Araucaria Femea E Macho
Entendendo a dincotomia da araucária
Araucaria angustifolia é uma espécie dióica, o que significa que existem árvores macho e árvores fêmea separadas. Não é algo que se confunda. Nas araucárias, a distinção entre os sexos é visualmente clara para quem sabe o que está olhando, mas o timing reprodutivo é onde a coisa fica complicada de verdade. O problema é que a maioria das pessoas só descobre isso quando vai tentar produzir mudas e se dá conta de que ter um pião no quintal não garante que as sementes sejam viáveis. O pião que cai no chão precisa ser polinizado. Se a árvore estiver isolada, sem um macho próximo dentro do raio eficaz de dispersão do pólen (que varia bastante dependendo das condições climáticas e da topografia), o cone feminino simplesmente aborta ou seca sem completar a formação da semente.
O que diferenciar araucaria femea e macho na prática
Os cones masculinos são encontrados nos galhos superiores, em agrupamentos chamados de estrobilos masculinos. Eles têm formato alongado, mais ou menos cilíndrico, com cerca de 8 a 15 centímetros de comprimento, e são amarelados a alaranjados quando maduros. A função deles é pura e simples: liberar pólen. E liberam muito pólen. No momento de anthese, que costuma ocorrer entre setembro e novembro no sul do Brasil, uma única árvore macho pode cobrir um raio de dezenas de metros com uma nuvem amarela visível a olho nu. Se você mora perto de uma floresta com araucárias macho nessa época, sabe exatamente do que estou falando. A poeira de pólen entra em casa, vira crosta nos carros, irrita as vias respiratórias. Os cones femininos são outra história. Eles ficam posicionados de forma mais dispersa, menos aggregada que os masculinos, e têm formato globoso ou ovado, com cerca de 10 a 20 centímetros de diâmetro. A superfície é formada por escamas coriáceas dispostas em espiral. A coloração varia do verde-escuro ao violáceo conforme a maturação. O cone feminino amadurece lentamente. Pode levar de 14 a 18 meses da polinização até a liberação das sementes. Isso significa que na primavera você vê os cones verdes crescendo e só no inverno seguinte, ou até no outono do ano seguinte, as escamas se abrem e os pinhões caem. O detalhe que ninguém menciona e que é crucial: a fenologia não é sincronizada automaticamente. Eu já passei por isso na prática. Havia dois sítios na Serra do Mar um do outro, separados por talvez 300 metros de mata Atlântica. Deu trabalho entender que o sexo de cada araucária adulta era apenas metade da equação. A outra metade era o timing. As árvores do sítio A floresciam como machos três semanas antes das do sítio B. Quando fui fazer a coleta de sementes para um projeto de reflorestamento, descobri que os cones femininos estavam receptivos tarde demais para o pólen disponível. Resultado: taxa de frutificação próxima de zero naquele ano. A solução foi identificar os machos com antese mais precoce e fazermos polinização manual, coletando os cones masculinos ainda verdes e esfregando o pólen diretamente sobre os estigmas dos cones femininos. Funcionou. Roteirizei o processo e consegui taxa de fertilização de cerca de 60% na safra seguinte.
Outra coisa que pouca gente leva a sério é a longevidade reprodutiva. Araucárias começam a produzir cones quando têm entre 20 e 30 anos, dependendo das condições de crescimento. Em floresta densa, podem levar mais tempo porque a competição por luz atrasa o desenvolvimento. Árvores isoladas em pastagem, por outro lado, costumam frutificar mais cedo. Isso é relevante se você está planejando um plantio para produção de sementes ou para conservação. Plantar 50 mudas e esperar que delas 25 sejam fêmeas produtivas dentro de 25 anos é uma aposta financeira pesada. A proporção sexual em populações naturais tende a variar, mas estudos indicam que em áreas degradadas ou fragmentadas a proporção pode se desbalancear porque os machos morrem mais cedo devido ao estresse ambiental, deixando as fêmeas sem parceiro. Para quem quer identificar no campo, o caminho mais confiável é observar os cones.folhagem e tronco são idênticos entre os sexos. Não adianta procurar diferença na copa ou na casca. Os machos produzem os estrobilos masculinos em cachos densos nos ápices dos ramos. As fêmeas produzem os cones globosos de forma mais solitária. Na dúvida, espere a estação reprodutiva. É a única forma de ter certeza sem fazer análise genética. Existe ainda o ponto sobre a viabilidade das sementes. Cone de fêmea não polinizada pode parecer cheio e saudável por fora, mas por dentro as sementes são vazias ou abortadas. O teste prático é pesado as sementes em água: as que flutuam são geralmente inviáveis. As que afundam têm maior probabilidade de germinar, mas mesmo essas precisam estar frescas. Pinhão velho, armazenado por mais de seis meses fora do congelação, perde vigor rapidamente. Em condições ambientes, a taxa de germinação cai para menos de 20% após o primeiro ano. Se o objetivo é reflorestamento, a janela de plantio direto é estreita.

