Ao Ultrapassar Bicicletas A Atitude Que Favorece A Segurança Do
Ultrapassagem de bicicletas: o básico que todo motorista esquece
A maior parte dos motoristas não pensa duas vezes antes de passar perto de uma bicicleta. Entra na faixa, dá um giro de volante praticamente reto e segue em frente. O resultado costuma ser um vento lateral forte que desestabiliza o ciclista, ou pior, uma colisão direta. A regra do Código de Trânsito diz que você deve deixar uma distância lateral de pelo menos 1,5 metro. Na prática, quase ninguém respeita isso porque a maioria das vias urbanas não tem acostamento e os carros passam a centímetros do ciclista sem nem perceber. Isso não é opinião minha, é o que a legislação brasileira determina no artigo 165 do CTB, com a redação dada pela Lei 13.146/2015. Mas saber a lei não adianta se o motorista não mudar o comportamento. A velocidade reduzida é o fator mais importante porque ela te dá tempo de reação. Se o ciclista escorregar, desviar de um buraco ou frear de repente, com 40 km/h você para em cerca de 15 metros. Com 60 km/h, são 28 metros. A diferença é absurda quando o cenário é uma rua de bairro com porta de carro abrindo do nada. A folga de 1,5 metro também não é um palpite. É a distância que evita que o espelho retrovisor ou a lateral do veículo arranhe o ciclista. Eu já vi ciclistas caírem porque um carona abriu a porta do lado oposto e o vento da porta empurrando a bicicleta contra o carro. Isso é mais comum do que parece. A solução é olhar pelo retrovisor antes de ultrapassar. Se houver algum veículo estacionado ou em movimento do outro lado, espere. Não adianta tentar abrir espaço manobrando entre o ciclista e o tráfego contrario. Você vai criar um efeito pinça que quase sempre termina mal.
Um detalhe que muita gente ignora: o ciclista precisa de espaço para manobrar. Buracos, lixeiras, tampas de bueiro, areia nas interseções — tudo isso obriga o ciclista a se deslocar lateralmente dentro da pista. Se você já passou colado nele, quando ele precisar desviar desses obstáculos, não vai ter para onde ir. Por isso, em vias de mão única com apenas uma faixa, às vezes o mais seguro é nem tentar ultrapassar. Sigue atrás até encontrar um trecho mais largo ou uma faixa adicional. Isso pode parecer lento, mas leva dois minutos a mais na maioria dos casos e evita o principal motivo de acidentes nessa situação. Há também o fator vento criado pelo carro. Um veículo em movimento empurra o ar para os lados, e esse deslocamento atinge o ciclista mesmo sem contato físico. Em velocidades acima de 50 km/h, o efeito é significativo. A sensação para o ciclista é semelhante a entrar numa tunnel de vento. Se a bicicleta estiver leve ou o ciclista estiver fatigado, o impacto pode ser o suficiente para tirá-lo da trajetória. Reduzir para 30 km/h durante a ultrapassagem elimina praticamente esse problema. Leva quatro segundos a mais, no máximo. O uso do seta também é obrigatório e muitos motoristas pulam essa etapa. O ciclista precisa saber que você vai ultrapassar para se posicionar corretamente. Sem a seta, ele não tem como prever sua intenção e pode fazer um movimento brusco por insegurança. Ligue a seta com antecedência, olhe pelo retrovisor e pela janela lateral para confirmar que a faixa está livre, e só então execute a manobra. Se não houver espaço suficiente para os 1,5 metro exigidos, aguarde. Não existe pressa que justifique colocar alguém em risco.
Um caso específico que eu enfrentei recentemente: estava em uma rua de mão dupla com duas faixas, ultrapassando um ciclista em trecho reta. Quando passei ao lado dele, notei que havia uma sarjeta aberta logo após a biciucla. Se eu tivesse mantido a velocidade, o ciclista teria sido obrigado a se aproximar do meu carro no momento exato da ultrapassagem, num momento em que nenhuma das duas partes poderia reagir rápido o suficiente. Eu reduzi para uns 20 km/h e esperei ele superar o obstáculo. Demorou três segundos. Foi o suficiente para evitar uma situação potencialmente grave. Outro ponto negligenciado é a ultrapassagem em curvas. Jamais tente ultrapassar uma bicicleta numa curva, mesmo que a faixa do lado pareça livre. A visibilidade é reduzida e você não consegue calcular a distância real que vai levar para completar a manobra. Além disso, o ciclista tende a se posicionar mais ao centro da faixa em curvas por estabilidade. Insistir nessa manobra é pedir problema. O ideal é manter-se atrás até a curva terminar e a pista straightar. Encrenca real também acontece em semaforização. Quando o sinal fecha e os carros estão parados, alguns motoristas tentam passar pelo lado direito dos veículos, justo onde os ciclistas costumam circular. Isso é perigoso porque o ciclista pode estar se preparando para virar à direita ou frear bruscamente. A regra geral é: ciclista tem direito à faixa inteira assim como qualquer outro veículo. Não tente furar pela direita. Se precisar avançar, aguarde na fila como todo mundo.

Aqui vai algo contra-intuitivo que pouca gente considera: em vias com tráfego pesado e poucos espaços para ultrapassagem segura, o ciclista pode acabar sendo mais rápido do que um carro que tenta contorná-lo várias vezes. Ficar atrasado do ciclista por causa de ultrapassagens mal executadas gera mais estresse para todos. Manter uma velocidade constante, respeitando o ciclista, muitas vezes resulta num tempo total de viagem menor do que ficar acelerando e freando sem parar. O que também ajuda muito é entender que bicicletas não têm a mesma inércia que carros. Elas param rápido, mas também aceleram devagar. Um ciclista subindo uma ladeira pode estar a 10 km/h. Forçar a ultrapassagem nesse cenário é arriscado porque você vai precisar de mais velocidade para fazer a manobra com segurança, e isso aumenta o risco se houver algum imprevisto. Passe com cautela ou aguarde o topo da ladeira. Resumindo sem resumo: reduza a velocidade, deixe 1,5 metro de folga, use a seta, olhe pelos retrovisores e nunca insista se o espaço não for suficiente. Se a via for apertada, siga atrás até haver condições seguras. O ciclista não está ali por acaso, ele tem tanto direito de usar a rua quanto qualquer outro condutor. Tratar isso como rotina e não como favor faz toda a diferença na prática.
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