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Como Terminou A História De Jonas

Como Terminou A História De Jonas

A história de Jonas tem um final que muita gente esquece

Muita gente para por ali quando Jonás é cuspidos na praia e acha que a história acabou. Esse é um erro comum. O relato continua com mais uns versículos que mudam completamente o tom do que aconteceu antes. Depois de ser engolido pelo grande peixe, ficar três dias e três noites no ventre da criatura, e fazer uma oração que na maioria das traduções fica escondida dentro de um sal de agradecimento, o peixe vomitou Jonas em terra seca. Ou melhor, jogou ele fora. As traduções hebraicas usam um verbo que tem essa carga mais brusca do que "cuspir". Parece pouco, mas faz diferença na leitura. Aí Deus repete a ordem: vai a Nínive. Dessa vez Jonas obedece. Ele entra na cidade e anuncia destruição em quarenta dias. O rei se arrepende, põe saco e cinza, e o povo inteiro faz o mesmo. O texto diz explicitamente que até os animais foram cobertos. A narrativa não faz piada sobre isso. Isso mostra como o arrependimento em Nínive foi tomado a sério.

Deus então "se arrepende" do mal que havia anunciado. O hebraico usa a mesma raíz que aparece em Gênesis 6, quando Deus se arrepende de ter feito o humano. É um recurso linguístico interessante porque transfere para o leitor a sensação de que o julgamento foi real, mas que a misericórdia também é real. Nada de teologia confortável aqui. Mas o que acontece depois é o parte que mais gera debate. Jonas fica furioso. Ele ora pedindo a morte. Aí Deus conversa com ele de uma forma que muitos chamam de "retórica socrática": será justo eu zangar-me assim? E então planta uma abóbora, ou melhor, uma ricinus, aquela planta que cresce rápido e dá sombra. No dia seguinte manda uma minhoca atacar a raiz. Jonas amaldiçoa a planta e pede pra morrer de novo. Aí Deus compara a pena de Jonas por uma planta que não cultivou e que durou um dia, com a pena que Ele teria por Nínive, que tem cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos animais. O livro termina sem resposta de Jonas. O texto para aí. Isso é proposital. O leitor é forçado a encarar a si próprio.

Eu já vi bastante gente tratar esse final como se fosse um apêndice moral. Não é. A estrutura literária mostra que o livro todo é uma sátira contra o profeta que acha que Deus só serve pra punir os inimigos dele. Jonás até fala no capítulo 4 que sabia que Deus era compassivo antes de ir a Nínive. Ele foi embora de barco pra dessa misericórdia. O final é o golpe final nessa ironia. Uma coisa que pouca gente nota é que o hebraico original deixa ambiguidade proposital sobre o tamanho da cidade. Em Jonas 3:3 está escrito que Nínive era "uma caminhada de três dias". Mas 2 Reis 19:36 e Isaías 37:38 falam de Nínive como uma cidade muito maior. Alguns estudiosos argumentam que o texto não está falando da cidade inteira, mas do centro urbano principal, ou que "Nínive" é usado de forma metonímica pro império assírio todo. Não tenho certeza de qual interpretação é mais sólida, mas o fato é que o texto bíblico não resolve essa tensão. Outro ponto prático: se você for ler o livro inteiro de uma vez, recomendo pular direto do capítulo 3 pro 4. A maioria das pessoas para no 3 por acharem que terminou. Perde o melhor do livro.

Adalia Helena: Aula Bíblica Berçário – Lição 9. A história de Jonas
Adalia Helena: Aula Bíblica Berçário – Lição 9. A história de Jonas

Em resumo, a história termina com Deus questionando o coração de Jonas, não com Jonas se submetendo. O livro é aberto de propósito. Isso é o que faz dele uma das obras mais maduras do cânon hebraico.