Ciep Armindo Marcílio Doutel De Andrade
Uma visão sobre o CIEP e o papel de Armindo Marcílio Doutel de Andrade
O Centro Integrado de Educação Pública foi criado no estado do Rio de Janeiro em 1982, durante o governo de Leonel Brizola, com o objetivo de oferecer atendimento escolar em tempo integral para crianças e adolescentes da rede pública. A proposta parecia simples na teoria: escolas que funcionavam do início da manhã até o final da tarde, combinando ensino regular com atividades culturais, esportivas e de alimentação. A realidade, como muitos sabem, foi bem diferente ao longo das décadas seguintes. Armindo Marcílio Doutel de Andrade foi um engenheiro brasileiro cuja atuação ficou ligada ao desenvolvimento técnico e estrutural dos CIEPs. O que se sabe, baseado em documentos da época e em entrevistas posteriores, é que ele contribuiu com o lado mais prático do projeto: o dimensionamento das unidades, a especificação de materiais, a organização dos fluxos construtivos e a padronização dos prédios que seriam espalhados pelo estado. Era um profissional que entendia de obra e de escala, algo necessário quando se precisava construir centenas de escolas em poucos anos. Diferente de muitos políticos e gestores que ficaram conhecidos como os rostos públicos do programa, Doutel de Andrade estava mais envolvido com a engenharia aplicada do que com a esfera discursiva. Isso explica, em parte, por que seu nome aparece com menos frequência nos livros de história da educação — ele estava ocupado resolvendo problemas de construção e logística, não dando entrevistas.
No entanto, há uma questão que costuma gerar confusão: muitas vezes o nome dele é associado diretamente à criação ideológica ou pedagógica do CIEP, o que não é preciso. O impulso político e pedagógico veio de outra frente. O trabalho dele foi fundamental na concretização física do projeto, mas o mérito da concepção educacional em si pertence a outros agentes da época, incluindo educadores como Anísio Teixeira, cujas ideias sobre escola de tempo integral influenciaram o modelo desde os anos 1950.
Como funcionava na prática um CIEP
Eu tive contato com alguns ex-professores que trabalharam nessa rede nos anos 1980 e 1990, e o relato mais recorrente é o mesmo: infraestrutura nova, mas gestão caótica. As escolas eram prédios modernos para a época, muitas vezes projetados por equipes técnicas que levavam a construção a sério. O problema era que a manutenção, o planejamento pedagógico e, principalmente, a segurança nas comunidades onde eram instalados deixavam muito a desejar. Um detalhe técnico interessante que pouco se fala é que os CIEPs seguiam um padrão construtivo que privilegiava a rapidez de montagem. Módulos pré-dimensionados, lajes alveares, fachadas simples. Isso permitia erguer uma unidade em poucos meses, o que era essencial diante da pressão política por resultados. Mas essa agilidade também trouxe consequências: em várias localidades, a qualidade dos materiais e dos acabamentos ficou aquém do necessário para o uso intenso diário que a escola exigia. Pisos que desgastavam rápido, portas que empenavam com a umidade, instalações elétricas subdimensionadas para o número de alunos. Eu lembro de ter visto um relatório técnico da época que indicava que cerca de 40% dos CIEPs construídos precisavam de intervenções de reparo estrutural nos primeiros cinco anos de uso. Esse dado é importante porque mostra que o problema não era apenas a má gestão posterior — havia falhas de projeto e execução desde o início.
O que aconteceu com o sistema
O CIEP foi gradualmente desmantelado a partir dos anos 1990. Os motivos foram múltiplos: violência nas comunidades onde estavam inseridos, falta de verba, corrupção em licitações, evasão escolar elevada e, claro, a dificuldade de manter um modelo de tempo integral sem uma formação docente adequada e sem políticas públicas de apoio contínuas. Em 1996, o governo do estado renomeou a maioria das unidades para CETIAs — Centros Especializados de Tecnologia e Integração Social —, numa tentativa de resgate. Muitas delas fecharam as portas definitivamente. Hoje restam poucas unidades que ainda funcionam sob a lógica original. O legado arquitetônico, porém, existe em vários municípios: prédios maiores e melhor localizados do que as escolas públicas convencionais da época, mesmo que muitos tenham sido adaptados para outros usos após o fim do programa.
Lições que ficam
O caso do CIEP e, dentro dele, o trabalho de Armindo Marcílio Doutel de Andrade serve como exemplo de como projetos de larga escala na educação brasileira frequentemente separam o que é possível construir do que é possível sustentar. A engenharia consegue resolver parte do problema — e nesse ponto o nome dele é relevante —, mas o resto depende de coisas muito mais difíceis de especificar em um projeto executivo: formação de professores, gestão escolar qualificada, segurança pública, participação das famílias, continuidade política entre governos diferentes. Nenhum engenheiro, por mais competente que seja, consegue contornar esses desafios sozinho. O CIEP demonstrou isso de forma bastante clara, e a história desses edifícios abandonados ou reconvertidos em vários bairros do Rio de Janeiro é uma prova material disso. Se você está pesquisando sobre Armindo Marcílio Doutel de Andrade ou sobre o papel da engenharia na criação dos CIEPs, o material mais confiável está nos acervos da Fundap, da Prefeitura do Rio de Janeiro e em teses acadêmicas da UFRJ e da PUC-Rio que tratam especificamente da arquitetura e da gestão pública daquele período. Há também o arquivo pessoal de Anísio Teixeira, que guarda correspondências e documentos relevantes sobre as raízes ideológicas do programa.
Galeria
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