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Blocos Estruturais De Concreto

Blocos Estruturais De Concreto

Montagem prática de paredes com blocos estruturais

A maioria dos projetos de alvenaria estrutural no Brasil utiliza blocos de concreto moldados a vibropressão com geometria que permite o alinhamento das armaduras verticais e horizontais. O sistema funciona bem quando o projeto é sério. Funciona mal quando alguém tenta adaptar uma rotina de alvenaria convencional — que usa tijolo cerâmico e argamassa — para blocos estruturais. A diferença não é apenas o material. É o método. Eu comecei a trabalhar com esse sistema em 2008, em obra de fundação rasa com laje nervurada. O projeto pedia uso de blocos estruturais de concreto para todas as paredes portantes. No começo eu tratava como tijolo comum. Paguei caro por isso. O primeiro erro foi misturar cota de assentamento com a prática de regular paredes de alvenaria convencional no final. Blocos estruturais não recebem argamassa de regularização após a montagem. A regularização tem que acontecer antes, no chapisco e contrachapisco, senão a parede fica desalinhada e a armadura não entra nos furos.

O que são blocos estruturais de concreto e quando usar

Blocos estruturais de concreto são elementos moldedos com betonilha de alta resistência compressiva, normalmente entre 8 MPa e 14 MPa, com dimensões padronizadas que variam conforme o fabricante. Os mais comuns no mercado brasileiro têm 14 cm de altura por 29 cm de comprimento, com espessura variando entre 8 cm, 10 cm, 12 cm e 14 cm. A resistência mínima exigida pela NBR 16.256 é de 4 MPa para blocos usados em alvenaria estrutural, mas projetos sérios costumam exigir pelo menos 6 a 8 MPa. O diferencial principal é o furo central. Esse furo existe para receber a armadura vertical, que é preenchida com concreto de preenchimento — o chamado concretinho de preenchimento, ou concretagem dos furos. A função estrutural não está no bloco sozinho. Está no conjunto bloco + armadura + concretagem. Tratar o bloco como peça ornamental e ignorar a concretagem é o erro mais frequente que eu já vi em obra. A aplicação típica é em edificações de até quatro andares com laje treliçada ou maciça, onde as paredes externas e internas demarcadas como estruturais no projeto assumem o carregamento da edificação. Em obras com vãos largos ou presença de sismo, o sistema precisa de projeto complementar com cálculo de seções reforçadas. Não adianta simplesmente "usar blocos maiores" para ganhar resistência. O cálculo define o diâmetro das barras, a quantidade de vergalhões por furo e o espaçamento das armaduras horizontais em forma de estribos.

Um detalhe que poucos mencionam: a umidade do bloco na hora do assentamento importa mais do que parece. Se o bloco estiver muito seco, ele drena a água da argamassa rapidamente e a pega fica comprometida. Se estiver encharcado, a argamassa escorrega e o prumo se perde. O ideal é umedecer os blocos entre seis e oito horas antes do uso, sem deixar poças de água na superfície. Eu já vi equipe que deixou os blocos molhando sob chuva direta e o resultado foi uma junta com espessura irregular porque a água sobrenadante diluía a argamassa na base do bloco.

Bloco de concreto em sp - Iporã Blocos | Bloco de cimento, Bloco ...
Bloco de concreto em sp - Iporã Blocos | Bloco de cimento, Bloco ...

Método de montagem passo a passo

O assentamento começa pela regularização do piso. O primeiro nível de blocos estruturais nunca apoia diretamente sobre o concreto armado do radier ou da viga de fundação. Sempre se faz um contrapiso regularizado com nivelamento a lanterna ou nível a laser, e a primeira fiada pode receber uma fina camada de argamassa de assentamento — tipo CP II ou CP III, com aditivo plastificante — para ajustes de prumo e nível. A espessura dessa primeira camada varia de 10 a 15 mm. Se o desnível for maior que isso, não tente compensar com mais argamassa. Refaça o contrapiso. Argamassa com mais de 20 mm de espessura em uma única camada não tem estabilidade suficiente para o calçamento correto do bloco. A segund fiada já é assentada com argamassa no formato de Junta seca, usando espátula de aço. A técnica padrão é aplicar a argamassa na face inferior do bloco e nas laterais, pressionar o bloco contra a fiada anterior e ajustar com o cabo da espátula. O teste de prumo se faz com régua de alumínio de dois metros apoiada na face da parede, verificando plano e prumo simultaneamente. Depois do assentamento, a junta deve ser alisada com massa de acabamento ou raspada pouco antes do pega, mas nunca com água jogada por cima para acelerar o acabamento. Isso enfraquece a junta superficial e causa trincas por retração plástica. As armaduras horizontais são instaladas nas juntas entre fiadas, em intervalos definidos pelo projeto — geralmente a cada duas ou três fiadas. Os perfis podem ser telas soldadas de aço ou barras dobradas em U, apoiadas diretamente sobre a argamassa da junta. O recobrimento mínimo da armadura em contato com a face externa do bloco deve ser de pelo menos 15 mm, conforme a NBR 6118. Se o projeto prevê armadura em ambas as faces, há blocos com chanfro especial para receber os dois perfis. Usar bloco comum para isso e improvisar com argamassa extra é um risco real de corroção precoce da armadura.

