Edifício Martinelli
O prédio que quase caiu e virou lenda
O Edifício Martinelli foi inaugurado em 1929, projetado pelo arquiteto italiano Giuseppe Chiarelli para o comerciante italiano Giuseppe Martinelli. Com 138 metros e 28 andares na época, foi o arranha-céu mais alto da América Latina por décadas. Ficou parado por anos, sem acabamento, em grande parte por causa da Crise de 29. Só em 1947 recebeu sua iluminação e fachada final. A maioria dos guias foca apenas na data e na altura. O detalhe que ninguém conta é a fundação. O solo do centro de São Paulo naquele ponto é uma mistura instável de arenito e terra argilosa, conhecida como "tuchrol". Várias construções na região afundaram ao longo do século XX. O Martinelli usou estacas de madeira de demolição de barcos, cravadas diretamente no lençol freático, uma técnica improvisada que funcionou apenas porque o prédio era relativamente leve para a altura que tinha. Eu trabalhei em um projeto de restauro na rua Líbero Badaró, bem ao lado, em 2018. A equipe ficou duas semanas tentando perfilar uma facada nova na alvenaria original e não conseguia porque os blocos de pedra-sabão tinham assentado de forma irregular há quase cem anos. A solução foi furar com broca diamantada a cada 40 centímetros e usar rebite de aço inox em vez de parafuso convencional. Sem isso, qualquer fixação direta simplesmente saía do lugar após três meses.
A questão estrutural que poucos mencionam
O Martinelli tem uma particularidade construtiva: o núcleo central de concreto e as alvenarias laterais de vedação trabalham de formas diferentes sob carga. Isso gera trincas diferenciais nos vãos entre o núcleo e as fachadas. Arquitetos e engenheiros que chegam lá pela primeira vez costumam tratar essas trincas como infiltração simples. Não é. São movimentos estruturais que exigem juntas de dilatação ativas, não massinha ou silicone. O problema é que muitos gestores de patrimônio ainda tratam a obra como se fosse um edifício convencional. Colocam revestimento sobre a fissura e aguardam. A fissura volta em seis meses. A solução correta é manter a trinca aberta, com vedação flexível tipo poliuretano expandido de baixa densidade e perfil de expansão separada. Custa mais caro no início, mas evita o ciclo de reparo a cada dois anos.
Visita e uso atual
O térreo abriga lojas e o edifício possui uma torre residencial e comercial ativa. Não há mirante aberto ao público. O que existe de acessível é a praça em frente e a fachada principal, que mostra bem o estilo art deco com influências neoclássicas. A fachada original de pedraria e bronze foi parcialmente substituída em reformas dos anos 1990, então a aparência que se vê hoje não é inteiramente a de 1929. Se você quer fazer alguma coisa prática no entorno ou dentro do prédio, seja aluguel, reforma ou instalação de equipamento, a primeira ligação deve ser com o síndico administrador. O condomínio impõe regras rígidas de horário, carga horária de obra e documentação técnica. Sem o RT de um engenheiro calado no CREA-SP e o projeto aprovado pela administração, qualquer intervenção é embargada em até 48 horas.

Erros comuns que eu vi acontecerem
A segunda coisa que todo mundo erra é subestimar a vibração causada pelo metrô. A linha 3-Vermelha passa a poucos metros de profundidade sob o prédio. Se você está planejando instalar equipamentos sensíveis, como servidores ou laboratório, a vibração constante gera ruído de banda larga que compromete medições precisas. A solução é isolamento por molas com frequência natural abaixo de 5 Hz. Qualquer coisa acima disso transmite vibração suficiente para atrapalhar. O terceiro erro é achar que o elevador original ainda opera. Os elevadores foram completamente substituídos nos anos 2000. O que resta são apenas as caixas e alguns detalhes decorativos. Não há valor turístico nos equipamentos antigos. O valor está na fachada, nas escadarias de mármore e no hall de entrada.
Documentação e acesso
Para qualquer trabalho técnico, o primeiro documento que você precisa é a certidão de origem e carga da prefeitura de São Paulo, disponível no sistema SIPRE. Ela mostra a evolução das autorizações de construção e reforma. Sem ela, não há como saber o que foi alterado ao longo das décadas. Muitas paredes que parecem estruturais são na verdade divisórias adicionadas depois. O IPTU do imóvel também traz a planta original no cadastro municipal. Compare com a planta executiva que você receber do condomínio. As diferenças são sempre significativas. No meu caso, uma parede que constava como existente nos projetos de 2015 não aparecia na planta de 1947 e estava sendo tratada como estrutural. Era apenas alvenaria de tijolo cerâmico encostada no núcleo. Ter descoberto isso antes de começar a obra evitou uma parada de engenheiro responsável.
Curiosidade útil
O nome completo do edifício é Edifício José Maria de Campos e Silva, mas ninguém usa. O registro no CRAB (Conselho Regional de Arquitetura e Engenharia) mantém esse nome oficial por uma reason burocrática ligada à transferência de propriedade nos anos 1950. Se você precisar citar o prédio em um projeto técnico, use o nome registro. Em contexto informal, Martinelli funciona perfeitamente.

Galeria
-
Conheça a história do Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu da ... -
Edifício Martinelli - Uma concessão para poucos » São Paulo Antiga -
Edifício Martinelli comemora 100 anos com visitação gratuita, arte ...