Arvores Nativas Do Rs
Guia prático para identificar e cultivar espécies florestais nativas do Rio Grande do Sul
A maioria das pessoas planta aroeira, erva-mate ou pinheiro-do-paraná achando que estão fazendo algo correto. O problema é que o Rio Grande do Sul tem biomas completamente diferentes — a mata Atlântica no litoral, a araucária no planalto, o Pampa nas planícies e a floresta de transição no nordeste do estado. Quando você planta uma espécie fora da sua zona natural, ela sobrevive mas não se desenvolve direito. Já vi um caso real em Cachoeira do Sul onde alguém plantou mais de duzentas mudas de pariquita em solo de pampa sem cobertura de mata ciliar. As árvores viveram, mas nunca fecharam o dossel porque o solo é arenoso e retém pouca água. A correção foi fazer adubação verde com crotalária nos primeiros dois anos e irrigar nas primeiras secas. árvores nativas do rs representam uma diversidade muito maior do que o senso comum sugere. Cada formação vegetal exige condições específicas de solo, incidência solar e umidade. Antes de qualquer coisa, você precisa mapear onde está a sua área. O Bioma Pampa, por exemplo, ocupa cerca de sessenta por cento do território gaúcho e tem espécies que ninguém conhece fora da região. Já a Floresta com Araucária, presente na Região Sul, exige solos profundos e bem drenados.
árvores nativas do rs: espécies principais por bioma
No bioma de Araucária, as espécies-chave são a araucária (Araucaria angustifolia), a palmeira juçara (Euterpe edulis), a canela-sassafrás (Ocotea catharinensis) e a piporana (Myrsine umbellata). A araucária cresce lentamente nos primeiros quinze anos. Ela precisa de luz direta, mas o sub-bosque deve ser mantido com cobertura vegetal nativa para proteger o tronco. Em plantios comerciais, o ciclo de corte raramente passa de sessenta anos. Plantar araucária para lenha é perda de tempo. O crescimento em diâmetro é baixo e a madeira, quando bem secas, é muito pesada e difícil de trabalhar sem equipamento industrial. Na Mata Atlântica gaúcha, as principais espécies são a figuiera-brava (Ficus organensis), o pau-brasil (Paubrasilia echinata), a peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron) e o ipê-amarelo (Handroanthus ochraceus). O ipê-amarelo é uma das espécies mais indicadas para reflorestamento urbano porque tolera solo compactado e poluição. Mas ele cresce devagar nos primeiros cinco anos e precisa de poda de formação desde o início. Quem deixa o ipê crescer sozinho, sem condução da liderança, acaba com árvores bifurcadas que não valorizam o tronco. No bioma Pampa, as espécies mais relevantes são o timbó-verdadeiro (Croton sonderianus), a cegonha (Schinus foliosa), a erva-baleeira (Cordia trichotoma) e o alecrim-pirenense (Baccharis dracunculifolia). Essa última não é árvore, é arbusto, mas frequentemente aparece em listas de nativas e causa confusão. O timbó-verdadeiro é usado para recuperação de áreas degradadas porque fixa nitrogênio e cresce bem em solo pobre. Ele é resistente à seca mas não suporta alagamento.
como fazer o plantio corretamente
O primeiro erro que eu vejo todo dia em consulta de campo é a falta de preparo do solo. Muita gente abre a cova, coloca a muda e completa com a terra extraída sem nenhuma correção. Em solo argiloso compactado, como é comum na depressão central do RS, isso funciona mal. A raiz não consegue penetrar e a planta morre na primeira estiagem. O procedimento correto é: abrir covas de pelo menos cinquenta centímetros cúbicas, remover a camada superficial do solo e misturar com trinta por cento de composto orgânico maduro. Se o solo for muito argiloso, acrescentar areia média na proporção de vinte por cento. Deixar a cova arejada por uma semana antes de plantar. Isso faz diferença real na taxa de sobrevivência, especialmente para espécies de crescimento lento como a araucária e a peroba. A época ideal de plantio no RS vai de maio a agosto. No sul do estado, pode-se estender até setembro se o inverno for ameno. No norte, a janela é menor porque as geadas podem acontecer até meados de setembro. Já plantei mudas de peroba-rosa em abril em Vacaria e a taxa de pegamento foi superior a noventa por cento. Quando tentei o mesmo plantio em outubro, com o solo ainda seco da primavera, nenhuma das trinta mudas survived. A diferença estava na disponibilidade hídrica, não na temperatura.

