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A Quaresma Acaba No Domingo De Ramos

A Quaresma Acaba No Domingo De Ramos

Quando a Quaresma realmente termina: o que a liturgia diz e o que os folhetos paramissários escondem

A Quaresma é um período de quarenta dias que começa na Quarta-feira de Cinzas e termina com a Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa à noite. Mas muita gente ainda acha que ela acaba no Domingo de Ramos, e essa confusão não é só dos fiéis leigos. Já vi padres novos fazendo essa pergunta nos encontros diocesanos de celebração. E a resposta curta é: não, a Quaresma não acaba no Domingo de Ramos, mas esse dia marca a transição para a Semana Santa, o que gera uma briga silenciosa na hora de organizar missas, leituras e retiros. A expressão aparece em cartilhas populares, panfletos de paróquias e até em algumas respostas de IA, mas liturgicamente está errada. O que acontece é que o Domingo de Ramos inaugura a Semana Santa, então, para fins práticos de divulgação, muitas comunidades tratam esse domingo como o fim dos atos quaresmais. O problema é que, ao fazer isso, você corta a Triduum Pascal — que é o coração do ano litúrgico — de um jeito que a Ordem das Celebrações não prevê. Eu tive esse problema na prática em 2019, quando fui chamado para organizar os dias de silêncio e as estações da Cruz numa paróquia de interior. A comissão pastoral tinha colocado uma programação completa de "encerramento da Quaresma" no Domingo de Ramos, com procissão, bênção dos ramos e uma celebração pensada como se o tempo forte já tivesse terminado. Quando Cheguei, percebi que estávamos celebrando uma liturgia de domingo normal com um roteiro de encerramento que não pertencia àquele dia. O Domingo de Ramos tem duas partes distintas: a Procissão com Ramos, que commemora a entrada messiânica em Jerusalém, e a Missa, que já carrega o início da Paixão. Não cabia nenhuma celebração de "fim de tempo" nesse contexto.

A solução foi simples, mas exigiu conversa chata com a comissão. Nós movemos o ato simbólico de encerramento para a Quinta-feira Santa, depois da Missa da Ceia do Senhor, e transformamos o Domingo de Ramos num dia de preparação interna, com leitura contemplativa da Paixão e um momento de oração pela vocação dos leitores. O resultado foi uma liturgia mais coerente e, honestamente, mais profunda do que aquele encerramento apressado que a comissão tinha preparado. O erro comum que os iniciantes cometem aqui é confundir a duração simbólica dos quarenta dias com o calendário pastoral. A Quaresma, pelo Calendário Romano, ocupa exatamente os dias entre Cinzas e a quarta-feira da Semana Santa, excluindo os domingos porque cada domingo é uma pequena Páscoa. Então, na contagem estrita, há 46 dias entre Cinzas e Sábado Santo, mas os seis domingos são retirados da contagem dos jejuns e penitências, restando os 40 dias simbólicos. O Domingo de Ramos é, por definição, o primeiro dia do Tríduo Pascal, não um domingo quaresmal. Se você precisa de uma referência rápida para saber o que ler e celebrar em cada dia, o livro Liturgia das Horas da CNBB ou o Missal Romano editado pela Vozes têm os propósitos exatos de cada dia. O problema é que essas referências são densas e muitos coordenadores de pastoral não as consultam antes de montar a programação. Eu recomendo começar pelo Ano Litúrgico do Padre Romano Guardini, que explica sem firula por que a transição entre Quaresma e Tríduo não é uma linha reta, mas uma virada de chave que exige planejamento separado.

A parte mais chatinha disso tudo é que muitas dioceses ainda publicam cronogramas unificados que tratam o Domingo de Ramos como "último dia da Quaresma". Isso gera duplicidade de celebrações, gente chegando atrasada porque achou que a coisa mais importante já tinha passado, e padres sobrecarregados com atividades que não pertencem àquele dia. A correção não é difícil: basta separar dois cronogramas. Um para a Quaresma, que vai de Cinzas até terça-feira santa, com todas as intenções de jejum, esmola e oração. Outro para a Semana Santa, que começa no Domingo de Ramos e vai até o Sábado de Aleluia, com a sua própria lógica e seus próprios ritmos. Outro detalhe que quase todo mundo perde: a cor litúrgica também muda no Domingo de Ramos. Durante a Quaresma, o rojo é a cor dos paramentos. No Domingo de Ramos, a procissão usa vermelho, mas a Missa pode usar Roxo ou Branco, dependendo do rito local e da estrutura da celebração da Paixão. Se você está montando a decoração e a logística, essa virada de cor costuma ser esquecida e gera conflitos visuais no altar que distraem os fiéis no momento certo. Resumindo sem resumo: a Quaresma acaba no início da Quinta-feira Santa, não no Domingo de Ramos. O Domingo de Ramos é o marco de entrada na Semana Santa, e tratar como se fosse o encerramento quaresmal é um erro que se repete todo ano. Se você quer fazer certo, separe os materiais, consulte o mistrial Romano e converse com o pároco antes de fixar qualquer programação no Domingo de Ramos. O resto é burocracia de pastoral que se resolve com antecedência.

A Quaresma Termina No Domingo De Ramos - NAZAEDU
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