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Como Vive As Abelhas

Como Vive As Abelhas

O ciclo de vida das abelhas explicado sem romantismo

A maioria das pessoas acha que sabe como uma abelha vive. Vê uma, coleta pólen, faz mel, morre, tudo bem. A realidade é muito mais técnica e um pouco mais estranha do que o que ensinam no ensino fundamental. Vou explicar do jeito que eu entendo depois de observar colmeias por anos, sem muita firula. Como vive as abelhas começa com a colmeia inteira como um superorganismo. A rainha não é uma chefe, ela é uma máquina de botar ovos. Uma rainha legítima posta entre 1.500 e 2.000 ovos por dia no verão. Ela carrega as reservas de esperma desde a voo nupcial, quando acasala com até 12 machos diferentes, e usa esse estoque por dois ou três anos. Depois desse período, a postura cai e a colmeia começa a criar substitutas, mesmo sem você fazer nada.

Os estágios que definem a vida de uma abelha

O desenvolvimento passa por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto. Cada fase dura um tempo diferente dependendo da casta. Uma operária leva 21 dias para sair do ovo como adulta. Uma rainha leva 16 dias. Um zangão, o macho, leva 24 dias. Sim, os machos demoram mais porque têm um padrão de alimentação diferente durante a larva. O ovo é colocado verticalmente pela rainha na base do favo. Quando nasce a larva, ela é alimentada com geleia real nas primeiras 72 horas, independente do sexo. A partir daí, o destino é decidido: as larvas que virarão rainhas continuam recebendo geleia real em quantidade abundante. As operárias recebem farinha de mel misturada com água e um pouco de pólen a partir do terceiro dia. Os zangões também recebem uma ração diferente, mais calórica, porque o favo deles é maior. Aqui vai algo que poucos sabem. O DNA das abelhas é o mesmo para todas. O que determina se será rainha ou operária é quase inteiramente a dieta. A geleia real contém uma proteína chamada royalactin que ativa genes responsáveis pelo desenvolvimento dos ovários e do tamanho do corpo. Sem ela, a larva se desenvolve como operária, mesmo que geneticamente idêntica a uma futura rainha. É um exemplo claro de epigenética aplicada na prática dentro da colmeia.

O trabalho diário das operárias e a divisão por idade

Uma operária não faz uma coisa só. Ela trabalha em tarefas diferentes ao longo da vida. Nos primeiros três dias, ela limpa as células do favo. Depois disso, recebe ovos e larvas jovens da rainha e as alimenta. Por volta dos cinco dias, suas glândulas hipofaríngeas estão ativas e ela passa a produzir geleia real para as larvas mais velhas. Aos dez dias, começa a trabalhar na absorção e processamento de cera. Ela produz cera em pequenas escamas nos tergos abdominais e modela os favos com as mandíbulas e as patas traseiras. Por volta dos quinze dias, ela vira guardiã da entrada da colmeia. Essa é a fase mais perigosa. Abelhas-guardiãs identificam invasores pelo cheiro. Elas analisam compostos químicos na cutícula dos insetos que chegam. Se o perfil não bater com a assinatura da colmeia, elas atacam. Eu já vi operárias repelirem vespas do gênero Vespa formando uma esfera vibratória ao redor do inseto. Elas aquecem o corpo até 47 graus Celsius e cozem a vespa por dentro. Funciona contra vespas asiáticas também, mas só se a colmeia tiver força suficiente. Uma colônia fraca é devorada em poucas horas. A partir dos vinte dias, a operária vira coletadora. Ela sai para buscar néctar, pólen, água e própolis. O néctar é trazido no papo social, transferido boca a boca para outras abelhas da colmeia que vão desidratá-lo virando mel. O pólen é carregado nas corbículas, as estruturas peludas das patas traseiras. Cada viagem de coleta pode durar de 30 minutos a duas horas, dependendo da distância das flores até a colmeia.

Extinção das abelhas: por que as abelhas estão desaparecendo e como ...
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A comunicação que sustenta a colmeia

As abelhas usam feromônios para se comunicar o tempo todo. A rainha produz uma feromona real chamada BDA (2-heptanona) que inibe a construção de células reais pelas operárias e mantém a colmeia unida. Se você remover a rainha de uma colmeia e não houver larvas jovens o suficiente para criar uma nova, a colônia entra em pânico. As abelhas sentem a ausência da feromona e imediatamente transformam larvas fêmeas com menos de três dias de vida em novas rainhas, alimentando-as exclusivamente com geleia real em células especiais chamadas realárias. A dança das abelhas também é real e funciona de verdade. Quando uma coletadora encontra uma fonte de néctar boa, ela volta e faz uma dança em oito na entrada da colmeia. A direção da parte reta da dança indica o ângulo em relação ao sol. A duração da vibração das asas indica a distância. Fonte a cem metros é uma dança rápida e curta. Fonte a quinhentos metros é mais longa e mais vibratória. As outras abelhase decodificam isso. Já observei isso acontecer várias vezes. A eficácia é impressionante, mas depende totalmente da luz do sol. Em dias nublados, a precisão cai muito porque as abelhas perdem a referência angular.

