Disposição Atual Dos Continentes Quando Ocorreu
Quando os continentes chegaram à disposição atual
A ideia de que os continentes estavam alguma vez juntos e depois se separaram não é nova. A Deriva Continental foi proposta por Wegener nos anos 1910, mas só ganhou consistência com a tectónica de placas nas décadas de 1960 e 1970. O que muita gente não percebe é que a disposição atual dos continentes quando ocorreu o processo de fragmentação da Pangeia foi o início de algo que ainda não terminou. Os continentes continuam a mover-se hoje. A Pangeia existiu como supercontinente entre cerca de 335 milhões e 175 milhões de anos atrás. A rutura começou no Triássico Superior, com a abertura do Atlântico Central alrededor de 200 milhões de anos atrás. A América do Norte descolou da Europa e do noroeste de África. O Atlântico Sul abriu-se muito mais tarde, há cerca de 130 milhões de anos, quando a África e a América do Sul se separaram de facto. A Índia partiu da Antártida e do subcontinente africano há uns 100 milhões de anos e colidiu com a Ásia há cerca de 50 milhões de anos. A Austrália começou a separar-se da Antártida há cerca de 80 milhões de anos, mas a configuração atual só se consolidou nos últimos 25 milhões de anos, mais ou menos. Portanto, a resposta direta é: a disposição atual dos continentes é resultado de um processo que começou há aproximadamente 200 milhões de anos e que só se estabilizou numa forma reconhecível nos últimos 20 a 25 milhões de anos. Não houve um único momento. Houve uma sequência de eventos.
O problema é que quando se tenta mapear cronologicamente cada fragmento, aparecem imprecisões sérias. A datação depende de magnetismo remanescente nas rochas, de registros de sedimentos oceânicos e de modelos de reconstrução paleogeográfica. E esses registros são incompletos. O fundo do oceano antigo foi subducado. Mucha da informação desapareceu. Eu já trabalhei com modelos de reconstrução continental para projetos acadêmicos e a sensação é sempre a mesma: quanto mais perto do presente, mais preciso é o modelo. Quanto mais longe no tempo, mais especulativo. Há uma diferença abismal entre reconstruir a posição da América do Sul e da África no Mioceno e tentar colocar a Índia no lugar certo no Jurássico. No primeiro caso, os dados são razoavelmente sólidos. No segundo, há margens de erro que podem chegar a centenas de quilómetros na posição estimada de um continente inteiro. Uma coisa que ninguém explica bem é que a velocidade de deriva não é constante. A Índia moveu-se a uma das velocidades mais rápidas já registadas na história geológica recente — cerca de 15 a 20 centímetros por ano no Cretáceo Superior. A maior parte das placas move-se entre 1 e 5 centímetros por ano hoje em dia. A Placa do Pacífico é uma exceção, movendo-se a cerca de 7 a 10 centímetros por ano em algumas direções. Esses números parecem pequenos, mas em escalas de dezenas de milhões de anos explicam tudo.
Outro ponto que gera confusão: a forma dos continentes que vemos nos mapas não é a forma que tinham quando a Pangeia começou a partir. A erosão, a sedimentação, a formação de montanhas e a atividade vulcânica alteram as linhas costeiras constantemente. O contorno do Brasil que conhecemos é resultado de milhões de anos de processos que ocorreram depois da separação da África. As margens continentais que se encaixam no puzzle da Pangeia não são as linhas costeiras atuais, mas sim o talude continental, aquela descida abrupta do bordo da plataforma costeira para o fundo oceânico profundo. Foi nesse nível que as massas terrestres realmente estavam conectadas. Há também o problema das microfaturas e dos blocos crustais que não pertencem a nenhuma placa principal. No Mediterrâneo, por exemplo, a situação é particularmente confusa. A Placa Africana empurra a Europeia, mas entre elas existem microplacas como a Placa Anatólica e a Placa de Adriática, cujos movimentos complicam qualquer tentativa de reconstrução limpa. Eu já perdi horas a tentar alinhar reconstruções paleogeográficas dessa região e a conclusão foi que nenhuma versão é completamente satisfatória. Os dados sísmicos mostram deformação complexa que os modelos atuais simplificam demais. Os instrumentos modernos ajudam, claro. O GPS por satélite permite medir o movimento atual dos continentes com precisão milimétrica. Satélites altimétricos mapeiam o fundo do oceano com resolução cada vez melhor. Mas mesmo com toda essa tecnologia, existem limitações sérias. Não temos perfis sísmicos contínuos sob a maior parte dos oceanos. A maioria dos dados vem de linhas de survey esporádicas. E os núcleos de sedimento são pontos isolados, não uma cobertura contínua.

Para quem quer acompanhar as reconstruções mais recentes, o software PlateTectonics da UNAVCO e os modelos de Ron Blakey estão entre as referências mais usadas. Há também o trabalho do projeto Earthbyte, que mantém uma base de dados de reconstrução paleogeográfica atualizada. A maioria dos materiais está disponível gratuitamente, o que é raro em ciência de qualidade. O que fica claro é isto: a disposição atual dos continentes quando ocorreu o processo de formação e fragmentação da Pangeia não é um evento único com data marcada. É uma sequência de eventos que se desenrolou ao longo de centenas de milhões de anos, com fases de abertura oceânica, colisão continental, rotação de blocos crustais e reorganização de sistemas de dorsais. Continuará a mudar. Daqui a 250 milhões de anos, a próxima supercontinente terá uma disposição completamente diferente. Ninguém sabe exatamente como será, mas os modelos sugerem que a África pode colidir com as Américas e fechar o Atlântico, enquanto a Placa do Pacífico continuará a subduzir sob a Eurásia. A ciência da paleogeografia avança devagar, mas avança. Cada novo perfil sísmico, cada datagem radiométrica melhorada, cada correção nos modelos de dinâmica do manto ajusta um pouco mais o quadro. E isso é precisamente o que torna o tema interessante — não há resposta final, apenas aproximações successivas à realidade.
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