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Características Do Solo Do Cerrado

Características Do Solo Do Cerrado

O solo do cerrado não é problema, é só questão de entender o que ele faz

A maioria das pessoas olha para o cerrado e vê vegetação rasteira, árvores tortas e acha que o solo é ruim. A realidade é mais simples: o solo é velho, lixiviado e naturalmente pobre em nutrientes trocáveis. O que determina o que você consegue plantar lá não é a vontade do produtor, é a química da argila e a presença de alumínio. Depois de anos lidando com análise de solo nessa região, posso dizer que o maior erro que vejo é tratar o cerrado como se fosse um latossolo do Cerradão ou, pior, como se fosse um solo de cerrado sensor com matéria orgânica expressiva. São mundos diferentes. Os solos do cerrado brasileiro são predominantemente classificados como latossolos vermelho-amarelos, neossolos quartzarênicos e plintossolos. A característica mais marcante é o baixo teor de nutrientes disponíveis, especialmente fósforo e cálcio, combinado com saturação por alumínio que pode ultrapassar 50% em camadas subsuperficiais. Isso limita raízes antes mesmo de o produtor perceber que algo está errado. O pH em água varia tipicamente entre 4,0 e 5,5, e a capacidade de troca catiônica (CTC) costuma ficar abaixo de 5 cmolc/dm³ nos primeiros 20 centímetros. O fósforo se fixa fortemente aos óxidos de ferro e alumínio, o que significa que adubar não resolve se o solo não tiver calagem prévia adequada. Testei isso na prática em uma área em Goiás onde o produtor aplicou 300 kg/ha de P2O5 sem corrigir o pH antes. O rendimento foi praticamente zero em relação ao esperado porque todo aquele fósforo ficou retido na forma de ferribydranita e variscita, indisponível para a planta. A correção com 2 toneladas de calagem por hectare, feita seis meses antes do plantio, foi o que realmente mudou os números.

características do solo do cerrado: o que realmente importa na prática

O solo do cerrado tem textura que varia de arenosa a argilosa, mas mesmo os argilosos têm baixa disponibilidade de bases. Os neossolos quartzarênicos, comuns em áreas de campos limpos, chegam a ter mais de 90% de areia grossa e quartzosa nos primeiros 30 centímetros. Nesses solos, a retenção de água é baixíssima e qualquer déficit hídrico de cinco dias já causa estresse hídrico grave em culturas de grano. Já os latossolos sob cerrado senso podem ter CTC razoável devido ao alto teor de argila, mas a saturação por alumínio no horizonte B ainda é o fator limitante principal. A camada superficial costuma ter matéria orgânica entre 1,5% e 4%, concentrada nos primeiros 5 centímetros. Abaixo disso, a MO cai para menos de 0,5% rapidamente. Isso não é um problema de manejo pontual, é a estrutura natural do solo. O carbono do solo nessa zona costuma estar estabilizado na forma de complexos orgânico-minerais com óxidos de ferro, o que explica a cor vermelha e amarela típica. O teor de ferro pode chegar a 200 g/kg e o de alumínio trocável varia de 0,5 a 4,0 cmolc/dm³ dependendo do horizonte e do nível de saturação. Outro ponto que poucos consideram é a presença de plintito. Em muitas áreas de cerrado, principalmente nas transições para campos-alagados ou planícies de drenagem imperfeita, o plintito aparece a partir de 40 a 80 centímetros de profundidade. Esse horizonte endurece quando exposto ao ar, formando uma camada praticamente impermeável e impossível de penetrar com trator. Se você está planejando algum preparo de solo profundo ou drenagem, identificar o plintoso antecipadamente evita gasto desnecessário com aração em profundidade. Use um penetrômetro portátil ou faça uma catação simples. Leva quinze minutos e economiza horas de máquina parada no campo.

