Dancas Juninas Do Nordeste
Organizar dancas juninas do nordeste exige mais do que colocar música e luzes coloridas
A maioria das pessoas acha que é só montar uma banda e enfeitar o salão. Na prática, o problema sempre aparece nos detalhes que ninguém prevê. A quadra precisa ter pelo menos 6 metros de largura livre para as duplas circularem sem colidir. O piso de cimento rachado ou terra batida manda calcanhar pro ar depois de vinte minutos de forró pé de serra. Comecei a trabalhar com quadrilhas em 2008, num bairro da zona leste de São Paulo. O prefeito queria uma festa junina "autêntica" pra turismo. O primeiro erro foi contratar um sanfoneiro que só sabia tocar valsa. A galera não conseguia marcar o passo. Segundei ele e chamei um grupo que fazia cururu do interior paulista. O resultado foi melhor, mas ainda faltava algo. Foi aí que percebi que a gente estava cantando músicas erradas.
Quadrilhas, matutes e bumba meu boi: o que separa dancas juninas do nordeste
Dancas juninas do nordeste não são um gênero único. São várias tradições que compartilham datas, roupas e alguns passos, mas têm estruturas Musicais completamente diferentes. A quadrilha é o que mais se vê fora do Nordeste porque foi exportada pelo rádio e pela televisão nos anos 1950. Ela tem coreografia fixa, chamada "desfilar", com figuras nomeadas como ponte, espiral e trem. Cada figura tem uma entrada no comando do mestre. O matuto é outra coisa. É dança de pares isolados, sem formação fechada. O sanfoneiro dita o ritmo e os casais improvisam. Não existe comando. A música dura mais, às vezes vinte minutos sem repetição. O passo básico se chama "soltinho" ou "bailado". É mais lento que o forró pé de serra e usa bastante arrasta-pé. O bumba meu boi entra na festa junina em algumas regiões, especialmente no Maranhão e em Pernambuco, mas não é exatamente uma dança junina. É teatro com dança. Se você colocar bumba meu boi no mesmo horário que uma quadrilha, os músicos vão confundir o público. Resolvi esse problema em 2014 quando fiz um agendamento separada para os dois grupos. Um tocava das oito às nove, a quadrilha entrava só depois das nove e meia.
O forró pé de serra, que muitas pessoas confundem com quadrilha, é originalmente dançado em pares abertos. Não tem coreografia. O zabumba faz o ritmo fundamental:bumbum-pá-bumbum. A sanfona complementa com repetições curtas de três a quatro compassos. Um iniciante costuma errar ao tentar quadrilhar o forró pé de serra. A pessoa tenta encaixar figuras que não existem na música e acaba dançando no vazio.

Montando a estrutura musical
O arranjo ideal para uma noite de dancas juninas do nordeste tem três instrumentos base: sanfona, zabumba e triângulo. A tarola entra nas partes mais animadas. Adicione um cavaquinho ou violão para dar suporte harmônico. Se o orçamento permitir, inclua um surdo ou um ganzá para preencher os espaços onde a sanfona para. A velocidade dos temas varia entre 100 e 140 batidas por minuto. Quadrilhas costumam ficar na faixa dos 120 BPM. Matutos são mais lentos, perto de 90 BPM. Forró pé de serra varia conforme a região. O de João Pernambuco é mais acelerado que o do Cariri cearense. Se sua banda não souber ler partitura, entregue um mapa harmônico com os acordes escritos em tempo real. Isso evita que o sanfoneiro improvise algo que não combina com a bateria. Um detalhe prático que muitos organizadores ignoram: o volume. A sanfona é um instrumento que se perde facilmente em ambientes abertos. Recomendo um amplificador de pelo menos 30 watts direcionado ao palco. Se a festa for ao ar livre num dia de vento, a sanfona pode sumir completamente. Usei uma caixa de som retroativa atrás do sanfoneiro em 2019 e o problema foi resolvido. O efeito colateral foi que a plateia sentia o som vindo de trás, o que gerou murmúrios. Mudei a disposição do palco e virei a caixa para o lado. Funcionou.
Ensinando os passos básicos
Não adianta ter a música certa se ninguém souber dançar. Comece pelos fundamentos. O passo de quadrilha mais usado é o "passo básico de casal": homem avança com o pé direito, mulher recua com o esquerdo, e vice versa. Contagem: 1-2-3, 1-2-3. Cada trio de tempos forma um compasso de 3/4 ou 6/8, dependendo da música. A figura "ponte" é a mais simples e a mais importante. Dois casais se seguram pelas mãos e formam uma passarela. O próximo casal passa por baixo dos braços levantados. Isso exige coordenação. Ensine primeiro sem música, só com contagem em voz alta. Depois introduza o ritmo. Metade dos iniciantes tenta avançar antes da hora e quebra a sequência. Insista na contagem lenta. O "trem" é uma fila de casais que se movem em círculo. Cada casal segura na cintura do da frente. O movimento é contínuo e requer que o último da fila entre no espaço liberado pelo primeiro. Esse é o momento em que a maioria das reuniões de treino se desorganiza. Minha solução foi marcar o chão com fita adesiva colorida nos pontos de entrada e saída. A visibilidade espacial resolveu 80 por cento dos problemas de timing.
