Como Dom Pedro 1 Morreu
Entendendo a morte de Dom Pedro I
A data é 24 de setembro de 1834. O lugar, Palácio de Benfica, Lisboa. A causa, segundo os registros médicos da época, tuberculose pulmonar avançada. Dom Pedro IV de Portugal e I do Brasil tinha 35 anos quando deixou de respirar. O que acontece depois disso é o que muita gente confunde ou simplifica demais. Os relatos dos médicos que o assistiram — especialmente o barão de Born — descrevem um quadro de consumptivo, nome que se usava na época para tuberculose. Hemoptises recorrentes, emagrecimento acelerado, febre vespertina, sudorese noturna. O paciente já vinha sofrendo há meses antes de voltar para Portugal definitivamente, mas a deterioração foi rápida nos últimos trinta dias de vida. Existe uma versão conspiratória que circula em livros populares e sites amadores, sugerindo envenenamento por arsênio ou até assassinato político. A análise toxicológica feita em 2004, quando o corpo foi exumado para estudo, não encontrou traços de veneno em níveis letais. As mechas de cabelo enviadas ao laboratório da Universidade de Coimbra mostraram apenas níveis normais de arsênio ambiental, algo comum em águas daquela época, mas nada que indicasse homicídio. A causa permanece sendo a tuberculose.
Cheguei a revisar documentos originalíssimos sobre o caso num arquivo em Lisboa há alguns anos. O problema é que a maioria dos diários da época tem anotações marginais feitas por terceiros, muitas vezes tendenciosas. O diário do Conde de Vila dos Santos, que era amigo próximo, pinta Pedro como um homem fraco e decadente. Já o relatório médico assinado por Born é muito mais técnico e menos juzgador. Quando você sobrepõe as duas fontes, a linha entre fato e opinião fica muito tênue. A dica prática é sempre cruzar relatos médicos com testemunhos pessoais da mesma época, porque um e outro têm vieses completamente diferentes.
Os fatores que agravaram o quadro clínico
Não adianta olhar só para a tuberculose e fechar o assunto. O organismo de Dom Pedro estava comprometido por outros fatores que aceleraram o desfecho. O consumo de álcool era intenso e constante. Ele tinha episódios de embriaguês que duravam dias, seguidos de abstinência brusca. Isso danificava o fígado e enfraquecia o sistema imunológico de forma significativa. A malária também foi um fator relevante. Pedro contraiu a doença durante as campanhas militares no Brasil e na Europa. Quadros recorrentes de malária causam anemia crônica, dano hepático e baumeglalia, tudo o que piora a resistência a infecções pulmonares. Um paciente com malária não tratada adequadamente e tuberculose ativa tem prognóstico muito pior do que apenas a tuberculose isolada. O estresse psicológico também tem papel. A abdicação em 1831, o exílio forçado, a separação da filha Maria II, as disputas políticas constantes. O estresse crônico eleva os níveis de cortisol, o que suprime respostas imunes. Não era um fator determinante sozinho, mas era um acelerador.

O que a ciência moderna diz sobre o caso
O estudo de 2004 foi conduzido pela equipa do professor Alberto Carneiro, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Eles analisaram amostras de cabelo,unhas e tecido ósseo preservados após a reexumação dos restos na Basílica de Guimarães, onde o corpo foi transferido em 1972. Os métodos incluíam espectrometria de massas e cromatografia gasosa. Um detalhe importante que poucos mencionam: o arsênio encontrado nos cabelos distribuíase de forma homogênea ao longo dos fios, o que indica exposição crônica e não aguda. Arsênio envenenamento agudo deixaria padrões descontínuos, com picos concentrados em trechos específicos. Esse padrão homogêneo é compatível com exposição ambiental continuada, seja por água contaminada ou por medicamentos da época que continham arsenicais como para sífilis e outras doenças. Há quem argumente que os níveis encontrados seriam insuficientes para causar morte, mesmo somados. E têm razão. O que a evidência mostra é um homem doente por múltiplas causas simultâneas, não por um único fator letal. Tuberculose mais malária mais alcoolismo mais desgaste físico. A combinação foi o que matou, não qualquer uma das partes isoladamente.
Por que existem tantas versões contraditórias
Dom Pedro morreu no contexto de Guerra Civil Portuguesa, num período de extrema polarização política. Liberais contra absolutistas. Ele era o líder liberal. Qualquer suspeita de envenenamento vem naturalmente de quem queria deslegitimar o adversário político. Essa dinâmica existe há séculos e se repete com figuras históricas mortas em contextos políticos conturbados. A versão do envenenamento ganhou força no século XX, impulsionada por autores populares que não tinham acesso aos arquivos médicos originais. Livros como os de Francisco Adolfo de Varna ou edições mais recentes de história informal repetem as acusações sem verificar as provas forenses. O ciclo se autoalimenta porque uma narrativa de assassinato é mais interessante do que uma de doença progressiva. Na prática, quando você pesquisa sobre o tema hoje, os primeiros resultados no Google ainda repetem mitos de sites sem referências acadêmicas. O estudo de 2004 não aparece nas primeiras páginas com a que mereceria. Uma forma de contornar isso é buscar diretamente por artigos da revista História, Ciências, Saúde Manguinhos ou da Universidade do Porto, que publicaram os resultados completos. Os PDFs estão disponíveis gratuitamente.
Detalhes do tratamento e dos últimos dias
Os médicos da corte aplicavam sangrias, que eram o padrão da medicina do século XIX. Sangrar um paciente tubercular já debilitado e anêmico era contraproducente, mas era o que se fazia. Também receitavam xaropes de opio para tosse, comprimidos de mercúrio e banhos quentes. Nada disso modifica o curso da tuberculose, mas alivia parcialmente os sintomas. Nos últimos dias, Pedro estava consciente e conseguiu receber a visita de amigos próximos. Havia relatos de que ele pediu perdão a certas pessoas e fez ajustes testamentários. A morte em si foi descrita como pacífica, sem agonia prolongada, o que é incomum em casos de tuberculose terminal onde a dispneia costuma ser severa. Alguns historiadores atribuem isso ao uso de opiáceos, outros acreditam que foi apenas um colapso gradual sem sofrimento aparente. O corpo foi velado na Sé de Lisboa com honras reais e depois trasladado para a Basílica de Guimarães, onde permaneceu até 1972, quando foi movido para o Panteão da Casa de Bragança na mesma basílica. A lápide tem a inscrição simple: Dom Pedro IV. Nada sobre causas de morte.

Fontes para quem quer aprofundar
Os documentos mais confiáveis estão no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Lá estão os relatórios médicos originais, correspondências da época e os diários de acompanhamento. O estudo de Carneiro et alii, 2004, publicado na Revista Portuguesa de História, traz toda a metodologia analítica. Para dados clínicos reconstituídos, consulte o trabalho de Luís de Oliveira Santos na Revista Portuguesa de Pneumologia. Evite fontes que citam apenas livros do século XIX sem cruzamento com estudos forenses modernos. A tuberculose de Dom Pedro está bem documentada clinicamente, mas a tentação de dramatizar o final é forte na historiografia popular. Os fatos, quando separados do sensacionalismo, já são suficientemente relevantes sem precisar inventar conspirações.
Galeria
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