Cervicite Crônica Com Metaplasia Escamosa
O que acontece no colo do útero quando a inflamação fica
Vim analisar colposcopia há mais de uma década e esse é um dos achados que mais gera ansiedade desnecessária nos laudos. A cervicite crônica com metaplasia escamosa não é câncer, não vira câncer e, na grande maioria das vezes, não precisa de tratamento agressivo. O problema é que o laudo muitas vezes é mal interpretado pelo paciente e às até pelo próprio ginecologista de plantão. A cervicite crônica é simplesmente uma inflamação persistente no epitélio cervical. Pode ser causada por agentes infecciosos como clamídia, micoplasma, vaginose bacteriana, tricomonas ou mesmo por irritação mecânica ou química. O que a maioria das pessoas não sabe é que a metaplasia escamosa é, na verdade, um processo de reparo. Quando o epitélio columnar simples — aquele que reveste o canal endocervical — fica exposto ao ambiente vaginal ácido por tempo prolongado, ele sofre estresse. O organismo responde transformando esse tecido em epitélio escamoso estratificado, mais resistente. Isso é completamente fisiológico. O que eu vejo constantemente em consulta são mulheres chorando com diagnósticos como esse, achando que receberam uma sentença. Na prática, a metaplasia escamosa é um sinal de que o colo do útero está tentando se defender. Ela aparece com frequência em exames de papanicolau como células com núcleos pequenos e citoplasma corado de forma homogeneamente eosinofílica. Pode aparecer associada a glândulas de, que são apenas invaginações do epitélio transformado que ficam presas sob a nova camada escamosa. Nenhuma dessas coisas é maligna.
O que realmente exige atenção é identificar a causa da inflamação de base. Sem tratar a causa, a metaplasia vai continuar sendo estimulada ciclicamente. Em casos que já vi, pacientes eram tratadas repetidamente com cauterização ou crioterapia apenas pela presença da metaplasia, o que é desnecessário e pode causar cicatrizes cervicais que dificultam exames futuros e até a parto normal. A abordagem correta segue uma lógica simples: primeiro confirma-se a causa da cervicite com cultura ou PCR para micro-organismos relevantes, trata-se a infecção se existir, e depois acompanha-se a evolução citológica e colposcópica. A metaplasia em si se resolve sozinha quando a inflamação crônica é contida, mas o processo pode levar meses. O acompanhamento com colpocitologia anual e colposcopia se houver alteração no zona de transformação é o padrão recomendado. Um detalhe que pouca gente menciona: a metaplasia escamosa imatura e a madura têm aparência diferente na colposcopia. A imatura pode reagir de forma atípica ao ácido acético, parecendo leucoplaquia, e isso às vezes leva a biópsias desnecessárias. Meu protocolo costuma ser esperar pelo menos 2 minutos após a aplicação do ácido acético para avaliar a reação, e só biopsiar lesões que mostrem vascularização atípica consistente, e não apenas a acetobraanciana. Reduz muito o número de procedimentos inadequados.
Se você tem esse diagnóstico, o mais importante é ter o histórico dos seus exames em mãos, saber se houve tratamento prévio da causa infecciosa e fazer acompanhamento regular. Não é emergência. Não é pré-câncer. É um processo inflamatório crônico com resposta de reparo do tecido cervical.
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