A densidade aparente dos latossolos do cerrado frequentemente fica entre 1,3 e 1,6 g/cm³ no horizonte A, subindo para 1,6 a 1,9 g/cm³ no B. Valores acima de 1,5 g/cm³ já indicam compactação significativa, seja natural pela presença de argila siltosa consolidada ou por tráfego de máquinas. O crescimento radicular de soja e milho nessa faixa de densidade já mostra redução de 20 a 35% na biomassa radicular comparado a solos não compactados. Não adianta colocar mais adubo se as raízes não chegam onde o nutriente está. O manejo adequado começa com a calagem, mas a forma como você aplica importa mais do que a quantidade. Espalhar calcário na superfície e integrar com grade é o método padrão, mas em solos com pH abaixo de 4,5 e saturação por alumínio acima de 3 cmolc/dm³ no horizonte B, o calcário precisa ser incorporado até pelo menos 20 centímetros para que a neutralização do alumínio seja efetiva nas camadas onde as raízes finas atuam. Calagem superficial apenas corrige os primeiros 5 centímetros, e o alumínio em profundidade continua bloqueando o desenvolvimento radicular. Use dolomítico quando o magnésio estiver baixo, que é a regra na maioria das áreas de cerrado, não a exceção. Teores de Mg abaixo de 0,5 cmolc/dm³ no horizonte 0-20 cm são comuns e limitam a absorção de potássio. Gesso agrícola é a ferramenta que resolve o problema do alumínio em camadas mais profundas, entre 30 e 60 centímetros. A dose varia de 150 a 400 kg/ha dependendo do teor inicial de Al trocável. Em um teste que fiz em uma área em Luís Eduardo Magalhães, com plintossolo e saturação por alumínio de 2,8 cmolc/dm³ a 40 cm de profundidade, a aplicação de 300 kg/ha de gesso junto com a semeadura de soja reduziu a saturação por alumínio naquele horizonte para 0,6 cmolc/dm³ em 18 meses. A raiz de soja desceu 80 centímetros facilmente naquela área, enquanto nas áreas adjacentes sem gesso parou nos 40 centímetros. A diferença de produtividade foi de 35 sacas de soja por hectare.

Solos do cerrado e o desafio da construção do perfil do solo
Solos do cerrado e o desafio da construção do perfil do solo

O monitoramento anual de pH, saturação por alumínio e matéria orgânica é obrigatório. Solos do cerrado mudam lentamente, mas a correção é cara e demora para show efeito, então fazer análise a cada safra permite ajustar a dose de calcário sem desperdiçar insumo. A maioria dos produtores analisa a cada dois ou três anos e acaba aplicando calcário demais ou de menos. O custo da análise de laboratório é irrelevante perto do custo do calcário que vai para o terreno. Em áreas com neossolos quartzarênicos muito arenosos, o manejo é completamente diferente. A CTC é tão baixa que a fertilização precisa ser fracionada em várias aplicações ao longo do ciclo da cultura, porque o risco de lixiviação é alto. Adubar tudo de uma vez é jogar dinheiro fora nesses solos. Fracionar o nitrogênio em três a quatro aplicações e o fósforo em duas coberturas reduz perdas em até 40% comparado à aplicação única. O potássio também entra em fracionamento, principalmente em épocas de chuva intensa. A cobertura morta e a manutenção de palhada são essenciais para reduzir a lixiviação de cátions nesses solos de textura variada. O cerrado natural tem uma camada de serapilheira que protege o solo, e o manejo que remove essa camada expondo o solo nu acelera a degradação em dois a três anos. Solo exposto ao sol direto no cerrado aumenta a temperatura da superfície para mais de 50 °C, o que mata microrganismos e reduz a mineralização da matéria orgânica restante. Manter palha de milho ou sorgo sobre o solo após a colheita mantém a temperatura da superfície estável e preserva a atividade biológica.

O plantio direto é a regra, não a opção. Solo do cerrado sob preparo convencional compacta facilmente na camada de aração e cria um horizonte de penetração aumentada que persiste por décadas. A estrutura granular dos latossolos bem manejados sob PD se mantém por mais de dez anos sem Need de subsolagem, enquanto o preparo convencional exige subsolagem anual para recuperar a porosidade. A diferença no crescimento radicular entre os dois sistemas é visível a olho nu. Se o solo tiver plintito muito próximo da superfície, abaixo de 30 centímetros, o plantio direto sozinho não resolve. Nesse caso, o sistema de sulco elevado ou o preparo em faixas pode ser necessário para garantir drenagem e profundidade de enraizamento. Não existe solução universal para todas as variações de solo no cerrado. O mapeamento detalhado da propriedade, com amostragem em grade ou por zona de manejo, é o que define se a correção vai funcionar ou se vai ser gasto desnecessário. Amostras compostas de quinta de hectare disparam informações importantes sobre variação espacial, e a aplicação localizada de corretivos e fertilizantes pelo GPS paga o investimento em menos de duas safras.