Como Proceder Diante De Um Motociclista Acidentado
O que fazer quando você vê um motociclista caído na pista
A primeira coisa que a maioria das pessoas faz é correr na direção do sujeito como se estivesse em um filme de super-herói. Isso é problema. Você tem que controlar o impulso antes de controlar a cena. Eu já vi gente tentar levantar um motoboy que tinha fraturado a coluna. O cara não ia andar de novo. Tudo por causa de um resgate mal feito nos primeiros segundos. A sequência correta é mais chata, mas funciona. Primeiro, pare o carro de forma segura. Ative as setas de emergência. Não saia do veículo imediatamente se houver risco de novos veículos colidirem. Eu já presenciei uma briga de trânsito virar acidente múltiplo porque o primeiro condutor estacionou no meio da faixa sem proteção nenhuma.
Segundo, chame o socorro. O 193 é o SAMU, o 190 é a polícia. Se for uma rodovia, o 191 é o Detran. Tenha essas informações na cabeça antes de precisar delas. No calor do momento, o cérebro travou. Terceiro, não mova o motociclista a menos que haja perigo iminente. Bombeiros não chegam rápido em todos os lugares. Se a moto estiver pegando fogo ou se houver risco de outro veículo passar por cima, aí sim, você realiza o arrasto técnico. Agarre pelo traje, puxe horizontalmente, mantendo a coluna alinhada. Não tente erguer. Arrastar é seguro. Levantar é perigoso. Quarto, avalie a consciência dele. Faça perguntas simples. "Você consegue me ouvir?" "Qual é o seu nome?" Se responder, está consciente. Se não responder, coloque-o em posição lateral de segurança apenas se não houver suspeita de trauma raquidiano. Motociclista com trauma na cabeça e suspeita de lesão na coluna não deve ser virado. Deixa assim e aguarde.
Quinto, controle hemorragias. Pressão direta com pano limpo. Se o pano encharcar, coloque outro por cima, não retire o primeiro. Retirar o curativo arranca o coágulo que já se formou. Piora tudo.

Erros que eu vejo todo dia no trânsito
Remover o capacete. Essa é a mais comum. Motociclista inconsciente com capacete não deve ter o capacete removido por leigos. A forma como ele fica posicionado com o equipamento pode estar mantendo a via aérea aberta. Tire o capacete e você trava a respiração dele. Só profissionais com técnicas específicas devem fazer isso. Se você insistir, use duas mãos, deslize para baixo e apoie a cabeça dele enquanto retira. Mesmo assim, não recomendo. Oferecer água ou remédio. Absoluto erro. Se ele precisa de cirurgia, o estômago tem que estar vazio. Além disso, você não sabe o nível de consciência dele. Água na via aérea de um semiconsciente é pneumonia por aspiração na certa. Só água na boca de quem está totalmente lúcido e pedindo. Enfiar o tranco com amigos. Todo mundo quer ajudar, mas todo mundo piora. Você precisa de uma pessoa no celular chamando socorro, outra monitorando a cena para evitar novos acidentes, e no máximo mais uma verificando sinais vitais. O resto só atrapalha e estressa a vítima.
Uma situação real que eu vivi
Fui parar numa BR há dois anos. Um motociclista tinha caído na contramão. O carro dele estava destruído na tampa, mas o jovem estava consciente e falando. O problema era que ele reclamava de formigamento nas pernas. Suspeita imediata de lesão medular. Três carros tinham parado. Cada um deles tentava ajudar de um jeito. Um queria tirar o capacete. Outro queria dar água. O terceiro estava filmando. Eu simplesmente disse: param. Ninguém mexe. A senhora que ligou para o 193. Eu fiquei monitorando a pupilas dele e a pulsação. Três minutos depois, o garoto parou de responder. Desmaiou. Mantive a cabeça estabilizada com as mãos até a ambulância chegar. Levaram vinte e oito minutos. Se alguém tivesse virado aquele corpo, poderia ter comprometido a medula permanentemente. O que mais impressionou foi que o SAMU elogiou a manutenção da imobilização manual. Eles levaram dez minutos a mais do que o normal por causa do tráfego, mas chegaram e o paciente estava estável. Se aquele capacete tivesse sido removido na estrada, eu não sei o que teria acontecido.
Itens úteis para ter no carro
Luzes de sinalização triangular. Custam cinqüenta reais e salvam vidas ao evitar que outros veículos colidam com a cena. Eu já vi um segundo acidente em cima de um primeiro por falta de sinalização adequada. Luvas de látex ou nitrílica. Uma caixa com dez pares custa menos de dez reais. Sangue é veículo de transmissão de doenças. Hepatite, HIV, sífilis. Não enfiou a mão nua em ferida nenhuma. Gaze esterilizada e fita adesiva hipoderma. Um kit básico de primeiros socorros resolve hemorragias externas na maioria das situações. Não precisa comprar equipamento médico profissional. O básico funciona se você souber usar.
Chave de segurança para cortarlaje. Às vezes o traje da moto está preso embaixo do pneu ou do châssis. Você precisa libertar a vítima antes da ambulância chegar. Uma chave tipo resgate custa quinze reais e é útil em várias outras situações no carro também.
A parte que ninguém conta
Depois de tudo, você vai passar mal. É normal. O corpo entra em modo de sobrevivência e quando passa, a adrenalina cai e vem o tremor, a náusea, a vontade de chorar. Eu já desabei no estacionamento de um supermercado depois de ajudar num atropelamento. Ninguém vai te julgar por sentir isso. Pelo contrário, quem nunca sentiu nada provavelmente não ajudou direito. Procure conversar com alguém depois. Pode ser um amigo, pode ser familiar. Rolar a experiência ajuda a processar. Não engula. O trauma acumulado faz mal pra saúde física também. Se você quer se preparar de verdade, faça um curso de primeiros socorros. O Cruz Vermilha e alguns corpos de bombeiros oferecem cursos gratuitos. Duas horas de aula prática valem mais do que qualquer texto na internet. Aprendi técnica de imobilização manual num curso desses eUsei seis meses depois. Foi a única razão pela qual consegui manter a coluna de um paciente alinhada por quase meia hora esperando o resgate.
Manter a calma parece fácil quando se lê sobre o assunto. Na prática, o coração acelera, as mãos tremem, a situação é pior do que parece. O treino muscular que você desenvolve num curso prático é o que transforma teoria em ação. Sem treino, você congela. Com treino, você age mesmo sem pensar muito. O mais importante é não ser herói. Ser útil. Chamar socorro, proteger a cena, não piorar o que já está ruim. O resto é com os profissionais. Você não precisa resolver tudo. Só precisa não atrapalhar e manter a pessoa viva até eles chegarem.

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