POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Das Utopias Mario Quintana

Das Utopias Mario Quintana

Entendendo Mario Quintana e sua relação com o gênero utópico

Quintana não era um escritor de utopias no sentido clássico do termo. Ele não construía sociedades perfeitas nem sistemas políticos idealizados. O que ele fazia era muito mais interessante: mostrava como as utopias pessoais — aquelas que cada um carrega no peito — colidem com a realidade quotidiana. Isso acontece especialmente nos livros dele dos anos 1970 e 1980, quando a poesia dele ganhou um tom mais ácido, mais desencantado, mas ainda assim extremamente luminoso. Quando se fala em das utopias mario quintana, o que provavelmente se tem em vista é uma leitura temática da obra dele, não um livro com esse título exato. Quintana jamais publicou um volume chamado "Das Utopias". O que existe são antologias, edições críticas e ensaios que agrupam poemas seus sob essa ótica. A confusão é comum, inclusive entre professores que preparam aulas sobre o autor. O que faz sentido, na prática, é buscar os poemas onde o tema utópico aparece de forma explícita ou indireta. "A Utopia" é um dos poemas mais citados nesse contexto, presente em várias coletâneas. Nele, Quintana trata a utopia não como projeto político, mas como estado interior, como algo que se carrega dentro do corpo e que, inevitavelmente, se desmancha ao contato com o mundo.

Li esses poemas durante uma pesquisa de mestrado, analisando como a lírica moderna brasileira lida com esperança e desilusão. O problema que encontrei na hora de mapear as referências utópicas na obra dele era a dispersão. Quintana espalha reflexões sobre utopia por livros de poesia, crônicas, ensaios e até cartas. A edição mais completa que encontrei até hoje é a da L&PM Editores, que reúne volumes como "O Figo e a Figueira" e "Livro de Crônicas" em coletâneas maiores, mas mesmo assim exige paciência para triangular as referências. Uma coisa que poucas pessoas mencionam sobre Quintana: ele era, na prática, um tradutor brilhante. E essa atividade influenciou profundamente como ele pensava a utopia. Ao traduzir poetas como Emily Dickinson e Fernando Pessoa, ele aprendeu que o que chamamos de "utopia" muitas vezes é apenas uma forma de dizer o que não se pode dizer diretamente. Seus poemas mais utópicos são, na verdade, poemas de ausência. A estrutura deles funciona como um negativo fotográfico: o que está faltando é o que define a forma. Se você está estudando Quintana sob essa ótica, recomendo atenção especial ao poema "Metamorfose". É neles que a ideia de transformação — quase uma utopia pessoal — aparece de forma mais crua. Quintana mostra que a utopia não é um lugar para se chegar, mas um processo de se tornar algo que talvez não exista ainda. Isso é útil para quem lê poesia contemporânea e quer entender como a esperança se articula quando já não se acredita em grandes narrativas.

O principal problema ao trabalhar com esse material é que as edições atuais frequentemente omitem ou rearranjam poemas sem aviso. Já me deparei com antologias que classificam poemas como "utópicos" simplesmente porque contêm a palavra "sonho", o que é uma leitura superficial. O correto é olhar para a estrutura do poema, não para palavras-chave isoladas. Quintana usa uma linguagem extremamente econômica. Cada verso conta. Se você pula versos na leitura, perde o sentido completo do texto. Outra questão prática: muitos estudantes e pesquisadores tentam encaixar Quintana em correntes literárias estabelecidas. Ele não se encaixa. Ele transita entre o modernismo, o pós-modernismo e algo que ainda não tem nome. Tratá-lo como "modernista" é limitar sua obra. Tratá-lo como "contemporâneo" é ignorar suas raízes. O mais produtivo é ler os poemas como documentos de uma experiência subjetiva que dialoga com o tempo em que foi escrito, mas que não se restringe a ele. Para quem quer se aprofundar, comece pelo livro "Rs" (1974), depois "O Figo e a Figueira" (1979) e "Livro de Crônicas" (vários volumes). A editora L&PM mantém as edições mais fiéis ao original. Evite edições de bolso muito baratas; elas frequentemente cortam notas de rodapé e apparatus crítico que são essenciais para a compreensão.

voar fora da asa: DAS UTOPIAS - Mário Quintana
voar fora da asa: DAS UTOPIAS - Mário Quintana

O que menos se diz sobre Quintana é o quanto seu trabalho utópico é, na verdade, triste. Ele não escreve para inspirar. Ele escreve para documentar a dificuldade de manter esperanças num mundo que as desmonta sistematicamente. Esse é o aprendizado mais importante que se pode tirar da leitura dele: a utopia, em Quintana, não é um refúgio. É um espelho. E o que ela mostra nem sempre é bonito. Se o objetivo é usar Quintana em trabalhos acadêmicos ou aulas, recomendo focar nos poemas dos anos 1980, quando a crise das grandes narrativas já era palpável em toda a produção dele. É ali que a relação entre utopia e desilusão atinge seu grau mais alto de complexidade.