Cromossomo 18 Sindrome
Guia prático sobre a trissomia do cromossomo 18
A trissomia do cromossomo 18, conhecida clinicamente como síndrome de Edwards, é uma condição genética causada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 18 inteiro ou parcial. Afeta aproximadamente 1 em cada 3.000 nascimentos vivos e tem uma prevalência maior no nascimento feminino. A maioria dos casos não é herdada — ocorre por não-disjunção meiótica durante a formação dos gametas, embora translocações podem ser hereditárias em cerca de 5% dos casos. O diagnóstico pré-natal começa com triagem de primeiro trimestre: dosagem de PAPP-A, beta-hCG livre e espessura de translucência nucal. Valores alterados nessa triagem levam ao acompanhamento com ultrassonografia morfológica detalhada entre 18 e 22 semanas. Achados sugestivos incluem cardiopatia congênita (presente em até 90% dos fetos), oligodrâmnio, crescimento restrito, malformações renais e cifoescoliose. Nenhuma dessas características isoladamente confirma o diagnóstico — o rastreio tem sensibilidade de aproximadamente 82% quando combinado ao teste de DNA fetal no sangue materno (NIPT), que sobe para cerca de 99% na detecção de trissomias completas. O diagnóstico definitivo exige estudo citogenético. O método de escolha continua sendo a cariótipo convencional com bandas G, mas a microarray citogenômico (aCGH) ou o sequenciamento de nova geração (NGS) direcionado ganham espaço. O aCGH detecta trissomias completas e síndromes de defeito (microdeleções/duplicações) no braço curto ou longo do 18 — condições que um cariótipo convencional pode perder se as alterações forem pequenas demais para resolução óptica.
Encontrei um caso concreto no meu trabalho que ilustra isso. Um casal foi referido após NIPT indicativo de trissomia 18, mas a amniocentese subsequente mostrou cariótipo normal 46,XX. Confusão inicial, porque o NIPT estava positivo. O problema era que o NIPT detectava DNA livre fetal no sangue materno, e nesse caso específico havia um mosaquismo placentário — a placenta tinha linhagem trissômica enquanto o feto era euploide. A confusão entre mosaquismo placentário e trissomia fetal verdadeira é um erro comum. A solução foi repetir a análise com NGS direcionado de DNA de linfócitos do cordão umbilical, confirmando que o feto realmente não tinha a trissomia. Esse cenário acontece em cerca de 1 a 2% dos NIPTs positivos para trissomia 18. Sempre confirmo com exame invasivo antes de qualquer decisão clínica, porque o falso positivo por mosaquismo placentário é real e documentado na literatura. A sobrevida é o ponto mais delicado. Cerca de 50% dos fetos com trissomia 18 completa morrem intrauterinamente. Dos que nascem vivos, 5 a 10% sobrevivem até o primeiro ano de vida. A mediana de sobrevida fica entre 5 e 15 dias, mas existem registros de sobreviventes que ultrapassaram a década — quase todos com formas mosaicadas ou trissomias parciais. A presença de cardiopatia congênita grave, insuficiência respiratória crônica e dificuldade alimentar severa são os principais fatores limitantes. O manejo pós-natal segue abordagem multidisciplinar. O suporte respiratório pode ser iniciado com ventilação não invasiva, mas a intubação e ventilação mecânica invasiva são decisões complexas que envolvem discussão prévia com a família. O acompanhamento cardiológico com ecocardiograma é essencial — defeitos do septo atrial e ventricular, canal arterioso persistente e coarctação da aorta são os mais frequentes. A nutrição por sonda gástrica ou gastrostomia é frequentemente necessária devido à hipotonia e dificuldade de sucção.
Um aspecto que poucos profissionais explicam direito é a diferença entre trissomia 18 completa e trissomia 18 parcial. A forma completa tem prognóstico drasticamente pior. Já a trissomia parcial — geralmente envolvendo o braço curto (18p) ou o braço longo (18q) — pode apresentar quadro muito mais brando, com comprometimento intelectual variável e malformações menos graves. Pacientes com delação 18q, por exemplo, podem ter aparência relativamente discreta e desempenho escolar próximo do normal, embora apresentem perda auditiva progressiva e problemas oftalmológicos. Recomendo sempre o mapeamento molecular detalhado quando o diagnóstico é parcial, porque o fenótipo depende diretamente do segmento cromossômico envolvido. Para famílias que recebem esse diagnóstico, o aconselhamento genético deve abordar: probabilidade de recorrência (1% para trissomia 18 esporádica, mas até 50% se houver translocação balanceada em um dos pais), opções de planejamento familiar futuro com diagnóstico genético pré-implantacional (PGD) e apoio psicológico contínuo. Não existe tratamento curativo para a condição em si — o manejo é sintomático e de suporte. O teste NIPT para trissomia 18 está amplamente disponível comercialmente no Brasil, com custo variando entre R$ 800 e R$ 2.500 dependendo do laboratório. O cariótipo fetal por amniocentese ou biópsia de vilo corial tem custo entre R$ 1.500 e R$ 4.000. O aCGH encarece o procedimento em aproximadamente R$ 1.000 a R$ 2.000 adicionais, mas oferece resolução de 50 a 100 kb contra os 5 a 10 Mb do cariótipo convencional. Vale o investimento se houver suspeita de forma parcial ou alterações menos evidentes na ultrassonografia.

Galeria
-
Edwards Syndrome (Trisomy 18) | Concise Medical Knowledge -
Cariotipo Del Sindrome De Edward -
Karyotype Of Edwards Syndrome Autosomal Abnormalities Trisomy 18 ... -
Scientific Designing of Edwards Syndrome (Trisomy 18) Karyotype ...