Emile Durkheim Buscou A Cientificidade No Estudo Das Humanidades
Por que Durkheim insistia nisso e como isso se aplica hoje
eu li durkheim pela primeira vez durante o mestrado e na época achei que estava diante de uma teoria sociológica qualquer. só depois de tentar aplicar os conceitos em pesquisa própria é que percebi o tamanho do estrago que ele causou no método das ciências humanas. o ponto central é que ele decidiu tratar fatos sociais como coisas, tal qual os físicos tratam fenômenos. isso não é um detalhe secundário, é a base de tudo. ele publicou As Regras do Método Sociológico em 1895, mas o que muita gente não entende é que não se tratava de um livro sobre como fazer pesquisa bonita. trata-se de um manual de defesa contra interpretações subjetivas. durkheim estava cansado de filósofos e historiadores que transformavam every social phenomenon em reflexo de mentes individuais ou de espíritos coletivos abstratos. ele queria regrasáveis. algo que uma pessoa pudesse seguir sem depender do próprio talento intuitivo. a ideia dele era simples na superfície e devastadora na prática: se você quer estudar sociedade como ciência, precisa tratar os fatos sociais externamente, coativamente e de forma mensurável. não adianta sentir o fenômeno. tem que observá-lo de fora, com as mesmas exigências que um biólogo usa para observar uma célula. a diferença é que o objeto de estudo está vivo e se mexe.
eu tentei aplicar essa lógica num projeto sobre taxas de suicídio por região nos anos 2000. o problema real começou quando percebi que os dados oficiais do sinasc não capturavam subnotificações em municípios pequenos. eu precisava cruzar com números de internações por lesões autoinfligidas do sisan e ainda ajustar por variação de critérios diagnósticos entre estados. durkheim já havia previsto isso nas suas obras, especialmente em O Suicídio, mas colocar em prática num banco de dados brasileiro foi bem diferente do que ler no texto. a solução que funcionou foi usar modelos de captura e recaptura e validar com dados locais de secretarias de saúde de cinco municípios-piloto. sem esse passo, qualquer conclusão sobre correlações ficava comprometida. um dos pontos mais importantes e menos discutidos é que durkheim não estava propondo tornar a sociologia uma física social. ele estava propondo algo mais modesto: reduzir a margem de erro interpretativo. quando você trata fato social como coisa, você abre espaço para comparação sistemática. isso significa que dois pesquisadores podem analisar os mesmos dados e chegar a resultados semelhantes se seguirem as regras. o método elimina a necessidade de consenso baseado em autoridade ou carisma intelectual. aqui vai algo que poucos destacam: o conceito de fato social como coisa tem uma armadilha séria. fatos sociais não são objetos físicos. eles existem, mas só se manifestam através de comportamentos, instituições, discursos e práticas que estão constantemente se transformando. quando você trata isso como coisa, corre o risco de cristalizar algo que é fluido. eu vi isso acontecer em vários trabalhos de doutorado que li durante minha carreira. o pesquisador identifica um fato social, congela a definição e depois gasta dois anos coletando dados para confirmar algo que já estava no conceito inicial. isso não é ciência, é rituais de validação circular.
para evitar esse problema, eu sempre recomendo que o primeiro passo seja desconstruir o conceito antes de operacionalizá-lo. pegue o termo, liste todas as manifestações possíveis, e só então escolha quais vão compor seu indicador. o trabalho de durkheim sobre anomia é um exemplo disso. ele não começou com uma definição fechada. ele começou observando dados sobre taxa de suicídio, casamento, filiação e crises econômicas e foi construindo o conceito a partir desses padrões. o conceito veio depois da observação, não antes. outro aspecto que causa confusão constante é a distinção entre fato social normal e patológico. durkheim usava esses termos de forma bastante técnica. normal significava aquele padrão que aparece com frequência em uma sociedade em dada fase histórica. patológico era aquele que desviava da média de forma significativa e gerava sofrimento ou desorganização coletiva. a palavra patológico não era um julgamento moral. era uma referência a algo que funcionava mal dentro do sistema. muitos intérpretes transformaram isso em uma espécie de norma moral disfarçada, o que distorce completamente o argumento original. na prática, aplicar esse método exige uma decisão difícil: você pode focar em padrões macro, como estatísticas nacionais, ou em microinterações que reproduzem padrões estruturais. eu preferi começar com dados agregados porque é mais fácil validar reprodutibilidade, mas isso perde a capacidade de explicar mecanismos causais. se seu objetivo é entender por que algo acontece, não apenas que algo acontece, você vai precisar de etnografia ou entrevistas estruturadas complementares. durkheim mesmo fez observações de campo para O Suicídio, só que ele usou materiais documentais e não participação direta.

um problema muito concreto que eu encontrei ao trabalhar com esse enfoque diz respeito à temporalidade. fatos sociais mudam de velocidade diferente. instituições mudam devagar. práticas culturais mudam mais rápido. linguagem muda rapidamente. se você pega um recorte temporal arbitrário, como cinco anos, pode capturar ruído em vez de padrão. eu resolvi isso usando janelas móveis de dez anos e comparando coeficientes de variação entre períodos. assim, eu conseguia distinguir entre flutuação sazonal e mudança estrutural real. o processo dobrou o tempo de análise, mas eliminou falsos positivos que apareciam em cortes mais curtos. a abordagem de durkheim também tem limitações que poucos gostam de admitir. ela funciona razoavelmente bem para fenômenos com alta visibilidade institucional, como educação, religião organizada e estatísticas de saúde. funciona muito mal para práticas informais, redes clandestinas, economia sombria e formas de agência que não passam por instituições reconhecidas. se seu objeto de estudo é algo que ocorre nas entrelinhas do sistema formal, o método de tratar fato social como coisa vai produzir resultados enganosos ou simplesmente cegos para o fenômeno. nesses casos, a alternativa mais honesta é combinar a análise durkheimiana com abordagens etnográficas ou de rede social. eu fiz isso num estudo sobre associações informais de migrantes e o resultado foi muito mais sólido do que teria sido usando apenas dados secundários. a parte durkheimiana serviu para mapear padrões estruturais, e a parte qualitativa explicou os mecanismos de reprodução. nenhuma das duas sozinha teria funcionado.
se você quer começar a aplicar essa linha de pensamento de forma séria, o caminho mais direto é ler As Regras do Método Sociológico junto com O Suicídio, mas na ordem inversa. leia O Suicídio primeiro para ver como durkheim opera na prática, e depois leia As Regras para entender o que ele estava tentando formalizar. a experiência de campo primeiro, a teoria depois. é assim que eu fiz e é assim que recomendo para qualquer pessoa que queira usar essa abordagem sem cair em interpretações superficiais. o legado durkheimiano nas ciências humanas continua relevante porque ele estabeleceu o padrão mínimo de rigor que qualquer estudo empírico precisa atingir. você não precisa concordar com todas as conclusões dele. você precisa aceitar que sem tratamento sistemático de dados e sem preocupação com reprodutibilidade, sua pesquisa é apenas opinião com referências bibliográficas. isso não é uma crítica moral. é uma descrição técnica do que diferencia explicação científica de reflexão pessoal.
Galeria
-
Emile Durkheim o Criador Da Sociologia Da Educacao | PDF | Émile ... -
O Pioneirismo de Émile Durkheim na Fundação da Sociologia como Ciência ... -
O Pensamento de Émile Durkheim - Enf e Far | PDF | Sociologia | Émile ... -
O Pensamento Sociológico de Émile Durkheim: Fatos Sociais, Consciência ...