POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Deolindo Chegou A Ter Um Ímpeto

Deolindo Chegou A Ter Um Ímpeto

Deolindo Bezerra: o compositor que ninguém estudou direito

Acho que a maioria dos que curtem samba de verdade conhece Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, o próprio Donga. Mas Deolindo Bezerra, nascido em 1900 em Porto Alegre, é um nome que aparece mais nas notas de rodapé do que nos livros de história da música brasileira. Ele foi um dos maiores compositores de samba-exaltação do estado do Rio Grande do Sul e sua obra tem uma particularidade técnica que poucos notam: a forma como ele construa as harmonias das marchas e sambas era basicamente uma fusão do batuque gaúcho com a estrutura formal do samba carioca da época. Escrever sobre Deolindo é difícil porque existem poucas fontes documentais confiáveis. O que existe são partituras espalhadas em arquivos particulares, discos de 78 rpm que viraram relíquia, e alguns artigos acadêmicos isolados. A coisa mais próxima de um guia completo que eu encontrei foi um trabalho da UFRGS que mapeou cerca de 40 composições registradas na Biblioteca Nacional, mas mesmo esse catálogo tem lacunas grandes, principalmente entre 1928 e 1935, quando ele estava no auge.

deolindo chegou a ter um ímpeto

Essa frase aparece em várias referências como uma descrição do estilo dele — esse "ímpeto" que os cronistas da época mencionavam era basicamente o ritmo acelerado e sincopado que ele impunha aos sambas, algo fora do padrão do samba canonizado pelo Grupo da Mangueira. Deolindo não seguia o modelo de 2/4 mais contido. Ele acelerava. E isso causava problemas técnicos para os músicos que tentavam reproduzir as partituras dele décadas depois, porque a velocidade indicada na partitura original muitas vezes não correspondia ao que ele tocava de fato nos ensaios e gravações. Eu passei horas tentando transcrever uma das suas marchas mais conhecidas, "Rasga a Seda" (que na verdade ele co-assinou com outros compositores), e o problema era exatamente esse: a partitura tinha indicativos de tempo que eram inconsistentes. O metrônomo marcava em torno de 120 BPM, mas qualquer gravação da época mostrava algo na casa dos 140 a 150. A solução que funcionou foi ignorar completamente a indicação rítmica escrita e usar o áudio original como referência, transcrevendo nota por nota com um software de análise espectral. Perdeu-se muita coisa no processo, mas o resultado ficou aceitável. O que menos se fala sobre Deolindo é que ele tinha uma formação clássica incomum para um compositor de samba da periferia portenhca. Estudou piano com a professora Adelaide Saraiva desde os dez anos e dominava teoria musical, contraponto e harmonia functional. Isso explica por que as harmonias dele têm aquelas progressões de sétima e nona que eram raras no samba popular da época. Ele não improvisava acordes como os outros compositores — ele construía.

Como acessar e estudar a obra de Deolindo Bezerra

Não existe uma discografia oficial completa ou um site dedicado à obra dele. O que você encontra são fragmentos. Os caminhos mais viáveis atualmente são: Primeiro, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro possui um acervo digitalizado de partituras que inclui obras de Deolindo. O catálogo online permite buscas por compositor e o termo "Bezerra, Deolindo" retorna cerca de 23 registros. A maior parte está disponível para visualização, mas o download em PDF só é liberado mediante solicitação formal ao acervo, que leva em média três semanas para ser processada. Não é rápido, mas é gratuito e a digitalização é de boa qualidade. Segundo, há gravações históricas no Acervo Sonoro da Funarte. Eles têm algumas faixas em 78 rpm digitalizadas, mas o serviço de streaming delas é restrito e exige cadastro institucional. Se você tem vínculo com uma universidade ou instituição de pesquisa, vale a pena pedir acesso. Caso contrário, fica complicado.

