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Características Da Primeira Fase Do Modernismo

Características Da Primeira Fase Do Modernismo

O que realmente define a primeira fase do Modernismo brasileiro

A gente costuma simplificar demais quando fala da fase de 22. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o marco, claro, mas reduzir tudo a um evento de três dias em um teatro em São Paulo é cometer o mesmo erro que os modernistas queriam combater: a visão rasa e académica. A primeira fase do modernismo brasileiro, que vai aproximadamente de 1922 a meados dos anos 30, tem características bem específicas que muitos estudantes universitários não pegam direito na primeira leitura. Vou explicar como funciona na prática.

Principais características da primeira fase do modernismo

O que você precisa entender primeiro é que a prosa antropológica e o indigenismo não surgiram do nada. A valorização do elementar brasileiro, do indígena como figura simbólica, já estava sendo discutida por autores como Graça Aranha em "Canaã" (1902) e pelos pré-modernistas. O que a geração de 22 fez foi radicalizar isso, jogar contra a estética parnasiana e simpolicista que dominava as academias literárias até então. As principais características se agrupam em alguns eixos. Primeiro, a quebra formal. Verso livre, prosa poética, experimentação métrica. Mário de Andrade em "Paulicéia Desvairada" (1922) usava versos brancos, enjambements agressivos, rimas internas que pareciam falhas de mecânica mas eram cálculo calculado. Segundo, o tema nacional desglamourizado. Nada mais de paisagens bucólicas ou heróis épicos. A cidade de São Paulo sendo descrita como organismo vivo, a fome, a miséria, o cotidiano marginal. Terceiro, a linguagem coloquial como legítima. Colocar o falar popular no texto sem aspas, sem marks de "fala de pobre". Isso era revolucionário e ainda causa estranheza hoje em dia. Quarto, o cosmopolitismo informado. Os modernistas não rejeitavam a Europa. Eles conheciam Picasso, Apollinaire, Joyce. O movimento era justamente usar esse repertório para falar do Brasil de outro ângulo. Quinto, a figura do indígena como mito fundacional, não como personagem histórico. O índio como símbolo de origem, de identidade. Isso aparece fortíssimo em "Macunaíma", embora o livro só saia em 1928.

Como analisar textos dessa fase sem cair em armadilhas comuns

Aqui entra o problema que eu vejo todo semestre quando orientando alunos de graduação. O erro mais frequente é ler Oswald de Andrade pelo prisma do Pau-Brasil e achar que isso define toda a primeira fase. O Manifesto Pau-Brasil foi de 1924, e é importante, mas ele é apenas um braço do movimento. A maioria dos textos produzidos nessa fase não dialogam diretamente com ele. Outro erro crasso: tratar Anita Malfatti apenas como "a pintora expressionista da Semana". A exposição de 1917, que Mário de Andrade chamou de "quartel general do modernismo", aconteceu cinco anos antes do evento teatral. Ela já estava praticando aquilo que os teóricos depois chamariam de modernismo. Ignorar isso distorce toda a cronologia. No caso específico da análise de "Macunaíma", eu sempre recomendo ler junto a "Amar, verbo intransitivo" (1926) de Mário de Andrade. Um texto é a síntese literária da linguagem brasileira, o outro é uma comédia de costumes urbanos. Juntos, mostram como o projeto modernista operava em duas frequências: uma mais elevada, mitológica, e outra mais baixa, concreta. Sozinhos, cada um parece exagerado. Juntos, fazem sentido.

Primeira fase do modernismo – Artofit
Primeira fase do modernismo – Artofit

O que ninguém te conta sobre estudar essa fase

Uma coisa que poucos professores destacam: a primeira fase do modernismo não era um bloco homogéneo. Havia tensões reais entre os participantes. Mário e Oswald tiveram uma divisão estética importante que começou logo nos anos 20 e só se agravaria nas décadas seguintes. Oswald era mais militante, mais político, mais interessado em construir um programa. Mário era mais analítico, mais obsessivo com a linguagem, menos interessado em manifestos. Além disso, há uma pegadinha cronológica. A fase de 22 é frequentemente chamada de "fase heróica" nos manuais. Esse nome é problemático porque dá a impressão de que foi um momento de união epocal. Na realidade, houve boicotagens, vaias, críticas ferozes na imprensa da época, e muitos dos "modernistas" se distanciaram rapidamente uns dos outros. O mito da unidade é construção posterior, feita principalmente pelos próprios irmãos Andrade na tentativa de consolidar uma linhagem. Outro ponto cego: a presença feminina nessa fase é constantemente subestimada. Anita Malfatti é citada, sim, mas Tarsila do Amaral, apesar de ter pintado "Abaporu" em 1928, foi praticamente excluída dos discursos canónicos sobre literatura durante décadas. Abade de Jessure, Menotti Del Picchia, Plínio Salgado — esses nomes aparecem em todo manual. Tarsila, Cornélio Penna, Victor Brecheret ficaram na sombra até a revisão historiográfica dos anos 90.

Fontes primárias que valem mais que qualquer resumo

Se você quer realmente entender as características da primeira fase do modernismo, esqueça resumos de dois páginas. Leia os manifestos na integra. O Manifesto Pau-Brasil tem 18 tópicos e cada um deles responde a uma crise específica da época. O Manifesto Anthropófago (1928) é mais curto mas extremamente denso — e não é sobre canibalismo literal, é sobre a estratégia cultural de devorar o colonizador. Para poesia, "Paulicéia Desvairada" é indispensável. Comece pelos poemas "Madrigal Seductor" e "Mururu", que condensam praticamente tudo que há para entender a renovación estética da fase. Para prosa, "Contos Novos" (1920) de Mário de Andrade, publicado antes da Semana, mostra que as ideias modernistas já estavam germinando antes do evento famoso. O maior perigo nessa pesquisa é a filtragem. Os livros didáticos escolhem os trechos mais "palatáveis" dos autores modernistas. Cortam passagens duras,icamente incorrectas, contraditórias. O resultado é uma versão endossada do movimento que não corresponde ao que era, de fato, perturbador e desagradável para o público da época. Se você ler integralmente, vai perceber que a "revolution" não era tão limpa quanto os manuais contam.