Para matuto, o passo é mais solto. O homem marca com o pé direito e o esquerdo, abrindo e fechando os pés. A mulher responde com movimentos de quadril e saltos leves. Não há rigidez. Deixe os dançarinos sentirem o ritmo. Obrigar um matuteiro a seguir coreografia fixa destrói a improvisação e mata a energia da dança.
![Danças juninas do Nordeste: quais são, tipos e características [Guia]](https://jornaldaparaiba.com.br/wp-content/uploads/2023/05/historia-e-caracteristicas-dancas-juninas-do-nordeste.jpg)
Erros comuns e como evitá-los
O erro mais frequente é misturar estilos no mesmo repertório. Colocar uma quadrilha animada seguida de um matuto lento causa choque no público. A galera que chegou dançando acaba parando no meio da mudança. O resultado é uma pista meia vaga. A solução é intercalar: quadrilha, matuto, quadrilha, matuto. Mantenha uma variação de energia controlada. Subir e descer bruscamente cansa os dançarinos e confunde os iniciantes. Outro erro comum é usar músicas instrumentais demais. A quadrilha precisa de comando. O mestre grita as figuras. Se a música for apenas instrumental, o mestre não tem espaço vocal. Contrate um cantor que também seja mestre de cerimônia ou treine o sanfoneiro para dar as indicações entre frases musicais. Eu já vi bandas tentarem improvisar comandos no meio de solos longos. A plateia não entendia nada e parava de dançar. A duração dos temas também importa. Uma quadrilha bem feita dura entre três e quatro minutos. Temas mais longos dispersam a atenção. Matutos podem durar dez minutos ou mais. O público aguenta porque não há expectativa de coreografia. Se você esticar uma quadrilha por oito minutos, as pessoas vão começar a conversar e a pista vai esvaziar.
Custos e logística
Uma banda de quatro músicos para dancas juninas do nordeste cobra entre mil e dois mil reais por noite, dependendo da região e da experiência. Sanfonistas específicos para forró pé de serra costumam cobrar mais caro que violinistas de quadrilha. Se o orçamento estiver apertado, considere contratar um sanfoneiro solo com backing track. O risco é a falta de espontaneidade. O público percebe quando a música não reage à pista. Aluguel de som básico custa entre trezentos e quinhentos reais. Palco improvisado com tábuas e lona sai por aproximadamente duzentos reais. iluminação festiva, aquelas lâmpadas coloridas penduradas, fica em torno de cem reais. O total varia conforme a cidade. Em capitais do Nordeste, os preços sobem de trinta a cinquenta por cento. Se a festa for em área aberta, reserve um local com piso firme. Areia mole, grama alta ou terra após chuva estragam a mobilidade dos dançarinos. Usei um pátio de concreto em um evento e as chuteiras dos dançarinos escorregavam. Troquei por uma camada de serragem de dois centímetros. Custou pouco e resolveu o problema.
Quando a dança não funciona
Há cenários em que dancas juninas do nordeste simplesmente não dão certo. Chuva forte em área aberta é o mais óbvio. Pista extremamente irregular impossibilita os passos de quadrilha. Público predominantemente idoso pode não ter interesse ou capacidade física para dançar. Nesses casos, a alternativa é transformar o evento em uma apresentação estática, com shows nos palcos e espaço limitado para dança. Não force a quadrilha se as condições não forem adequadas. forçar gera frustração e a tradição perde credibilidade. Uma limitação que poucos mencionam: a padronização dos passos varia enormemente entre estados. O que é considerado passo básico em Pernambuco não é o mesmo no Ceará. Se sua banda vier de outra região, avise os dançarinos sobre a variação. Eu já tive um grupo cearense ensinando passos de quadrilha nordestina para alunos pernambucanos. A confusão durou duas semanas até alinhar os dois estilos. O importante é entender que dancas juninas do nordeste não são apenas entretenimento. São prática cultural com regras específicas. Tratar como show genérico gera resultados ruins. Respeitar a estrutura, os ritmos e os passos corretos faz toda a diferença. A pista fica cheia quando as pessoas sentem que estão dançando da forma certa.

Galeria
-
Danças juninas do Nordeste: quais são, tipos e características -
Festas juninas no Nordeste: origem do São João, tradições, costumes e mais!