Um problema técnico que merece atenção é a pré-germinação. A semente de araucária possui dormência física parcial causada pelo tegumento coriáceo. Para acelerar a germinação, o método mais eficaz é escarificação mecânica leve com lixa ou corte parcial do tegumento na extremidade oposta ao hilo, seguida de imersão em água morna por 12 horas. Isso reduz o tempo de germinação de 60-90 dias para cerca de 30-45 dias, dependendo da temperatura do substrato. Substrato deve ser bem drenado, com pH entre 5,5 e 6,5. Argila pura trava a germinação. Areia pura resseca rápido. Se a ideia é plantar araucária para atrair fauna ou para produção de pinhão, o planejamento precisa considerar o período de carência. Uma araucária plantada como muda de 50 centímetros leva em média 8 a 12 anos para atingir o porte reprodutivo inicial. Os primeiros cones aparecem, mas a produção comercial só se estabelece após 20 anos. E mesmo assim, a frutificação é periódica. Anos de abundância alternam com anos de escassez, um fenômeno chamado masting, comum em muitas espécies de coníferas. Não adianta esperar colheita todo ano nos primeiros quinze anos.
Pegadinhas e limitações
Araucaria angustifolia está listada como criticamente em perigo na lista vermelha da IUCN. A espécie não pode ser coletada na natureza para comércio ou transferência sem autorização do IBAMA e dos órgãos estaduais. Mudar uma araucária de lugar é crime ambiental. A legislação é clara sobre isso e as multas são significativas. Para fins de pesquisa ou reflorestamento, é necessário obter autorização prévia, apresentar projeto técnico e, preferencialmente, usar sementes de fontes certificadas ou de viveiros autorizados. O viveirismo de araucária é tecnicamente viável mas demande tempo e infraestrutura. O enxerto é o método mais rápido para clonar árvores selecionadas de alto valor genético, mas exige técnica cirúrgica. O plantio direto de sementes é mais simples mas meno previsível em taxa de estabelecimento. O substrato ideal para semeação é mistura de terra vegetal, areia e matéria orgânica na proporção de 2:1:1, com drenagem garantie. Tubetes de 200 centímetros cúbicos são o padrão mínimo. Raiz pivotante da araucária é profunda e delicada. Transplante com torrão pequeno tem alta taxa de mortalidade nos primeiros dois anos. A exposição solar deve ser plena. Árvores jovens em sombra parcial crescem mais rápido em altura mas ficam etioladas e suscetíveis a_patogenicos.fungícos. O estresse hídrico é o principal fator de mortalidade em mudas implantadas. Irrigação por gotejamento com ciclos curtos e frequentes é mais eficiente que regas demoradas espaçadas. A araucária adulta tolera seca razoavelmente bem, mas mudas nos primeiros três anos não toleram.
Há ainda a questão da interação com herbívoros. Porcos bravos, cutias e ratos-do-bosco consomem sementes e mudas. Em áreas de restauração ecológica, o cercamento ou o uso de repelentes é quase obrigatório nos primeiros cinco anos. Sem proteção, a taxa de perda de mudas pode ultrapassar 70% em regiões de alta pressão de herbivoria. Resumindo o essencial: identificar o sexo da araucária exige observar os cones durante a estação reprodutiva. A sincronia entre machos e fêmeas determina a viabilidade da frutificação. Sementes coletadas de árvores isoladas podem ser estéreis. O plantio para produção exige paciência de décadas, não de estações. E a legislação protege a espécie de forma rígida. Se o objetivo é ter pinhão no quintal, considere que a árvore vai ultrapassar sua expectativa de vida em muitos casos e que a sombra projetada cobre uma área considerável quando adulta.

Galeria
-
Pesquisa desenvolve araucárias-macho que produzem pólen em menos da ... -
Vídeo: Especialista explica a diferença entre araucária feminina e ... -
Araucaria Angustifolia: Botânica, Evolução e Dispersão