Analgesico Dor De Ouvido
O que funciona (e o que não funciona) para dor de ouvido
A primeira coisa que todo mundo faz é tomar um remédio genérico sem pensar muito. Ibuprofeno 400mg, dipirona 1g, paracetamol. A maioria das dores de ouvido resolve com isso se for apenas inflamação simples. Mas se a dor vier de uma infecção bacteriana no ouvido médio, o analgésico só disfarça. A infecção continua evoluindo. Eu já vi muita gente ficar três dias tomando remédio na esperança de que passasse, e no final foi preciso antibiótico e até dreno. A escolha do medicamento depende inteiramente da causa. Dor de ouvido tem pelo menos três origens diferentes que respondem de formas completamente distintas aos mesmos fármacos. Vou listar do mais comum para o que mais assusta, mas raramente aparece. O primeiro é a otite média aguda, aquela infeccção atrás do tímpano. O fluido acumula, a pressão sobe, e a dor é latejante, piora deitada, e costuma vir acompanhada de febre baixa. Nesses casos, anti-inflamatórios não esteroidais como ibuprofeno ou naproxeno são superiores a paracetamol puro porque atacam a inflamação de verdade, não só o sinal de dor no cérebro. A diferença prática é de algo em torno de 30 a 40% de alívio a mais nas primeiras horas. Dipirona funciona bem também, mas em pacientes com risco de sangramento ou problemas renais leves, ela complica.
O segundo cenário é a otite externa, a famosa "otite do nadador". O canal auditivo inflama por exposição prolongada à umidade. A dor aqui é extrema ao puxar a orelha ou pressionar o trago. O analgésico oral ajuda pouco porque o problema é localizado. Gotas com antibiótico e corticoide, como ciprofloxacina com dexametasona, são o tratamento real. Eu já perdi horas tentando entender por que um paciente não respondia a analgésicos fortes quando simplesmente estava usando a via errada. O tratamento tópico resolve em 48 horas quando feito corretamente. O terceiro é a disfunção da tuba auditiva, frequentemente confundida com infecção. A pessoa tem a sensação de ouvido tapado, estalos, dor surda que varia ao longo do dia. Analgésicos quase não fazem diferença aqui porque não há processo inflamatório ativo no ouvido em si. Descongestionantes nasais por tempo limitado, masticar chiclete, e exercícios de ventilação tubária é que fazem o diferencial. Às vezes um anti-histamínico se houver componente alérgico. Tem ainda a referida, que é a mais traiçoeira. Dor de origem dental, bruxismo, ATM, ou até problemas cervical que irradia para o ouvido. Já atendi um caso onde o paciente jurava que era otite recorrente no mesmo ouvido por oito meses. O diagnóstico real foi um dente do siso infectado. O analgésico sempre aliviava um pouco, voltando a doer depois. Se a dor de ouvido não melhora com tratamento padrão de otite após cinco dias, ou se volta sempre no mesmo ouvido, avalie outras origens. Um exame odontológico e uma avaliação da ATM podem resolver algo que remédio para ouvido jamais resolveria.
Uma coisa que poucos consideram é a via de administração. Em crianças pequenas ou adultos com náusea intensa por conta da dor, supositórios de dipirona ou ibuprofeno desviam o problema da absorção gástrica. A biodisponibilidade do ibuprofeno via retal é cerca de 80%, quase tão boa quanto a oral. Não é um detalhe trivial quando o paciente não consegue manter nada estomago abaixo. Dosagem também merece atenção. Paracetamol em adultos pode ir até 750mg a cada 6 horas, máximo de 4g por dia. Quem toma com álcool ou tem hepática comprometida precisa reduzir pela metade. Ibuprofeno 400mg a cada 8 horas com alimento é o padrão, mas doses maiores, como 600mg, são mais eficazes para dor inflamatória intensa. Naproxeno tem meia-vida mais longa, 12 horas, o que significa menos tomadas e picos de dor entre doses menores. Isso é útil quando você precisa dormir a noite inteira sem acordar com a dor latindo. O erro mais comum que eu vejo é a combinação cega de vários analgésicos. Paracetamol com ibuprofeno juntos está bem documentado como seguro e eficaz, desde que as dosagens diárias máximas de cada um sejam respeitadas. Mas adicionar dipirona por cima sem critério só aumenta o risco de efeitos adversos sem ganho proporcional. A sinergia entre paracetamol e AINE é real, mas triplicar a medicação não é sinônimo de triplicar o alívio.

Se a dor for tão intensa que nem analgésico de farmácia consegue segurar, um médico pode prescrever anti-inflamatórios mais potentes ou até opioides leves por um período curtíssimo. Isso é exceção, não regra. Na prática, a maioria das otites responde ao manejo conservador nos primeiros dois dias. Se não responder nesse prazo, o problema provavelmente não é o que você está tratando.
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