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Como Se Veste O Homem Pantaneiro

Como Se Veste O Homem Pantaneiro

O que compõe o uniforme de trabalho no Pantanal

A vestimenta do homem pantaneiro nasceu da necessidade prática, não de tradição estética. Cada peça existe porque o cerrado e a planície alagável exigem proteção específica contra Sol, espinhos, cobras e variação térmica brusca. Não é moda. É equipamento. A peça central é o abadá de brim. Tecido duro, algodão cru ou azulado, corte largo para circular ar entre a tela e a pele. Mangas compridas com punho fechado. Gola alta. O abadá protege contra queimadura solar em dias de céu limpo e contra arranhões de capim cortante na trilha. Custa entre 80 e 150 reais em feiras de Cáceres ou Poconê. Versões importadas de Mato Grosso do Sul são mais baratas mas o brim costuma ser mais fino, o que reduz a durabilidade pela metade em dois anos de uso regular.

Como se veste o homem pantaneiro

Abaixo do abadá, camisa de mangas compridas xadrez ou listrada, geralmente em tecido leve. Calça de brim ou sarja, cor clara. Botas cano alto de couro, preferencialmente impermeabilizadas. Chinelo ou sandália de couro apenas dentro de casa ou em situações de descanso. Chapéu de palha ou aba larga, obrigatório. Cinto largo com fivela simples. Bolsola de couro ou mochila de lona. O chapéu merece atenção separada. O modelo tradicional é o chapéu de feltro ou palha com aba larga, estilo vaqueiro norte-mato-grossense. Mantém o Sol fora dos olhos e protege nuca e orelhas. Em época de chuva, a aba amolece e perde a forma se deixado molhado sobre o banco da picape. Eu já perdi três chapéus assim em cinco anos. A solução prática: após a chuva, encher a copa com jornais amassados e deixar secar à sombra, nunca ao Sol direto. O chapéu recupera a forma original em 24 horas. Comprar novo custa entre 60 e 200 reais dependendo do material. A bota cano alto é outro item crítico. O couro precisa ser grosso, mínimo 1,4 milímetros. Botas mais finas rasgam com facilidade em campo de braúna e brejo. A sola deve ter perfil antiderrapante porque lama seca escorrega como gelo. Muitos pantaneiros usam botas de segurança industriais, não botas de peão tradicionais, porque o biqueira de aço protege contra pisadas e quedas de troncos. Isso mudou minha postura nos últimos cinco anos: troquei botas ornamentais por botas de trabalho e a taxa de lesões nos pés caiu drasticamente.

A relação entre calça e bota é intencional. A perna da calça vai por fora da bota, não por dentro. Isso evita que lama e água acumulada escorram para dentro do cano quando se caminha na vegetação rasteira. Já vi gente nova fazer o contrário e levar dois dias remendando meias rasgadas por causa de espinhos que entraram pela abertura superior da bota. O tecido claro não é escolha estética. O branco e o bege refletem calor solar e disfarçam menos o pó da terra, mas isso é secundário. O principal é aividade térmica. Em dias acima de 35 graus com umidade baixa, uma camisa escura pode elevar a temperatura superficial da pele em até 4 graus comparado a uma clara do mesmo tecido. Isso se soma ao risco real de insolação durante jornadas de oito a dez horas a cavalo ou a pé. Temperatura noturna no Pantanal cai facilmente para 15 ou 18 graus mesmo em pleno setembro. A camada extra do abadá funciona como isolamento leve. Muitos homens mais velhos carregam um colete de lã fino enrolado no cinto e o usam apenas ao amanhecer e anoitecer durante a temporada de rodeios e transferências de gado. É um detalhe que turistas nunca notam mas que faz diferença concreta contra a hipotermia leve em noites de seca.

Hoje é Dia do Homem Pantaneiro, o guardião do Pantanal - RURALTECTV
Hoje é Dia do Homem Pantaneiro, o guardião do Pantanal - RURALTECTV

O acessório mais subestimado é o lenço ou pano na cabeça. Não é enfeite. Serve para segurar o suor que escorre dos olhos durante trabalho físico prolongado e para proteger a nuca de Sol quando o chapéu é removido temporariamente. Um pedaço de algodão velho cortado em quadrado resolve. Custo zero. Eficácia máxima. Existem variações regionais importantes. No Pantanal mato-grossense, o abadá tende a ser mais justo e o chapéu de aba mais estreita. No Pantanal sul-mato-grossense, predomina o corte mais folgado e o chapéu de palha de carnaúba, mais respirável mas menos resistente à chuva. Ambas as versões são corretas. Nenhuma é superior. A diferença reflete microclima e disponibilidade de matéria-prima local, não gosto pessoal. Um problema prático que poucos mencionam: o brim molhado seca duro como plástico em poucas horas sob Sol forte. Se você trabalhar de chuva e o abadá empapar, ao secar o tecido fica praticamente imóvel contra a pele e irrita o contorno dos ombros e costas em dois dias. O workaround que funciona é levar um segundo abadá seco guardado em saco plástico dentro da bolsa da sela ou do porta-luvas. Troca-se durante o almoço e o primeiro seca naturalmente enquanto o segundo está em contato com a pele. Sem esse hábito, o atrito repetido causa dermatite de contato simples que some quando se retorna ao padrão seco.

O financiamento de toda essa vestimenta tradicional depende de renda irregular para a maioria dos criadores. Um set completo novo sai entre 400 e 700 reais. Feiras deUsed ou trocas entre vizinhos reduzem isso pela metade. Lojas especializadas em equipamentos de campo vendem peças sobressalentes individuais, então não precisa trocar o conjunto inteiro quando apenas a bota ou o abadá se desgastam. Comprar avulso é mais barato a longo prazo do que repor o uniforme por completo a cada estação. O que não funciona e todo mundo tenta: usar calça jeans comum de cidade. O tecido é muito denso, retém umidade por horas e esquenta demais. O brim de abadá tem trama mais aberta e secagem mais rápida. A diferença é sensível num único dia mas devastadora numa semana de campo contínuo. Não vale o conforto aparente do jeans.