Questões práticas que ninguém conta

Se você pretende criar abelhas ou entender como vive as abelhas de forma aplicada, o primeiro problema que você vai enfrentar é a vara. Uma colmeia divide naturalmente quando a população chega a um certo ponto. A rainha velha sai com metade das operárias e vai fundar um ninho novo. A rainha nova fica e continua a colmeia original. No manejo, isso significa que você precisa inspecionar os favos a cada quinze dias no verão para ver se há realárias prontas. Se encontrar, faça a divisão artificial ou deixe acontecer. Deixar acontecer sem controle gera enxames que podem fugir para a mata e sumir. Outro problema comum é a varroa, um ácaro que se alimenta da hemolinfa das abelhas e transmite vírus. O ácaro Varroa destructor entrou no Brasil sem aviso e devastou colônias de Apis mellifera em poucos anos. A solução envolve ácaros-fagos, ácidos orgânicos como o fórmico, ou monitoramento com graxa no fundo da caixa. Eu uso uma mistura de vaselina com pó de cobre no fundo, trocando a cada mês. Reduz a carga de ácaros em cerca de sessenta por cento. Não elimina, mas segura a população o suficiente para a colmeia sobreviver sem tratamentos químicos pesados. A sobrevivência das abelhas nativas, as meliponas, é outra história. Elas não fazem mel da mesma forma que a Apis. Produzem um mel mais aguado, chamado mel de abelha-sem-ferro, que se conserva por menos tempo. O manejo é mais delicado porque essas abelhas são sensíveis a vibrações e mudanças bruscas de temperatura. Eu já perdi duas colmeias de Melipona scutellaris por tentar mexer nelas em dia muito quente. O estresse fez as operárias abandonarem a cria. Agora só manejo no fim da tarde, quando a temperatura está abaixo de vinte e cinco graus.

O ciclo sazonais e o inverno

No inverno, as abelhas entram em modo de economia. Elas formam um aglomerado ao redor da rainha e vibram os músculos de voo para gerar calor. A temperatura no centro do conglomerado é mantida em torno de trinta e cinco graus, mesmo quando lá fora está abaixo de dez. As abelhas na periferia são frequentemente substituídas por outras que ficam mais próximas do centro para não congelar. Esse comportamento é chamado de termorregulação cooperativa e é um dos mecanismos mais importantes de sobrevivência da espécie. No outono, a colmeia reduz a postura da rainha. Ela para de botar quase completamente se a temperatura cair abaixo de quinze graus durante dias seguidos. As operárias mais velhas morrem e não são substituídas em grande número. A população pode cair pela metade. O estoque de mel deve ser verificado antes do inverno chegar. Se a colmeia tiver menos de quinze quilos de mel armazenado, ela precisa de suplementação. Eu passo uma mistura de açúcar e água concentrada em baldes suspensos dentro da caixa. Funciona bem, mas só deve ser feito quando as flores estão escassas, senão as abelhas param de coletar naturalmente e ficam prestativas. A polinização é o serviço principal que as abelhas oferecem, não a produção de mel. Cada colmeia com milhes de abelhas visita milhões de flores por dia. A eficácia da polinização por abelhas comuns é superior a qualquer outro inseto para a maioria das culturas agrícolas. Tomates, morangos, maçãs, maracujás. Todos dependem delas de forma direta. Sem abelhas, a produtividade cai entre trinta e cinqüenta por cento nas principais lavouras brasileiras. Isso já está sendo observado em regiões onde os agrotóxicos eliminaram as populações naturais.

Como as abelhas constroem e organizam suas colmeias? | Cursos a ...
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Entender como vive as abelhas exige abandonar a visão simplista e encarar a colmeia como uma estrutura viva com dinâmicas complexas de comunicação, divisão de trabalho e adaptação ambiental. Cada decisão de manejo impacta diretamente a saúde da colônia. O que funciona em uma região pode falhar completamente em outra. O que funciona em uma estação pode desandar na seguinte. A melhor abordagem é observar, registrar e ajustar com base no que a colmeia mostra, não no que os livros dizem que deveria mostrar.