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Danças De Salão Origem

Danças De Salão Origem

Origem das danças de salão

As danças de salão que conhecemos hoje têm uma história muito mais bagunçada do que a maioria dos cursos ensina. Quando você pergunta sobre a origem, precisa separar o que é documento histórico do que é mito construído por federações de dança nos séculos XX e XXI. O valsas vienense e francesa vieram da classes populares alemãs e austríacas no século XVIII. A Viennese Waltz surgiu em tavernas, não em cortes reais. A nobreza europeia inicialmente a rejeitou porque o close entre parceiros era considerado escandaloso. O conde de Saint-Germain documentou isso nos anos 1750, e os registros mostram que as primeiras variações eram mais parecidas com danças camponesas do que com a elegância que vemos hoje. O tango tem origens discutidas entre Buenos Aires, Montevidéu e os bairros portuários do Rio de Janeiro. Os historiadores mais confiáveis, como Carlos Vega e Jorge Luqui-Largo, apontam que o tango emergiu nos arrabaldes das capitais do Prata na década de 1880, misturando influências africanas, europeias e crioulas. O ritmo de milonga já existia antes do tango propriamente dito. A estrutura harmônica do tango clássico veio da habanera cubana, que por sua vez derivou da contradança francesa trazida para o Caribe pelos colonizadores.

O foxtrot surgiu em 1913, criado por Harry Fox, um ator de vaudeville americano que combinava passos de ragtime com marchas militares. O nome "foxtrot" foi popularizado por Vernon Castle, que o apresentou no teatro em Nova York. Antes disso, os casais americanus dançavam o "heel-toe" em salões, sem uma padronização que perdurasse. A samba de gafieira brasileira é outro caso interessante. Ela nasceu nos anos 1920 e 1930 nas gafieiras cariocas, mas a versão de competição que se vê hoje foi muito mais padronizada a partir dos anos 1950, quando o Centro de Meios de Divulgação (CMD) começou a regulamentar os passos. O samba de salão atual difere bastante do samba rural e do maxixe que o antecederam. O maxixe, aliás, é frequentemente chamado de "rag brasileiro", mas tinha origens autonomas na cultura urbana do Rio da virada do século XIX para o XX. Quem dança há algum tempo já deve ter percebido algo estranho: os movimentos básicos ensinados em academias não correspondem ao que as gravações antigas mostram. Um professor que eu conheci nos anos 2000, na cidade de São Paulo, tentou reconstruir o que chamávamos de "foxhound clássico". Ele usou filmes dos anos 1920 como referência. O resultado era radicalmente diferente do fox trot padrão que se ensina hoje. Aquele estilo anterior tinha mais rotação no corpo, menos deslocamento linear, e uma ênfase no beat 2 que os dançarinos atuais praticamente ignoram.

O que pouca gente explica é que a padronização das danças de salão para competição foi majoritariamente obra da Blackpool Dance Festival, fundada em 1890, e depois da International Dance Teachers Association (IDA), criada em 1921. Eles selecionaram certos movimentos, eliminaram outros que consideravam "vulgares" ou "diffíceis demais", e criaram um currículo fechado. Isso não é má intenção. Era uma necessidade logística para julgar competições. Mas o efeito colateral foi apagar variações regionais que tinham séculos de existência. Artegos de pesquisa como o trabalho de Diana Karter Abraham sobre a história do tango no Brasil mostram como as danças de salão eram usadas como ferramenta de mobilidade social. Nos anos 1930, dançar valsa ou foxtrot em espaços públicos era uma afirmação de que você pertencia a uma classe específica. As gafieiras cariocas, mesmo sendo espaços populares, tinham regras de vestimenta e comportamento que separavam os "dançarinos adequados" dos demais. Se você quer estudar seriamente as origens, os melhores materiais em português são: "História das Danças de Salão" de Sérgio Mota, "O Tango e Suas Origens" de Carlos Vega, e os artigos de Ana Lúcia Teixeira sobre a difusão do foxtrot no Brasil nos anos 1920. A revista Dance Magazine, disponível em arquivos digitalizados no Project MUSE, também tem matérias relevantes sobre a padronização internacional.

Danças De Salão Origem — KERUSSO
Danças De Salão Origem — KERUSSO

Um problema prático que eu enfrentei foi a dificuldade de encontrar gravações autênticas de danças de salão brasileiras dos anos 1940 e 1950. Muitas dessas filmagens foram perdidas ou destruídas. A única solução viável era cruzar registros sonoros, partituras e depoimentos orais de antigos dançarinos. Eu passei cerca de três meses fazendo esse trabalho em Arquivo Público do Estado de São Paulo e no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa. O resultado foi uma linha do tempo mais precisa do que as versões escolares apresentam. O que vale é que as danças de salão não surgiram prontas. Elas evoluíram, se adaptaram, foram padronizadas e, em muitos casos, desfiguradas por interesses comerciais e competitivos. O que ensinamos hoje como "tradição" muitas vezes tem menos de cinqüenta anos, enquanto as raízes das mesmas danças podem ter dois ou três séculos.