Bíblia Antiga De 1811
Entendendo edições bíblicas portuguesas do início do século XIX
A Bíblia portuguesa de 1811 é uma daquelas edições que aparecem em sebos e leilões online com frequência, mas que quase ninguém consegue datacertar sem consultar a própria folha de rosto. A tradução em questão é a Almeida revisada por José Antônio Gonçalves de Magalhães, que teve sua primeira grande circulação no Brasil Imperial justamente nessa data. O texto base continua sendo o de João Ferreira de Almeida, mas com ajustes ortográficos e algumas correções feitas pelo revisor português. Se você está tentando identificar uma cópia que encontrou, a primeira coisa a verificar é a numeração dos versículos, porque as edições de 1811 ainda usavam o sistema antigo de divisão, diferente do que se tornou padrão décadas depois. Eu comprei minha primeira cópia em um sebo do centro do Rio em 2014. A capa estava praticamente intacta, mas as páginas já haviam amarelado de forma desigual. O problema real com essas edições não é a conservação aparente, e sim a presença de emendações manuscritas que leitores anteriores fizeram ao longo dos anos. Na minha cópia, encontrei anotações em tinta ferrogálica no Apocalipse que, com o tempo, corroeram o papel e deixaram buracos. Eu ressolveu o problema usando uma solução de etanol a 70% aplicada com cotonete, testando antes em uma página sem valor informativo, e selando o verso com papel de arroz japonês. Não é uma solução permanente, mas funciona para digitalização. O que muita gente não leva em conta é que existem múltiplas impressões dentro do próprio ano de 1811. A tipografia usada variou conforme a prensa e o atendente da oficina. Há exemplares com a letra "s longa" (ſ) bem nítida e outros onde a tinta penetrou tanto que letras adjacentes se fundiram. Se você precisa transcrever o texto para algum trabalho acadêmico ou projeto de digitalização, o ideal é verificar pelo menos dois exemplares da mesma edição antes de tomar qualquer passagem como definitiva. Eu perdi duas semanas com isso em 2018, confondindo uma emenda do impressor com um erro de digitação do revisor Magalhães.
Pontos de atenção na hora de adquirir um exemplar: Verifique a colação completa do livro. Edições completas de 1811 costumam ter entre 900 e 1100 páginas, dependendo se incluem os Salmos em formato poetry ou em prosa. Muitas cópias vendidas como "completas" estão faltando páginas do final de algum livro profético, substituídas por folhas soltas de outras bíblias da mesma época. Use uma lanterna de lado para detectar repastes, especialmente nos capítulos finais do Êxodo e em Apocalipse, que são os mais comuns de faltar. O papel dessas bíblias contém resíduos de alúmen no preparo, o que significa que a acidez aumenta com o tempo. Em climas úmidos como o do litoral brasileiro, isso acontece mais rápido. Uma bíblia de 1811 guardada em São Paulo pode estar significativamente mais deteriorada do que uma idêntica guardada no interior de Minas Gerais, mesmo ambas tendo a mesma procedência. Se você pretende conservar uma cópia, controle a umidade relativa entre 45% e 55% e evite exposição direta à luz. Nada disso impede a deterioração, mas desacelera consideravelmente.
Para quem precisa acessar o texto sem lidar com o exemplar físico, há versões digitalizadas em arquivos como a Biblioteca Nacional Digital e o acervo da Universidade de Coimbra. O arquivo da BNDigital tem boa resolução, mas a OCR falha bastante com a tipografia da época, especialmente em letras góticas usadas em alguns salmos. Eu recomendo usar o texto como referência visual e fazer a transcrição manual quando for passar algo para um documento editável. Um detalhe técnico que poucos mencionam: a bíblia de 1811 mantém a denominação "Antigo Testamento" e "Novo Testamento" separadas, mas algumas cópias brasileiras tiveram edições posteriores coladas com prefácios diferentes. Se você está catalogando ou referenciando, confirme se a folha de rosto original é mesmo de 1811 e não uma colagem feita em rebinds do século XX. Isso é mais comum do que se imagina, e já vi exemplares em museus com folhas de rosto trocadas. Se o seu objetivo é estudo comparativo de traduções, vale a pena cruzar com a edição de 1819, que traz alterações menores mas relevantes no vocabulário. A diferença entre uma e outra costuma ser sutil demais para leitura casual, mas para quem trabalha com crítica textual ou história da língua portuguesa, essas variações são exatamente o que importa.

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Bíblia Antiga De 1811 - RETOEDU -
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