POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Duas Pesquisadoras Argentinas Lerner E Sadovsky

Duas Pesquisadoras Argentinas Lerner E Sadovsky

Trabalhando com as pesquisas de Lerner e Sadovsky na prática

A dupla argentina estudou bastante como os alunos lidam com a escrita de números e a organização do trabalho em sala de aula. O ponto central delas é que dar problemas matematicamente interessantes para crianças resolverem sozinhas primeiro, antes de qualquer explicação formal, costuma produzir mais aprendizado do que o caminho tradicional de "explico depois resolvo exercícios". Era um colega meu no interior de São Paulo que levou essa ideia para a prática com uma turma de 5º ano. Ele passou uma sequência de problemas envolvendo comparação de valores posicionais sem ensinar o algoritmo convencional primeiro. O resultado mais interessante foi que cerca de 40% dos alunos desenvolveram estratégias não padronizadas que, se o professor intervenha no momento certo, evoluem naturalmente para o registro formal.

duas pesquisadoras argentinas lerner e sadovsky

O conceito que aparece com mais frequência nos trabalhos delas é o de contrato didático. Basicamente, é o conjunto de expectativas não ditas entre professor e aluno sobre como funciona a escola. Os alunos muitas vezes aprendem a adivinhar o que o professor quer ouvir em vez de construir entendimento real. Lerner e Sadovsky mostram como isso distorce a aprendizagem, especialmente em matemática. Um aspecto que poucos citam é a diferença entre os dois autores. Lerner tende a focar mais na análise das produções dos alunos e nos obstáculos que surgem quando se propõem situações desafiadoras. Sadovsky tem um perfil mais preocupado com a gestão da classe e com as decisões do professor no momento da mediação. Quando se lêem juntos, o panorama fica mais completo, mas é importante não tratar as leituras como se fossem idênticas. Aqui vai algo que os manuais geralmente não mencionam: a proposta não funciona bem se o professor ainda depender de listas de exercícios como principal atividade da aula. Se você passar três problemas interessantes e depois dedicar quarenta minutos para corrigir no quadro passando solução, o aluno entende rápido que o importante é ganhar a resposta, não pensar. Eu já vi isso acontecer em várias escolas e é um dos principais motivos de fracasso na adaptação.

Outra armadilha comum é achar que "deixar os alunos resolverem sozinhos" significa não intervir de forma alguma. A intervenção precisa ser planejada. A questão é quando e como intervir para que o aluno perceba que sua estratégia inicial não funciona para todos os casos, sem que o professor simplesmente dê a resposta certa. Se quiser começar devagar, uma saída prática é usar uma única situação-problema bem escolhida por semana. Escolha um problema que possa ser abordado de várias formas, com números que permitam diferentes estratégias de cálculo. Observe o que cada aluno faz, anote as estratégias que surgirem e só então, no momento da socialização, leve os alunos a confrontarem seus caminhos. Isso costuma levar cerca de três aulas, não apenas uma. O material original está disponível através de editoras argentinas como a Paidós e também por meio de revistas brasileiras de educação matemática que traduziram ou resenharam os trabalhos. Dá para encontrar artigos deles na Revista Educação Matemática Pesquisa e em coletâneas organizadas por-editoras como a Artmed no Brasil.

LERNER, D.; SADOVSKY, P. O sistema de numeração um problema didático (1 ...
LERNER, D.; SADOVSKY, P. O sistema de numeração um problema didático (1 ...

Uma limitação séria dessa abordagem é que ela exige tempo. Sequências bem estruturadas costumam levar de quatro a seis semanas para cobrir um mesmo conteúdo que seria dado em duas aulas no formato tradicional. Se a pressão for por cobertura de conteúdo, a adaptação tende a ser cortada pela metade, e o resultado costuma não funcionar. Como alternativa, alguns professores têm usado uma versão reduzida: escolher apenas um problema rico por bimestre e aprofundar bem, mantendo o resto das aulas no formato convencional. Não é ideal, mas é viável em contextos de calendário apertado.