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Climograma Semiarido

Climograma Semiarido

O que é e como ler um diagrama climático de região seca

Muita gente confunde o gráfico com uma tabela bonitinha. Na verdade ele é uma ferramenta de campo. Você pega dados de chuva e evapotranspiração potencial de pelo menos três anos seguidos, desenha duas curvas numa malha e descobre sozinho quando o solo começa a fic1r seco mesmo antes da seca aparecer no noticiário. No meu caso, working com irrigação de fertirrigação no Polo Leiteiro de Pernambuco, eu via produtores usando o que achavam ser um climograma semiarido corretamente, mas na prática estavam calculando EVAp com a fórmula de Thornthwaite errada porque o cálculo original não leva em conta a radiação solar tão alta do Sertão. O resultado era um gráfico lindo que dizia que tinha água no solo quando na verdade o estresse hídrico já estava instalado desde abril. Primeiro você vai precisar dos dados mensais. Rainfall é simples, pega na rede automática ou no site do INMET, tem de graça. O problema vem na evapotranspiração potencial. O método de Penman-Monteith é o correto, mas precisa de temperatura mínima, máxima, umidade relativa, velocidade do vento e radiação solar. Se você não tem estação meteorológica própria, consegue usar dados de referência da EMBRAPA Semiárido, tem publicado para várias estações no mapa do Projeto Radambrasil. Aí é só montar a tabela com os doze meses, calcular o saldo hídrico todo dia 15 do mês seguinte e plotar as curvas. Eu particularmente uso o software R porque permite automatizar com o pacote hydroTAM. Leva uns quinze minutos para rodar um batch inteiro depois da primeira vez. O output é um PDF com duas curvas: chuva por cima, evapotranspiração por baixo, e a área entre elas pintada de cinza quando sobra água ou de vermelho quando falta. O visual é o importante porque no campo o produtor não lê números, ele olha e já sabe se planta ou espera.

O que o gráfico realmente mostra na prática

As curvas se cruzam e o ponto de inflex1ão é a virada da estação seca. Quando a chuva fica abaixo da evapotranspiração, o solo começa a liberar água reservada. Isso dura alguns meses até a camada ativa acabar. O período entre os cruzamentos é o que determina a janela de plantio. Se o produtor espera o climograma dizer que acabou a seca, a safra já morreu. O segredo é olhar para trás, registrar o que aconteceu no ano anterior, e ajustar o calendário. Um detalhe que quase ninguém menciona: no Semiárido brasileiro a curva de chuva tem formato de sino truncado porque a Zona de Convergência Intertropical passa duas vezes no ano, uma mais forte em maio e outra mais fraca em novembro. Isso cria dois picos de chuva e um vazio bem definido entre eles. O clima não é uniforme, então um único gráfico da bacia pode esconder microvariações de quarenta quilômetros que mudam completamente o cálculo hídrico. Eu já vi produtores em Petrolina e Juazeiro usando o mesmo gráfico e cada um tendo uma janela de plantio diferente por causa da latitude.

Quando o gráfico falha e você deve procurar alternativa

O climograma semiarido assume que a evapotranspiração é constante durante o mês. Isso não é verdade. Em dias muito quentes de outubro, a planta fecha os estômatos e transpira menos do que o modelo prevê. O erro costuma ser de vinte por cento para cima no cálculo de saldo hídrico. Quando isso acontece, o gráfico mostra água no solo quando na realidade o milho já entrou em déficit hídrico crítico desde a primeira quinzena. A alternativa é usar dados de tensiômetros enterrados a trinta centímetros de profundidade, mede diretamente o potencial hídrico do solo a cada três dias. É mais caro, leva uns dois horas por mês de trabalho de campo, mas o resultado é concreto e não depende de modelos que erram em trinta por cento nos anos mais secos. Também existe o problema do balanço hídrico simplificado que ignora a precipitação efetiva. A chuva que cai não entra toda no solo. Metade evapora nos primeiros dez minutos se o solo estiver crostado. O resto escorre se a taxa de infiltração for menor que a intensidade da tempestade. Eu pessoalmente uso corretores de cinquenta por cento na primeira quinzena de dezembro porque as chuvas convectivas são intensas e o solo compactado não absorve. Sem esse ajuste, o gráfico mostra superávit hídrico quando na verdade a água já escapou pelo relevo plano do Cariri. Se você está na divisa com a Bahia e o clima é mais seco ainda, o climograma vai subestimar a estiagem em até dois meses. O recomendado é cruzar com dados de NDVI do sensor MODIS, mede a vigor da vegetação a cada dezesseis dias. Quando o índice cai abaixo de zero ponto quatro, o solo já perdeu capacidade de sustentação e a cultura entra em colapso hídrico irreversível. A combinação dos dois dados corta o tempo de decisão de quinze dias para quatro horas na época do plantio.

MAPA CLIMA SEMIÁRIDO
MAPA CLIMA SEMIÁRIDO

O erro mais comum é usar o gráfico como previsão do tempo. Ele não prevê, ele descreve o passado. Se você esperar o climograma dizer que vai chover em fevereiro, a agricultura de sequeiro já entrou em colapso hídrico porque a chuva atrasou três semanas em relação à média. O ciclo da cultura não se adapta a isso, então o produtor precisa registrar o histórico dos últimos cinco anos e ajustar o calendário para cada microrregião específica. O Sertão não tem padrão, um gráfico da bacia do São Francisco pode mentir em quarenta por cento para a microrregião de Salgueiro.