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Augusto Dos Anjos Obras

Augusto Dos Anjos Obras

O que você precisa saber sobre Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos escreveu praticamente tudo o que tinha para escrever em dois livros. A obra completa cabe num volume fino. O problema é que ler ele exige um preparo específico que a maioria dos estudantes de letras não tem quando encontra os versos pela primeira vez. Nascido em Campina Grande, Paraíba, em 1884, formou-se em farmácia mas nunca exerceu a profissão como atividade principal. Viveu pouco mais de trinta anos. Morreu de pneumonia em 1914, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, onde trabalhava como perito em uma agência fiscal. A pobreza durante a vida dele é documentada em correspondência com amigos. Isso importa porque os versos que sobram refletem uma perspectiva materialista sobre o corpo e a morte que não é mero recurso estilístico.

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O livro Eu foi publicado em 1912 por subscrição, ou seja, o próprio autor angariou fundos entre amigos e conhecidos para custear a impressão. Foram impressas mil cópias. Uma delas está na Biblioteca Nacional. O volume contém dezenove poemas, dos quais Xipe Totec é o mais conhecido, seguido por Vermelho Vinho, Ao Passar de uma Lepra e Narciso e Eco. O poema-título Eu fecha a coletânea com dezesseis estrofes de versos alexandrinos e uma cosmovisão explicitamente nihilista e materialista. O segundo livro, Do Inferno, saiu postumamente em 1920, organizado por amigos. Tem doze poemas. Dois desses textos, Cantico do Cálice e O Sacerdote da Charnelica, são considerados entre os mais densos da poesia brasileira do século vinte, mas passam despercebidos porque a recepção crítica sempre privilegiou Eu. Há ainda os Poemas Póstumos, reunidos em edições posteriores, incluindo fragmentos e rascunhos que não integraram nenhuma das duas coletâneas originais. As edições de referência são as da Companhia Editoral (1969) e a da Livraria Francisco Alves, mas a versão mais acessível hoje em dia é a da Editora José Olympio, que traz notas do próprio autor explicando escolhas vocabulares específicas.

Uma coisa que poucos notam: Augusto dos Anjos não era simbolista. Ele rejeitava abertamente o movimento. A crítica escolar ancora ele no Simbolismo por conveniência periodizadora, mas os versos bebem de Fontanier, de Baudelaire e de uma tradição parnasiana que ele distorce deliberadamente. Quando você lê Minha Vida e encontra termos como carbonatos, albuminoides e putrefação, isso não é ornamento. É programa estético. O problema prático de editar Augusto dos Anjos é ortográfico. Os versos usam grafias que o acordo ortográfico posterior apagou. Albuminoides vira albuminóides, etherscholio desaparece, e isso cria ruído na leitura. Eu trabalhei numa revisão crítica dessas edições e o caminho mais limpo é consultar o fac-símile da primeira edição de 1912 antes de confiar em qualquer versão moderna. As reimpressões introduzem erros de digitação que o autor não cometeu, especialmente em palavras técnicas extraídas da química e da biologia da época. Se você quer estudar os poemas com profundidade, o guia de leitura funciona melhor se começar por Do Inferno em vez de Eu. O primeiro livro mostra um poeta mais seguro da forma. Eu é mais experimenta e isso explica por que ele dividiu a crítica. O poema-título funciona perfeitamente se você o ler como um documento de uma mente tentando conciliar ciência e desespero existencial. Não funciona se você tratar como simples manifestação decadentista.

Eu Augusto Dos Anjos - FDPLEARN
Eu Augusto Dos Anjos - FDPLEARN

O acesso aos textos é gratuito em bases digitais. A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional disponibiliza integralmente a primeira edição de Eu em alta resolução. O projeto Domínio Público do Ministério da Educação também oferece versões digitalizadas. Nenhuma dessas fontes é confiável para citações acadêmicas sem confronto com o original impresso, mas servem para leitura casual e preparação de seminários. Há edições comentadas da Editora Universidade de Brasília e da Editora UFMG que trazem introduções úteis, mas os comentários mais sólidos ainda são os de autores como Alfredo Bosi em Diversões da Luz e os ensaios de José Miguel Siqueira sobre a influência da medicina no verso dele. Nada disso substitui a leitura direta dos poemas. O resto é secundário.