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Ao Usar Os Pronomes Demonstrativos O Produtor Do Texto

Ao Usar Os Pronomes Demonstrativos O Produtor Do Texto

Pronomes demonstrativos e a ancoragem do produtor no texto

Ao usar os pronomes demonstrativos, o produtor do texto está fazendo uma escolha de posicionamento discursivo, não apenas substituindo um substantivo. Isso é algo que a maioria dos materiais didáticos ensina de forma rasa, mas na prática isso redefine completamente a relação entre autor, leitor e o objeto de que se fala. Este, esse, aquele — cada um carrega um posicionamento diferente. O problema é que quase todo mundo para de estudar nisso depois da tabela básica: "este = perto de quem fala, esse = perto de quem ouve, aquele = longe de ambos". Na escrita real, especialmente em textos argumentativos e acadêmicos, a coisa é muito mais complicada. Eu trabalhei com revisão de teses e artigos por anos, e o erro mais frequente que vejo é o uso indevido de "esse" quando o autor deveria estar usando "este", simplesmente porque o falante brasileiro padrão tende a naturalizar "esse" como o demonstrativo genérico. Resultado: o leitor perde a referência, o parágrafo vira ambiguidade, e o revisor gasta vinte minutos reorganizando tudo. Já vi uma pessoa refazer três parágrafos de uma introdução só porque o demonstrativo estava ancrando o conceito errado no leitor.

O que funciona na prática é ler cada frase isoladamente e perguntar: a que entidade eu estou me referindo, e qual posição eu quero ocupar em relação a ela? Se você está apresentando um conceito pela primeira vez e quer que o leitor o receba como algo novo e distante, "aquele" pode ser a escolha certa. Se você está desenvolvendo um argumento e quer que o leitor sinta que está construído com você, "este" cria essa proximidade. Um detalhe que pouca gente menciona: a concordância de gênero e número com o substantivo é só a camada mais óbvia. A camada invisível é o papel de each demonstrativo no fluxo argumentativo. Quando você usa "este" repetidamente, o texto ganha coerência temática porque você está constantemente puxando o foco para o que está sendo discutido agora. Quando usa "esse" em excesso, o texto tende a parecer descritivo e desconectado, como se o autor estivesse apenas apontando coisas em vez de construír um raciocínio. Um caso específico que lembro: revisei um texto técnico onde o autor usava "esse modelo" para se referir a um conceito que havia sido introduzido no parágrafo anterior, mas que era o próprio foco central do artigo inteiro. O correto ali era "este modelo", porque o autor estava se posicionando como protagonista daquele conceito, não como observador distante. Trocar apenas esse pronome, sem alterar nada no resto do texto, mudou completamente a leitura. O revisor que leu a versão corrigida disse que o argumento ficou "muito mais firme" — sem entender exatamente por quê, mas sentindo a diferença.

Outro ponto importante: pronomes demonstrativos também aparecem em construções como "o fato de que", "a questão de que", e aí o uso de "isto" ou "isso" para retomar ideias anteriores muda o peso da retomada. Usar "isso" para retomar algo complexo que você acabou de discutir dá a sensação de que você está tratando o assunto como algo concreto e fechado. Usar "isto" nesse mesmo contexto transmite a impressão de que o assunto ainda está sendo elaboradou no momento da escrita, o que é diferente. A desvantagem prática é que dominar isso exige prática ativa de leitura e reescrita. Não adianta decorar tabelas. Você precisa escrever, reler, perceber onde o demonstrativo está confundindo o leitor, e ajustar. Em textos longos, isso consome tempo adicional — eu estimeio que um bom domínio dessa camada discursiva dos pronomes aumente o tempo de revisão em cerca de 30 a 40% para textos técnicos, mas o ganho em clareza e persuasão é proporcional. Se o objetivo for apenas escrever algo compreensível e funcional, o uso básico dos demonstrativos é suficiente. Mas se você quer que o texto tenha densidade argumentativa, clareza referencial e posicionamento consciente do produtor em relação ao conteúdo, vale a pena investir tempo nisso. A curva de aprendizado é real, mas os resultados aparecem desde o primeiro texto bem revisado nessa perspectiva.

Ao Usar Os Pronomes Demonstrativos O Produtor Do Texto - RETOEDU
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