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Dia Do Senhor Do Bonfim

Dia Do Senhor Do Bonfim

Uma análise prática do Senhor do Bonfim em Salvador

O dia do senhor do bonfim acontece todo primeiro domingo de janeiro em Salvador, na Bahia, e congrega centenas de milhares de pessoas na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, no bairro homônimo. A tradição tem raízes no culto católico trazido por portugueses no século XVIII, com forte sincretismo africano que poucos reconhecem abertamente. O evento é oficialmente reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) desde 2006.

O que você precisa saber sobre o dia do senhor do bonfim

A dinâmica do dia é bastante diferente do que se vê em festas religiosas comuns. Não há horário de abertura formal para a procissão — ela se inicia assim que as primeiras fileiras de fiéis começam a se formar, por volta das cinco da manhã, e se estende até o final da tarde. As famosas fitinhas azul e branca são distribuídas na porta da igreja, e o gesto de amarrá-las no pulso esquerdo é o centro ritual do evento. Cada nó representa um pedido ou uma gratidão. Isso não é simbólico vago: as pessoas levam listas escritas, pedem por saúde, emprego, segurança, coisas muito concretas. O fluxo de pessoas pela Rua Chile, que liga o ponto de ônibus até a entrada da igreja, cria um gargalo crítico. Para quem vai de transporte público, a estação mais próxima é a do Boulevard Salvador, mas nos primeiros domingos de janeiro o movimento é tão intenso que vale considerar chegar de carro e estacionar no Parque da Aclamação, a cerca de dez minutos a pé. Estacionamento custa entre vinte e cinquenta reais por hora. Um detalhe técnico que ninguém menciona nas guias turísticas: a corrente que faz o sistema de drenagem de águas benditas, aquelas que são despejadas pelos degraus da igreja durante a cerimônia, às vezes transborda em dias de chuva. Já vi isso acontecer em 2019 e 2022. Se chover no dia, o piso fica extremamente escorregadio e o risco de queda aumenta consideravelmente, especialmente no trecho final dos degraus. O melhor é usar sapato com solado de borracha e segurar a corrente metálica que corre ao longo da escadaria — ela foi instalada especificamente para esse fim.

O ritual das fitinhas e o que acontece na prática

As fitinhas são vendidas ou distribuídas em bancas ao redor da igreja. O preço varia de três a cinco reais o jogo de seis unidades. O ritual correto, do ponto de vista da tradição, envolve fechar os olhos, fazer um pedido em silêncio e amartrar a fita no pulso esquerdo, mantendo-a até que ela se solte sozinha com o uso. Isso pode levar dias, semanas ou até meses. Ninguém remove intencionalmente. O momento central da missa ocorre por volta das onze da manhã, quando a imagem do Senhor do Bonfim é tirada do altar lateral e colocada em procissão. A igreja, capaz de comportar cerca de oito mil pessoas, fica lotada antes disso. Se sua intenção é entrar no templo durante a missa, chegue às sete da manhã. Chegar depois das nove significa ficar do lado de fora, assistindo pela tela de vídeo instalada na fachada. Existe uma confusão frequente sobre a origem africana da celebração. O Senhor do Bonfim é uma representação de Cristo ligada à devoção dos escravizados africanos que o identificaram com Oxalá, a divindade máxima do panteão iorubá. Essa identificação não é recente — remonta ao período colonial — e é amplamente documentada por pesquisadores como Luis Nicolau Parés e Reginaldo Prandi. Quando você vê pessoas vestidas de branco durante a celebração, isso tem relação direta com essa ligação com Oxalá.

O lado prático que as guias ignoram

A maior dificuldade logística do dia do senhor do bonfim é a falta de saneamento básico na área. Os banheiros públicos na Rua Chile e nos arredores da igreja são insuficientes para o volume de pessoas e, em geral, ficam em condições precárias durante o evento. A recomendação é simples: use o banheiro antes de sair de casa e leve água e lanches, pois os venda-jambos do entorno cobram preços inflacionados, chegando a praticar hasta trinta reais por uma garrafa de água. Outro ponto que merece atenção é a segurança. A aglomeração é enorme, e bolsos e bolsas são alvos frequentes. Já atendi varias pessoas que tiveram celulares roubados nos primeiros quintos da fila. O mais sensato é levar apenas o essencial: documento, um valor em dinheiro em espécie, e celular na bolsa interna com cadeado. Não use joias visíveis. Se você não consegue ir no primeiro domingo de janeiro, saiba que a igreja permanece aberta todos os dias para missas e orações, mas o grande evento popular só acontece nessa data. Finais de semana alternativos também registram fluxo menor, mas nada se compara à dimensão do domingo de janeiro.

O que observar que passa despercebido

A celebração não se resume à igreja. Nos arredores, no entorno da Praça do Bonfim e ao longo da Avenida Sete de Setembro, surgem barracas de comida baiana — acarajé, vatapá, moqueca — regidas por baianas que mantêm receitas Passadas por gerações. Esse aspecto gastronômico é parte integrante do evento e não deve ser tratado como secundário. Muitas dessas barracas aceitam apenas pagamento em espécie. A presença de terreiros de candomblé e umbanda no perímetro é visível, embora discreta. Grupos de tambor de mina e jongo podem ser encontrados nas laterais, realizando rituais paralelos. Isso é normal e esperado. A fronteira entre o catolicismo popular e as religiões de matriz africana nesse espaço é fluida e historicamente consolidada. Não cause estranheza — simplesmente observe com respeito. O evento começou a ganhar projeção nacional a partir dos anos 1990, quando o governo estadual passou a investir em infraestrutura para acomodar o fluxo crescente de visitantes. Antes disso, era uma celebração essencialmente local, restrita aos bairros periféricos de Salvador. O crescimento turístico trouxe benefícios econômicos para a região, mas também problemas de superlotação e comércio abusivo que persistem até hoje.