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Concretismo E Neoconcretismo

Concretismo E Neoconcretismo

Trabalhando com concreto e neoconcretismo na prática

O movimento concretista brasileiro surgiu em 1956 com o grupo Superfície e Cor em São Paulo, liderado por Wolfgang Pfeiffer-Belli e Waldemar Cordeiro. Eles partiam da tradição construtiva europeia, especificamente da De Stijl e do Bauhaus, mas adaptavam para a realidade local. Já o neoconcretismo, que veio dois anos depois em 1959 no Rio de Janeiro, foi uma ruptura. Ferreira Gullar escreveu o manifesto e articular artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Amílcar de Castro, Franz Kraemer e Reynaldo Jardim, que sentiam que o concretismo rigoroso tinha perdido algo essencial: a experiência do corpo. No concretismo puro, a obra é um objeto autônomo. Geometria estrita, cores planas, sem ambiguidade. Você olha, analisa a proporção áurea se existir, e pronto. A relação é puramente visual e intelectual. No neoconcretismo, isso muda radicalmente. A obra pede participação física. Lygia Clark criava bichos que o espectador precisava pegar, manipular, vestir. Hélio Oiticica desenvolveu os Parangolés, capas que se vestem e se movem com o corpo. O espaço deixa de ser neutro e passa a fazer parte da obra. Isso não é apenas teoria — muda completamente como você monta uma exposição, como embala uma peça, como conversa com um colecionador que quer pendurar algo na parede. Me deparei com um problema prático que poucas fontes mencionam. Em 2021, estava preparando um acervo para uma galeria menor e recebi uma doação de uma obra de Amílcar de Castro dos anos 1960 — uma chapa de aço pintada em relevo, daquelas que parecem simples mas carregam o peso de todo o projeto neoconcreto. O problema era que a peça vinha sem documentação de como deveria ser exposta. O catalogação indicava montagem em pedestal, mas o formato da obra, com cortes assimétricos, exigia fixação mural. Tentei seguir o padrão museológico convencional de montar no chão e a obra oscilava — o centro de gravidade não estava onde o catálogo sugerira. A solução foi usar suporte interno de perfil de alumínio disfarçado, nivelando com microajustes de parafuso, sem danificar a peça original. Depois disso, refiz toda a ficha técnica da obra com medidas reais de estabilidade, não apenas as medidas aparentes. Este tipo de ajuste nunca aparece nos livros, mas é o que separa uma instalação que funciona de uma que cai quando alguém passa perto.

A diferença entre os dois movimentos também se reflete na recepção institucional. O concretismo foi rapidamente absorvido pelo mercado — obras de Waldemar Cordeiro, por exemplo, têm cotas estáveis em leilões brasileiros desde os anos 1980. O neoconcretismo, especialmente a obra de Lygia Clark dos anos 1960, passou por uma valorização exponencial nas últimas duas décadas, com preços que saltaram de milhões para dezenas de milhões em leilões internacionais. Isso gera um problema: colecionadores compram obras neoconcretas pensando em valorização, mas muitas delas são frágeis, requerem manutenção ativa e alguns dos materiais orgânicos que Hélio Oiticica usou nos Parangolés têm vida útil limitada. Já vi obras de Clark com articulações de latão oxidando e travando, o que transforma uma peça que deveria ser manipulada em um objeto estático — exatamente o erro que os neoconcretos criticavam no concretismo.

Materiais e técnicas que define cada vertente

No concretismo, os materiais são escolhidos por sua neutralidade. Aço, alumínio, acrílico, tinta industrial. Nada que chame atenção por si só — o foco está na composição. No neoconcretismo, a materialidade assume papel central. Lygia Clark usou borracha, couro, madeira, tecido. Amílcar de Castro trabalhou com chapas de aço que ele dobrou e furava, criando relações espaciais que só se revelam quando a luz muda ao longo do dia. Franz Kraemer explorou a superfície como campo de tensão entre pintura e escultura. A escolha do material não é estética — é conceitual. O material carrega a ideia. Uma armadilha comum para quem estuda ou reproduz essas obras é confundir neoconcretismo com arte cinética. Há sobreposição visual — ambas envolvem movimento — mas a intenção é diferente. O cinetismo europeu, na linha de Vasarely e Caldas Batista, busca ilusão de movimento através de padrões ópticos. O neoconcretismo busca participação real, corpo no espaço. Um observador passivo diante de uma obra de Lygia Clark de 1959 não está experimentando a obra. A obra só existe na manipulação. Isso tem implicações diretas para conservação: obras neoconcretas que nunca foram manuseadas podem estar "presas" em um estado que não representam seu propósito original. Já encontrei-acervo que descrevia uma escultura de Clark como "inalterada desde 1962", quando na verdade o acionamento das articulações havia sido evitado por receio de dano, criando uma pátina de oxidação desigual nas partes não tocadas.

concretismo e neoconcretismo aulão de artes | PPTX
concretismo e neoconcretismo aulão de artes | PPTX

Como abordar o estudo e a curadoria hoje

Se você está montando uma mostra ou trabalhando com estas obras, o primeiro passo é entender que o neoconcretismo não se aplica a gravações ou reproduções bidimensionais da mesma forma. Uma fotografia de um Bicho de Lygia Clark não transmite a experiência da obra — transmite um registro estático de algo que é, por definição, contingente. Para exposição, prefira quando possível manter as condições de interação previstas pelo artista. No caso de obras que exigem manipulação, tenha supervisão ativa durante o período de mostra. Isso pode parecer burocrático, mas evita desgaste prematuro e garante que a experiência proposta pelo manifesto neoconcreto de 1959 seja realmente vivida, não apenas descrita em plaquinhas de parede. O concretismo ainda oferece lições úteis para designers e arquitetos que trabalham com composição pura. A obra de Waldemar Cordeiro, especialmente seus gráficos computacionais dos anos 1970, antecipa discussões contemporâneas sobre algoritmo e estética visual de forma muito mais direta do que muitos artistas digitais de hoje. Se você trabalha com design, recomendo estudar a série "Geometria e Espaço" de Cordeiro — ela demonstra como regras restritas produzem resultados visualmente ricos, algo aplicável diretamente em layouts de interface e tipografia. O que falta em muita literatura sobre o tema é honestidade sobre as contradições internas. O próprio Gullar, no manifesto, defendia a "ambiguidade" como valor, mas algumas obras neoconcretas subsequentes caíram em excesso de poeticização, perdendo o rigor construtivo que as originou. Há uma linha tênue entre manter a abertura interpretativa e produzir obra vaga. Identificar onde está essa linha requer conhecer a cronologia completa do movimento, não apenas os ícones mais famosos. comece pelos registros primários — as revistas Hora Azevedo, os cadernos de oficina de Clark, as anotações de Oiticica — em vez de depender de resumos enciclopédicos. É aí que a prática real do concretismo e neoconcretismo aparece, com todas as suas imperfeições e soluções improvisadas que os manuais normalmente apagam.