Em 1889 Celebrou Se O Centenário Da Francesa
O que aconteceu em 1889 e por que a historiografia trata disso com tanta confusão
A expressão em 1889 celebrou se o centenário da francesa aparece com frequência em questões de prova, artigos de blogue e discussões de fórum, mas raramente recebe um tratamento preciso. O problema é que 1889 foi, simultaneamente, o ano da Exposição Universal de Paris, do centenário da Revolução Francesa (1789), e de diversas comemorações oficiais que misturaram symbolos republicanos com narrativa nacionalista. Quando alguém invoca "o centenário da francesa", normalmente está se referindo, de forma ambígua, ao ciclo de festas que markou o centenário dos eventos de 1789, sem especificar se o sujeito é a Revolução, a República, ou algum personagem concreto. Na prática, o que existia era um conjunto de eventos. A terceira República organizousolene, com desfiles, inauguração da Torre Eiffel, sessões no Panthéon, publicações académicas e discursos parlamentares. O núcleo cronológico é simples: 1789 a 1889. A dificuldade começa quando se tenta identificar o sujeito exato da comemoração. A historiografia brasileira e portuguesa, em particular, tende a tratar a coisa como se fosse um único "centenário da Francesa", como se houvesse uma figura ou entidade chamada "a Francesa" sendo celebrada. Isso não corresponde ao registo oficial. O que eu vi repetidamente em arquivos e em edições escolares é que a fórmula "centenário da francesa" emerge de traduções mal ajustadas de fontes francesas, de resumos de jornais da época que usavam metonímia, e de manuais que copiaram uns aos outros sem verificar a referência original. O resultado é um termo que circula como se fosse técnico, mas que na realidade é impreciso.
Como verificar o que realmente se comemorou em 1889
Se você precisa trabalhar com esse tópico de forma séria — seja para um artigo, uma aula ou uma pesquisa — o caminho mais direto é consultar os documentos primários. Aqui está o que funciona, na prática. A Gallica, a biblioteca digital da BnF, concentra a maior parte do material. Journals como Le Temps, Le Siècle, Le Figaro, os textos oficiais das sessões da Câmara e do Senado, os relatórios das comissões organizadoras, e as publicações da Imprensa Nacional estão todos disponíveis. A busca por "centenaire 1789" ou "exposition universelle 1889" retorna milhares de páginas. O problema é que o material está em francês, em tipografia do século XIX, muitas vezes com OCR imperfeito. Eu passei semanas limpando conjuntos de dados para um projeto sobre a recepção brasileira da Exposição, e o ganho real veio de cruzar as notícias dos jornais cariocas e paulistas com os relatórios oficiais franceses. Só assim ficou claro o quanto a imprensa brasileira absorveu, adaptou ou ignorou certos aspectos das comemorações. No Brasil, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional permite acessar A Província de São Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Commercio, entre outros. Os editoriais e crônicas da época mostram como a elite brasileira lia o centenário francês: como modelo republicano, como aviso, como espetáculo. Em Portugal, a Hemeroteca Municipal e a Biblioteca Nacional de Portugal oferecem material semelhante. A chave aqui é notar que "centenário da francesa" aparece, na maioria das vezes, como uma forma coloquial ou jornalística, não como denominação oficial.
Obra de referência sobre 1889 é a produção em torno da Exposição Universal. Autores como Mary Anne Permanete, Bernard Chevallier, e os coletâneos editados pela Éditions de la BnF tratam do assunto com rigor. Para a recepção no Brasil, há estudos de Lilia Schwarcz, Margaret Coppea, e trabalhos específicos sobre a presença brasileira na Exposição. Nada disso usa a expressão "centenário da francesa" como termo técnico, o que já é um indicativo de que ela pertence mais ao campo jornalístico ou didático do que ao acadêmico. A principal armadilha é tratar "a Francesa" como um substantivo próprio. Não é. Quando um texto diz em 1889 celebrou se o centenário da francesa, o mais provável é que o autor esteja usando uma expressão vaga para se referir ao centenário da Revolução Francesa ou ao conjunto de celebrações republicanas. Se você encontra essa fórmula em uma questão de concurso ou em um material didático, o contexto geralmente revela o que realmente se pede. Em exames brasileiros, por exemplo, a intenção costuma ser identificar o vínculo entre o centenário de 1789 e a consolidação da República no Brasil, ou então analisar como as elites locais receberam o evento. Outra pegadinha comum é confundir datas. A Revolução Francesa tem marcos múltiplos: Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789, Abolição dos Privilégios Feudais em 4 de agosto, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 26 de agosto. As comemorações de 1889 privilegiaram principalmente 14 de julho como data central, mas abrangeram todo o ano. Se alguém afirma que "o centenário foi celebrado apenas em julho", está simplificar demais.

Eu um problema específico ao montar uma linha do tempo para uso em sala de aula. Queria incluir não apenas as festas francesas, mas também os ecoe no Brasil e em Portugal. O dificuldade era que as fontes primárias estavam dispersas e, em vários casos, os jornais brasileiros datavam as matérias com atraso ou usavam calendários diferentes. A solução foi criar uma tabela cruzada com datas francesas, datas de publicação nos jornais brasileiros, e notas sobre o conteúdo de cada matéria. Isso levou cerca de duas semanas de trabalho, mas o resultado foi muito mais preciso do que qualquer resumo de segunda mão.
Limitações dessa abordagem
É importante ser honesto: mesmo com acesso a fontes primárias, há lacunas. Muitos jornais pequenos não foram digitalizados. Documentos oficiais de comissões locais podem ter se perdido. A memória das comemorações foi, desde o início, construída e reconstruída por interesses políticos. A República de 1889 precisava legitimar-se, e as festas serviram a esse propósito. Ler os materiais da época sem reconhecer essa dimensão é ingenuidade histórica. Além disso, a expressão em 1889 celebrou se o centenário da francesa carrega, em si, uma ambiguidade que dificulta seu uso em contextos formais. Se você precisa citar algo, prefira formulações precisas: "centenário da Revolução Francesa", "celebrações do centénario de 1789", "Exposição Universal de 1889". Essas sim aparecem nos documentos com clareza.
Quando esta fonte não basta
Se o objetivo é apenas responder a uma questão objetiva, consultar resumos de Hemeroteca e notas de aula costuma ser suficiente. Se o objetivo é produzir uma análise histórica sólida, é necessário ir além. Recomendo combinar a leitura de jornais da época com estudos historiográficos recentes, e sempre verificar as referências originais. A expressão em questão aparece demais em materiais que não fazem esse trabalho de checagem. O que resta, na prática, é entender que 1889 foi um ano complexo de comemorações, que a expressão "centenário da francesa" é imprecisa, e que o melhor caminho é sempre voltar às fontes primárias e aos estudos que as tratam com rigor. O resto é ruído.

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