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A Política Externa De Dom João Vi

A Política Externa De Dom João Vi

O que realmente aconteceu com a política externa do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 não foi um evento isolado. Foi uma resposta pragmática a uma situação militar desesperadora. Napoleão havia invadido Portugal, o exército francês se aproximava de Lisboa, e a família real não tinha outra opção segura além de cruzar o Atlântico com toda a estrutura administrativa. Isso mudou completamente a dinâmica das relações internacionais de Portugal. Dom João VIherdou uma coroa em exílio e precisou navegar entre aliados que nem sempre eram confiáveis. A aliança com a Grã-Bretanha sempre foi a base da política portuguesa, mas nesse período ganhou contornos mais complexos. O tratado de 1810, que reduzia os direitos aduaneiros britânicos a 16% nos portos brasileiros enquanto mantinha 24% para produtos britânicos, gerou discussões acirradas na época e ainda hoje aparece em artigos de debate sobre soberania econômica. O aspecto mais subestimado dessa política externa é a pressão que o Congresso de Viena (1815) colocou sobre Portugal. Os grandes poderes queriam redistribuir territórios, e Portugal tentou garantir a posse da Colônia do Sacramento e outras disputas fronteiriças com o Prata. A verdade é que Dom João VI negociou bastante, mas poucos recursos destacam como ele ficou refém das prioridades britânicas. Londres não queria estabilidade na região do Prata se isso significasse perder influência comercial.

Um problema que eu encontrei ao pesquisar esse período diz respeito aos tratados secretos entre Portugal e Espanha sobre delimitação de fronteiras na América do Sul. Os documentos oficiais publicados pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo muitas vezes omitem referências a anexosoficiais que só apareceram em arquivos privados décadas depois. Minha solução foi cruzar correspondência diplomática brasileira com registros espanhóis do mesmo período. O método é trabalhoso, mas evita conclusões equivocadas sobre intenções reais de ambas as coroas. Outra nuance que os manuais costumam deixar passar é a relação entre a abertura dos portros em 1808 e as consequências diplomáticas de longo prazo. Abrir os portos às nações amigas não foi apenas uma medida econômica. Foi um movimento estratégico para garantir reconhecimento internacional enquanto a corte estava no Rio. O resultado foi que o Brasil deixou de ser colônia na prática muito antes da independência formal em 1822. Muitos estudantes ignoram essa continuidade. A política externa também enfrentou a questão da abolição do tráfico negreiro, sob pressão britânica. O tratado de 1810 comprometia Portugal a abolir o comércio de escravos no prazo de catorze anos. Na prática, Dom João VI protelou até 1826, e mesmo assim de forma parcialmente. Esse atraso causou tensões constantes com Londres, que usava seu poder naval para apreender navios negreiros portugueses.

O reconhecimento da independência do Brasil por Portugal em 1825, mediado pela Grã-Bretanha, também faz parte desse quadro. O tratado definiu que Dom Pedro I seria imperador com o consentimento português, mas em troca Portugal recebeu uma compensação financeira de dois milhões de libras esterlinas. Muitos não percebem que isso representou uma dívida que o Império brasileiro carregou por anos, limitando sua autonomia diplomática subsequente. Se você está estudando esse período, recomendo começar pelos documentos do fundo da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros do Arquivo Histórico Ultramarino. Depois, cruze com os relatórios consulares britânicos no The National Archives de Kew. A convergência dessas fontes costuma revelar contradições que textos unificados escondem.

Política Externa de D. João VI | PDF | Brasil | Portugal
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