Os furos dos blocos são preenchidos com concretinho de preenchimento após a cura da argamassa de assentamento — geralmente entre 24 e 48 horas, dependendo da temperatura e da umidade relativa do ar. O concretinho deve ter resistência compatível com a do bloco e granulometria adequada para fluir pelo furo. Eu já vi equipe usando concreto-usinado comum, com brita de 19 mm, e o resultado foi furo parcialmente vazio porque a brita não passava. O correto é usar concreto com brita expandida ou brita de 9,5 mm, com slump de pelo menos 16 cm, bombeável ou despejado com funil e varrição interna com barra de aço para evitar bolsas de ar. As descontinuidades na parede — vãos de porta e janela — exigem vigas de topo e vergas. A verga pode ser pré-moldada ou moldada in loco, com escoramento temporário durante a cura. O projeto define o comprimento de apoio mínimo, que geralmente é de pelo menos 25 cm em cada extremidade. Eu trabalhei numa obra onde o engenheiro responsável dispensou a verga e pediu para "chumar o vão com bloco especial". O resultado foi trinca diagonal no canto superior da porta em menos de seis meses. Bloco estrutural não substitui verga. O bloco resiste à compressão vertical, não ao momento fletor gerado pelo vão livre.

Erros comuns que eu vi acontecer

O erro mais frequente é o desalinhamento vertical das armaduras. Se o operador não garantir que os furos dos blocos de uma fiada estejam perfeitamente alinhados com os da fiada inferior, a barra de aço não passa. Aí a solução mais comum no canteiro é entortar a barra, forçar a passagem ou simplesmente ignorar o furo. Ignorar é a pior opção. Um furo sem armadura é um ponto de fragilidade na parede. Na minha experiência, o problema de alinhamento quase sempre vem do prumo não verificado entre fiadas. Cada bloco novo deve ser verificado individualmente, não apenas o conjunto da parede. Outro erro recorrente é a falta de contenção lateral nas paredes altas. Paredes com mais de três metros de altura sem contraventamento temporário durante a execução tendem a emperrar. O vento, o impacto acidental de carros de mão e a própria operação de concretagem dos furos geram esforços laterais significativos. O contraventamento pode ser feito com tábuas de madeira biseladas e amarradas com arame recozido nos pontos intermediários da parede, com escoras diagonais ancoradas no piso e no pé-direito. Esse detalhe muitas vezes é esquecido porque não aparece no desenho do projeto, mas é responsabilidade do mestre de obras prever. Um terceiro ponto: a junção entre paredes estruturais e não estruturais. Quando uma parede de vedação em alvenaria convencional se apoia sobre uma parede estrutural de blocos, a interface deve ser tratada com malha de aço ou tela geotêxtil embutida na argamassa de ajuste, senão a diferença de retração gera trinca horizontal nítida no encontro. Isso é particularmente visível em regiões com grande amplitude térmica, onde o coeficiente de dilatação do concreto difere do da alvenaria de vedação.

Dimensões Dos Blocos De Concreto - RETOEDU
Dimensões Dos Blocos De Concreto - RETOEDU

Limitações e alternativas

O sistema de blocos estruturais de concreto tem restrições claras. Ele não é adequado para solos com alta expansividade ou recalque diferencial acentuado, pois a fissuração por assentamento de fundação se propaga diretamente pela alvenaria. Nesses casos, um piso maciço de concreto armado com vigas baldrame é mais previsível. Também não é indicado para edificações com grandes vãos livres ou carregamentos concentrados excepcionais, como painéis de fachada pesados ou equipamentos de HVAC suspensos diretamente na parede. Para fachadas com necessidade de maior isolamento térmico, os blocos estruturais convencionais de concreto simples oferecem condutividade térmica elevada. Existem blocos com agregados leve — como argila expandida ou — que melhoram a isolacao, mas reduzem a resistência compressiva. A escolha depende do balanço entre requisito estrutural e desempenho térmico. Em regiões sul do Brasil, onde a demanda por isolamento é maior, eu recomendo avaliar blocos de concreto celular autoclavado (bloco de EPS) para vedações internas e manter o bloco estrutural de concreto apenas nas paredes portantes externas. O custo do sistema é competitivo em relação à alvenaria convencional de tijolo cerâmico quando se considera a redução de mão de obra em regularização e a eliminação de chapisco e contrapiso em muitas situações. Porém, o custo de mão de obra especializada para o assentamento correto e a concretagem dos furos pode ser subestimado. Um pedreiro experiente em alvenaria convencional leva cerca de 45 minutos para assentar um metro quadrado de bloco estrutural com correto alinhamento e verificação de prumo. O mesmo metro quadrado com tijolo cerâmico leva em torno de 30 minutos para alguém com experiência média. A diferença se justifica pela economia posterior em regularização, mas precisa ser considerada no cronograma.

Quanto à durabilidade, o sistema é robusto quando executado corretamente. O principal inimigo é a umidade por capilaridade subindo pela base da parede. A solução padrão é a execução de barreira hidráulica — uma faixa de argamassa impermeabilizada ou mant asfáltica — entre o bloco e a fundação. Obras que pulam essa etapa tendem a apresentar umidade ascendente visível nos primeiros dois anos, com efflorescências brancas e descascamento de pintura na base da parede. Se você está começando agora, recomendo começar com projetos de baixo risco: uma casa térrea de até dois pavimentos, com fundação em radier ou vigas baldrame, e paredes estruturais bem definidas no projeto. Evite improvisar geometrias de furo ou substituir armaduras por conta própria. O sistema é generoso com quem segue o projeto e implacável com quem tenta "melhorar" o detalhamento no canteiro.