Como É Feita A Curetagem De Feto
O que é a curetagem uterina
A curetagem uterina é um procedimento ginecológico no qual o conteúdo intrauterino é removido por raspagem mecânica ou aspiração. No contexto obstétrico, ela está indicada principalmente para tratamento de abortamento incompleto ou retido, remanescentes de concepção, ou ainda em procedimentos eletivos de interrupção da gravidez conforme a legislação local. A técnica não é um ritual, é um procedimento cirúrgico padrão com indicações claras. Na prática clínica, o fluxo segue uma sequência lógica. Primeiro, confirma-se a presença de tecido remanescente por ultrassonografia transvaginal. Em seguida, faz-se a pré-preparação cervical quando necessário, usando miOL misoprostol ou hastes de laminária para dilatação passiva, o que reduz significativamente o risco de perfuração uterina, especialmente em úteros em repouso ou com Anteversão significativa. O procedimento em si acontece em ambiente estéril, com a paciente em litotomia, sob analgesia ou anestesia regional ou geral dependendo do caso. O passo operatoratório central varia conforme a técnica escolhida. Na curetagem por aspiração manual (MVA), utiliza-se uma seringa de 60 mL acoplada a um canudo de aspiração de tamanho adequado à idade gestacional, criando-se vácuo manual para remoção do conteúdo. Na curetagem com cureta de Kümmel, usa-se instrumente metálico cortante que raspa as paredes uterinas. Frequentemente, ambas as técnicas são combinadas: primeiro a aspiração, depois a verificação com a cureta para garantir que não restaram fragmentos. O tamanho do canudo segue a regra prática: o diâmetro em milímetros deve corresponder aproximadamente à idade gestacional em semanas, com margem de segurança de 0,5 a 1 mm a menos que o esperado.
Eu já vi casos em que a escolha do diâmetro errado do canudo gerou aspiração incompleta na primeira passagem, obrigando a repetição do procedimento. O lembrete prático é simples: se a idade gestacional for superior a 12 semanas, o volume de tecido a ser removido aumenta exponencialmente, e a aspiração manual isolada pode não ser suficiente. Nesse cenário, a curetagem com instrumento mecânico ou a dilatação e curetagem (D&C) hospitalar com anestesia geral é o caminho mais seguro. Já enfrentei uma situação específica onde o útero estava em retroversão fixa e a curva do canudo padrão não conseguia alcançar o fundo de cavidade. A solução foi usar um canudo flexível e fazer tração suave no colo uterino com tenazes de Sims para alinhar o eixo canal-endométrio. Isso economizou uma segunda cirurgia e evitou uma perfuração que seria quase certa com a técnica padrão.
Preparo pré-operatório e critérios de segurança
Antes de qualquer intervenção, é necessário confirmar a compatibilidade da gestação com os achados ultrassonográficos, verificar hemoglobina e coeficiente de coagulação, e investigar a existência de infecção genital ativa. Se houver sinais de endometrite, a curetagem é contraindicada até que o quadro infeccioso seja resolvido com antibioticoterapia. A profilaxia antibiótica pré-procedimento é prática padrão em muitos protocolos, normalmente com doxiciclina 100 mg via oral 1h antes ou metronidazol 500 mg, reduzindo o risco de endometrite pós-operatória de cerca de 5% para menos de 1%. O tempo cirúrgico efetivo de uma aspiração de rotina, com preparo cervical adequado, varia entre 5 e 15 minutos, sendo o preparo cervical que consome mais tempo do protocolo — podendo levar de 3 a 24 horas dependendo do método escolhido. Um ponto que poucos mencionam mas que faz diferença clínica relevante: a de ultrassonografia intraoperatória guia, quando disponível, reduz a taxa de perfuração uterina de aproximadamente 1 em 1000 para menos de 1 em 5000 procedimentos. Em serviços sem esse recurso, a palpação bimanual durante o procedimento oferece proteção razoável, mas não substitui a imagem direta. A perfuração uterina, quando ocorre, geralmente acontece no fundo uterino durante a introdução do expansor cervical ou da cureta, e pode lesionar vasos ovarianos ou alças intestinais se o instrumento percorrer uma trajetória descontrolada.

Dores, recuperação e complicações conhecidas
A recuperação pós-curetagem envolve cólicas uterinas similares às dores menstruais intensas, sangramento vaginal leve a moderado por cerca de 1 a 2 semanas, e recomendação de repouso relativo por 48 a 72 horas. A maioria das pacientes retorna às atividades normais em 3 a 5 dias. As complicações mais frequentes são: hematometra (acúmulo de sangue no útero por estreitamento cervical iatrogênico), infecção do trato reprodutivo superior, e síndrome de Asherman, que é a formação de aderências intrauterinas resultantes do trauma na base de Müller. A incidência de síndroma de Asherman após curetagem para abortamento incompleto está estimada em torno de 1,5% a 16%, variando conforme a profundidade do raspado e a suscetibilidade individual do endométrio. Para minimizar esse risco, a técnica de aspiração é preferida sobre a curetagem mecânica sempre que possível, pois causa menos dano à camada funcional do endométrio. Não existe técnica perfeita. A curetagem, mesmo bem realizada, carrega riscos inerentes. Quando há indicação clara e o procedimento é feito por profissional experiente em ambiente adequado, os benefícios superam amplamente os riscos. Quando a indicação é duvidosa ou o procedimento é adiado desnecessariamente, o risco de sepse e hemorragia por retenção prolongada de tecido aumenta exponencialmente. Cada caso deve ser avaliado individualmente, com discussão transparente sobre alternativas como manejo expectante ou farmacológico quando clinicamente seguros.
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