O espaçamento varia conforme o objetivo. Para reflorestamento de APPs, use dois metros entre linhas e um metro entre plantas. Para manutenção de biodiversidade, o ideal é trinta centímetros entre plantas nas fileiras e três metros entre fileiras, variando conforme a porte da espécie adulta. Espécies como a juçara precisam de mais espaço porque fazem parte do sub-bosque e competem com as árvores maiores.
problemas práticos que ninguém informa
Um dos problemas mais comuns é a competição com capim-gordura (Melinis minutiflora). Essa gramínea invasora forma tapete denso e rouba nutrientes das mudas nos primeiros dois anos. Se você não capinar manualmente ou com herbicida seletivo na época certa, as nativas ficam ofuscadas. O correto é manter uma faixa de dois metros limpa ao redor de cada muda durante os primeiros vinte e quatro meses. Após isso, a copa das árvores já sombreia o solo o suficiente para inibir o crescimento do capim. Outro problema que vejo frequentemente é a escolha de espécies pela beleza estética em vez da adequação ecológica. O jambo-rosa (Eugenia uniflora) é bonito e frutifica bastante, mas atrai muita fauna que pode se tornar pragas em áreas próximas a culturas agrícolas. Em propriedades onde se cria gado, os animais comem os brotos jovens. Nesse caso, é melhor usar cerca viva de araticum (Annona crassiflora) ou de umbu (Spondias tuberosa), que são espinhentos e funcionam como barreira natural. Há também o caso da palmeira juçara. Ela é extremamente sensível à transplantação de mudas grandes. Mudas com mais de noventa centímetros de altura têm taxa de pegamento inferior a cinquenta por cento porque o sistema radicular é pivotante e frágil. O ideal é comprar mudas com no máximo sessenta centímetros e plantar nos primeiro meses após a germinação. A juçara demora oito a quinze anos para começar a frutificar. Quem espera colheita rápida nessa espécie está enganado.
Para quem quer obter mudas de forma caseira, a técnica de semeio direto em sacos de agrofibra funciona bem para a maioria das espécies. O substrato deve ser composto por três partes de terra vegetal, uma parte de areia e uma parte de esterco curtido. As sementes de araucária, por exemplo, precisam ser semeadas imediatamente após a colheita, no final do outono. Sementes secas perdem viabilidade em poucas semanas. Já as sementes de ipê podem ser armazenadas por seis meses se mantidas em saco de papel em local seco e fresco.

quais espécies evitar em determinadas regiões
A aroeira (Myracrodruon urundeuva) é frequentemente sugerida como espécie universal, mas ela não se adapta bem a solos alagadiços. Se a sua área tem lençol freático alto, especialmente na região do Delta do Jacuí ou nas várzeas do rio Uruguai, evite plantar aroeira. Ela sobrevive mas não cresce e fica propensa a pragas como a broca-do-tronco. Nesse caso, prefira o embiruçu (Tabebuia alba) ou o canjarana (Cordia trichotoma). O pinheiro-do-paraná é outra espécie muito mal compreendida. Ele só cresce em altitude acima de quinhentos metros e em solos ácidos. Plantar pinheiro em área de planície é jogar dinheiro fora. O crescimento é extremamente lento nessas condições e a árvore fica predisposta a doenças fúngicas. Se a sua área está abaixo dessa cota altimétrica, opte por espécies do cerrado gaúcho como o jambeiro (Brosimum util e o pereiro (Aspidosperma polyneuron).
fontes confiáveis para consultar espécies
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (ICMBio) publica listas atualizadas de espécies ameaçadas do Rio Grande do Sul. O trabalho da Secretaria Estadual do Meio Ambiente também mantém um catálogo técnico das espécies nativas por município. Para fins de licenciamento ambiental, a norma estadual exige o uso de espécies nativas da região em projetos de recomposição florestal. Verifique a resolução Conama 443/2011 e as instruções normativas do SEMA-RS específicas para cada mesorregião. Se o objetivo é comercial, a EMBRAPA oferece manuais técnicos para cultivo de espécies nativas com foco em produção de madeira e frutos. Os dados sobre crescimento, manejo e Colheita são baseados em experimentos de campo realizados em Estação Experimental de Bento Gonçalves e Cruz Alta. Para informações sobre sementes e mudas, o Banco Ativo de Sementes do Rio Grande do Sul, vinculado à UFRGS, disponibiliza catálogo completo com procedência geográfica das coletas. Na prática, o maior desafio ao trabalhar com arvores nativas do rs não é a falta de informação, mas a falta de paciência com o tempo de crescimento. A maioria das pessoas espera resultados em três anos. Espécies como a peroba, a canela e a araucária levam dez, quinze, vinte anos para alcançar porte comercial. Quem entra nesse segmento precisa ter horizonte de longo prazo ou focar em espécies de ciclo mais curto como o jambeiro e o umbuzeiro, que frutificam a partir do terceiro ou quarto ano. O lucro vem da madeira ou dos frutos, nunca dos dois simultaneamente nos primeiros ciclos de plantio.
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