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Afonso V De Portugal

Afonso V De Portugal

Estudos sobre Afonso V de Portugal: o que a documentação realmente mostra

O reinado de Afonso V (1438–1481) é frequentemente tratado em manuais de ensino básico como uma simples sequência de conquistas marroquinas e uma guerra de sucessão contra Castela. Quando se entra nos arquivos, essa narrativa simplificada desmorona rapidamente. O problema é que grande parte do que se lê sobre este monarca provém de resumos secundários que não confrontam a matéria-prima. A principal fonte primária para este período encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. As Tombo das Conquistas, as cartas régias publicadas nas Crónicas de El-Rei D. Afonso V (organizadas por Josep M. Madureira Marçal) e os documentos da Chancelaria de D. Afonso V formam o núcleo. Para quem trabalha com a época, o ponto de partida mais útil são os volumes da Correspondência de D. Afonso V com o Vice-Rei do Marrocos e os espólios da Casa da Guia. Um obstáculo prático que encontrei ao consultar os manuscritos foi a forma como os almotacés e escribas da chancelaria registavam as despesas militares entre 1471 e 1474. Os valores aparecem em moedas diferentes — réis, libras, dobras — e a conversão não é linear porque a paridade variava conforme o ano e a origem da moeda. A solução que funcionou foi cruzar os registos com a tabela de câmbio compilada por Oliveira Martins e, quando isso falhava, consultar os livros de Contadoria diretamente, onde os valores estavam muitas vezes anotados à margem em numerção mais simples. Perdi meia manhã nessa correção numa consulta específica sobre o abastecimento de Arzila.

Outro recurso essencial é o Registo de D. Afonso V, disponível em edição crítica. Ele agrupa decisões régias, nomeações e provisões que, isoladamente, parecem triviais, mas que em conjunto revelam a estrutura administrativa por detrás das campanhas africanas.

As campanhas de África: o que a logística revela

A conquista de Alcácer-Cebir (1458) e Arzila (1471) são os dois eventos mais citados. O que os manuais omitem é o custo logístico. Cada expedição exigia o embarque de milhares de toneladas de cereais, carne salgada, madeira, ferro e armas, além do transporte de cavalaria. Os registos de desembaraço no Tejo mostram que uma única frota podia exigir meses de preparação antes de largar âncora. A ocupação das praças norte-africanas não gerou o retorno económico que alguns cronistas da época pretendiam sugerir. As receitas alfandegárias de Arzila, por exemplo, mal cobriam o salário das guarnições e a manutenção das muralhas. O verdadeiro "retorno" para a Coroa era simbólico e diplomático: reforçar o prestígio de Portugal face a Castela e ao Papado, e controlar rotas comerciais que, na prática, continuavam a fluir por canais informais. Isto explica por que a manutenção de Arzila esteve permanentemente em risco até à sua perda, e por que a prioridade portuguesa acabou por se deslocar para a costa atlântica africana, onde a mina de ouro do Daraterra e o comércio de escravizados produziam fluxo real.

Biografia de D. Afonso V de Portugal - eBiografia
Biografia de D. Afonso V de Portugal - eBiografia

A Guerra de Sucessão de Castela (1475–1479)

Afonso V casou-se com Beatriz de Castela, filha ilegítima de João II de Castela, reivindicando o trono castelhano por esta via. A guerra resultante teve dois momentos decisivos: a batalha terrestre de Toro (1476) e a batalha naval de Guinea (1478). Toro foi tacticamente indecisa — ambos os lados reivindicaram vitória. A batalha naval, porém, foi estratégica: a vitória portuguesa garantiu o controle temporário da rota guineense. O Tratado de Alcáçovas (1479) resolveu o conflito com termos desiguais. Castela reconheceu Afonso V apenas como rei titular sem efeito prático. Portugal, por sua vez, las pretensiones sobre Castilla y obtuvo el reconocimiento exclusivo de sus conquistas y rutas africanas, así como las islas Canarias para Castela. Este tratado é, na verdade, um dos documentos mais subestimados da história das descobertas: delineou as esferas de influência lusocastelhanas muito antes de Torres delhadas.

Relação com a nobreza e governação interna

Um aspecto que os manuais tratam superficialmente é o tensão crónica entre Afonso V e o alto aparelho nobiliárquico. D. Fernando, Duque de Beja, e D. João, Mestre de Avis, exerceram papéis significativos, e o rei alternou entre condeciação e confronto com os grandes senhores. As provisões régias mostram que as concessões de terras e forais eram frequentemente revogadas ou contestadas anos depois, gerando litígios que perduraram décadas. A administração da justiça também era um campo de atrito. Os tribunais reais competiam com as justiças senhoriais, e muitos processos registrados na chancelaria envolvem apelações de fidalgos contra decisões de corregedores nomeados pelo rei.

O legado histórico e os equívocos comuns

Há duas ideias equivocadas que persistem e que valem a pena corrigir. A primeira é a de que as conquistas africanas foram um empreendimento puramente heroico e bem-sucedido. A documentação financeira mostra o contrário: foram extremamente onerosas e a maior parte das praças ocupadas foram perdidas ou mantidas por poucos anos. A segunda é a de que Afonso V foi um rei ausente por estar permanentemente em campanhas. Na realidade, ele passou grande parte do reinado em território português, tratando de questões administrativas e judiciais — a presença nas campanhas era intermitente, não contínua. Para quem deseja aprofundar, a edição das Crónicas de D. Afonso V por Madureira Marçal continua sendo a referência textural mais confiável. Para dados económicos e logísticos, os artigos de Hiram Souza e de Maria Filomena Vieira na Revista de História da Universidade de Coimbra oferecem análises críticas que vão além da narrativa tradicional. O volume "Africa e o Mar na Época dos Descobrimentos" (Colóquio Internacional, 1994) contém estudos de caso sobre o abastecimento das praças que são particularmente úteis. Os documentos originais podem ser consultados digitalmente no portal da Torre do Tombo. A navegação não é intuitiva — os metadados são incompletos em muitos fundos — mas o sistema de pesquisa por regime permite filtrar por anos de chancelaria, o que facilita localizar provisoras e cartas régias específicas sem folhear milhares de entradas irrelevantes.

Morte de Afonso V de Portugal | Magazine O Leme | Efemérides do dia 28 ...
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