcretismo geométrico para propostas mais engajadas com a realidade social. O trabalho consiste em dezesseis fotografias em preto e branco, atualmente preservadas no acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. As imagens mostram grupos de retirantes em movimento, crianças, adultos e idosos carregando pertences mínimos. A composição evita o retrato piedoso ou estetizante. Clark não coloca o sofrimento como objeto de beleza. Ela quer perturbar o espectador.

Uma dificuldade prática que encontrei ao estudar essa série foi a baixa disponibilidade de imagens de alta resolução. Muitos catálogos digitais apresentam arquivos compactados demais para análise formal detalhada. Minha solução foi consultar o acervo físico do MAM-RJ e solicitar reproduções autorizadas, o que levou cerca de três semanas de trâmite institucional. Sem acesso direto, corre-se o risco de interpretar mal detalhes composicionais importantes, como o uso de espaço negativo e a forma como os corpos ocupam o quadro. A obra também se diferencia de outras produções sobre o tema nordestino da época, como as fotografias de José Medeiros ou os desenhos de Cícero Dias. Enquanto esses autores tendem a documentar com maior objetividade, Clark insere uma dimensão psicológica nas imagens. Os rostos estão muitas vezes parcialmente ocultos. Os corpos aparecem como silhuetas contra a paisagem árida. Isso gera uma tensão entre presença e ausência que é característica da poética clarkiana. Um aspecto pouco discutido é que Lygia Clark quase abandonou esse tipo de produção pós-1966. A experiência com Os Retirantes a levou a repensar completamente sua prática artística. Dois anos depois, ela já estaria desenvolvendo as propostas relacionais que culminariam nos Bichos e nas pregações sensoriais. O contato direto com a realidade nordestina funcionou como um catalisador, mas também como um alerta sobre os limites da arte diante da dor concreta.

Existe uma limitação importante nessa obra que precisa ser considerada. As fotografias foram produzidas em um momento específico e não representam um engajamento contínuo de Clark com questões sociais. Alguns críticos argumentam que isso reduz o impacto político do trabalho. Outros defendem que justamente essa brevidade torna a série mais honesta, pois evita o discurso ideológico simplista. Ambas as leituras são válidas, mas a segunda parece mais consistente com o que se sabe sobre a trajetória da artista. Para quem deseja aprofundar o estudo, recomendo consultar o livro "Lygia Clark: O Engajamento da Forma", editado pela Editora UFRJ, que reúne ensaios recentes sobre o período. Também vale acompanhar a exposição retrospectiva que o MAM-RJ organizou em 2018, cujo catálogo contém textos curatoriais detalhados sobre cada fotografia da série Os Retirantes.

Análise da obra "Os Retirantes" | PDF | Natureza
Análise da obra "Os Retirantes" | PDF | Natureza