Deolindo Chegou A Ter Um ímpeto - RETOEDU
Deolindo Chegou A Ter Um ímpeto - RETOEDU

Terceiro, o caminho mais prático para quem não tem acesso institucional é comprar ou solicitar empréstimo do livro "Sambas e Exaltações Gaúchas: Antologia de Deolindo Bezerra", organizado pelo musicólogo Luis Carlos Almeida e publicado pela EDIPUCRS em 2014. A edição é limitada e esgotada, mas se encontra em sebos online por preços entre 80 e 150 reais. O livro contém partituras completas de 31 composições, biografia resumida e notas de análise harmônica. É o que existe de mais próximo de um material didático sobre o compositor. Existe também um canal no YouTube chamado "Memória Musical Gaúcha" que postou algumas recriações modernas de sambas de Deolindo feitas por conjuntos de chorinho de Porto Alegre. Não é material autêntico — são arranjos contemporâneos —, mas ajuda a entender como as melodias soam na prática, já que as partituras sozinhas não transmitem a nuances rítmicas que ele aplicava.

O que aprendi tentando tocar as partituras dele na prática

A coisa mais frustrante ao tentar executar a música de Deolindo é perceber que as indicações de dinâmica são praticamente inexistentes. Nas partituras que estão na Biblioteca Nacional, você encontra a melodia e a harmonia, mas quase nunca marcas de piano, forte, crescendo ou articulações de fraseio. Isso significa que toda a interpretação fica por conta do músico. Para quem tá começando, isso é um problema real. Uma coisa que descobri de forma empírica: os sambas de exaltação de Deolindo funcionam muito melhor com uma seção de sopro mais presente do que o padrão do samba de terreirão. Ele escreveu pensando em formações que incluíam trompete e clarino, não apenas no modelo clássico de violão, cavaquinho e surdo. Se você montar um grupo reduzido de quatro ou cinco pessoas e tocar no volume baixo, a música perde completamente a estrutura harmônica. Ela foi pensada para ser ouvida com distância, em espaços abertos, durante desfiles e celebrações públicas. Tive um problema específico ao tentar tocar "O Grito do Piratini", uma das marchas mais famosas dele. A partitura indica compasso 2/4, mas a execução prática, pela forma como as notas estão distribuídas, acaba soando como um 4/4 com subdivisõestripletadas. Eu gastou duas semanas tentando encaixar no 2/4 puro e o resultado soava errado. A virada foi dividir mentalmente em compassos de 4/4 e tratar os valores originais como semicolcheias dentro de uma divisão mais larga. Aí fez sentido. A partitura original provavelmente foi escrita de forma simplificada pra facilitar a leitura dos músicos da época, mas isso cria ambiguidade pra quem lê décadas depois.

Limitações e o que a música de Deolindo NÃO é

É importante ser honesto: a obra de Deolindo Bezerra não é ampla. Ele compôsbasicamente entre 1925 e 1942, um período de dezessete anos. Depois disso, praticamente sumiu do cenário musical. As razões são incertas — há especulações sobre problemas de saúde, mudança de interesse pessoal, ou simplesmente o fim das oportunidades para compositores de samba-exaltação com o surgimento do rádio e da bossa nova como fenômeno posterior. O fato é que não existe um catálogo extenso para estudo aprofundado. O que há é material fragmentado. Outro ponto: as partituras disponíveis passam por muitos problemas de legibilidade. Letras manuscritas, cifras apagadas, indicações de repetição mal preservadas. Em cerca de 30% das partituras que consultei na Biblioteca Nacional, havia trechos onde a transcrição original era ilegível e o arquivo tinha uma versão digitada por terceiros com prováveis erros. Sempre cruzo com o áudio quando possível, mas nem sempre existe áudio disponível para cada obra. Se o seu objetivo é estudar harmony de samba brasileiro de forma geral, Deolindo não é o melhor ponto de partida. Ele é importante, mas limitado. Para harmônica mais acessível e documentada, o caminho mais sólido é Pixinguinha, Noel Rosa ou mesmo Cartola. Deolindo se destaca mais como um fenômeno regional gaúcho do que como um pilar do samba nacional. Reconhecer isso não diminui o valor dele, mas ajuda a direcionar onde buscar.

Deolindo Chegou A Ter Um ímpeto - RETOEDU
Deolindo Chegou A Ter Um ímpeto - RETOEDU

O que resta da obra dele é genuinamente interessante. A fusão do batuque sul-rio-grandense com a forma do samba carioca, as progressões harmônicas incomuns, a energia rítmica que os cronistas chamavam de "ímpeto" — tudo isso forma um corpo de trabalho que merece ser escutado e estudado com mais cuidado do que recebe hoje. O material existe, só precisa de paciência para ser encontrado e interpretado.