Encourado Auto Da Compadecida
Entendendo o encourado auto da compadecida
O termo se refere às marionetes de couro usadas nas versões cênicas do Auto da Compadecida, obra de Ariano Suassuna. Os bonecos encourados são feitos com tiras de couro curtido, montadas sobre uma estrutura interna que permite articulação das articulações principais — braços, pernas, cabeça e às vezes dedos. O resultado é uma figura rígida, mas capaz de gestos ampls quando manuseada por um bonequeiro. Não confunda com os bonecos de pano ou de isopor, que são mais comuns em produções escolares. O encourado pertence à tradição dos bonecos de Couro do Nordeste, com raízes que passam pelo teatro de Sancombina e pela arte popular de artistas como José Pires e o próprio Suassuna quando montou suas primeiras versões com marionetes.
Construção do encourado auto da compadecida
O processo começa com um esboço do personagem. Para o Auto da Compadecida, os personagens centrais são Jesus, Nossa Senhora (a Compadecida), o Diabo, o Anjo da Guarda, João Franco e o Judeu. Cada um tem proporções e traços definidos no texto — o Diabo, por exemplo, aparece com chifres e pernas de cabra; a Compadecida com manto longo e braços abertos em gesto de acolhimento. Montagem da armação: usa-se arame cobre ou ferro galvanizado de 2 a 3 mm para o esqueleto. As articulações são feitas com fios de nylon ou cordão encerado que passam por furos pratados no couro. A cabeça costuma ter um eixo fixo com um botão de pressão para permitir movimento de inclinação. Os braços possuem dobradiças simples de arame revirado. Recorte e costura do couro: o couro de curtume vegetal (couro de vaqueta) funciona melhor porque é flexível sem ser maleável demais. Couro sintético não responde bem à costura e tende a rasgar com o uso. Cada peça do corpo — tronco, braços, pernas, mãos — é cortada em pares simétricos, costuradas pelas bordas com linha de poliéster grosso (linha 69 ou 138) e agulha 20 ou mais grossa. As costuras devem ficar do lado interno da figura para não arranhar o bonequeiro durante a manipulação.
Pintura e acabamento: tintas acrílicas diretamente sobre o couro curtido funcionam bem. Uma demão de selador acrílico antes da pintura evita que o couro absorva a tinta de forma irregular. Acabamento com verniz acrílico fosco protege a pintura e dá uma aparência mais uniforme, especialmente importante para personagens que precisam ser reconhecíveis à distância em palco. Dica prática: eu já fiquei dois dias tentando fazer o boneco do Judeu com articulações nos dedos, e descobri que a única coisa que funcionou foi reduzir a articulação apenas ao polegar e índice, deixando o resto dos dedos fixos. Qualquer coisa além disso gera travamento constante e o boneco para de responder aos comandos na hora da apresentação.

Como usar essas marionetes em uma encenação
A técnica de manipulação de bonecos encourados exige dois pontos de controle por boneco: um vara principal que sustenta o tronco e uma vara menor para os braços. O bonequeiro segura a vara do tronco com uma mão e a dos braços com a outra. A vara do tronco geralmente passa por um anel de couro na parte posterior da figura, permitindo que o boneco oscile para frente e para trás. Para o Auto da Compadecida, a Compadecida precisa de um movimento de braços aberto muito específico — o texto pede que ela se abra em gesto de misericórdia. Isso se consegue com uma vara separada para cada braço, com linhas de nylon finas presas nas pontas dos dedos que o bonequeiro puxa com os dedos mindinhos. O efeito visual é simples mas eficaz. O Diabo é mais complicado porque tem cauda e chifres que atrapalham a silhueta. A solução que encontrei foi fixar a cauda na parte de trás da armação do tronco com um elo de arame que permite balanço livre, e colar os chifres diretamente na cabeça com cola de contato. Any attempt to make the horns articulated just creates visual clutter and breaks the character's silhouette against the light.
Questões práticas que poucos mencionam
Um problema recorrente com bonecos encourados é a tensão do couro mudar com a umidade. Em shows ao ar livre ou em palcos sem controle climático, o couro pode encolher ou expandir, travando as articulações. A solução que uso é deixar os bonecos em sacos fechados com um sachê de sílica gel dentro do cenário, e antes de cada apresentação passar um pano levemente umedecido com água destilada no couro seco. Isso normaliza a umidade relativa em cerca de 15 minutos. Outro ponto é o peso. Um boneco de couro bem feito para a Compadecida fica entre 400 g e 600 g. Isso é manejável para um bonequeiro experiente, mas qualquer coisa acima de 800 g começa a causar fadiga precoce nos antebraços durante cenas longas. Se o seuco está pesado demais, verifique se você não está usando couro de solado (muito grosso) em vez de vaqueta. O Auto da Compadecida original de Suassuna prevê bonecos de aproximadamente 60 cm de altura. Bonecos menores que 40 cm perdem impacto cênico; maiores que 80 cm ficam dificil de manusear e exigemvara extensas que limitam a expressividade. A faixa de 50 a 70 cm é o sweet spot para a maioria das produções amadoras e semi-profissionais.
Pitfalls comuns e como evitá-los
A primeiraarmadilha é tentar fazer todos os personagens com o mesmo nivel de detalhe. Você vai gastar o dobro de tempo e o resultado visual não melhora proporcionalmente. Os personagens secundários (o Pardal, o Anjo da Guarda em aparições breves) podem ser versões simplificadas — tronco único, braços fixos, cabeça esférica pintada. Reserve o trabalho completo apenas para a Compadecida, Jesus, o Diabo e João Franco. A segundaarmadilha é ignorar o contrapeso. Um boneco encourado sem contrapeso na base tende a cair para trás quando o bonequeiro levanta os braços. Use um pequeno peso de chumbo ou massamodeladora na base do tronco, envolto em tecido, para manter o centro de gravidade baixo. A terceiraarmadilha é a mais silenciosa: não ensaiar a sinfonia das vozes com os movimentos dos bonecos. O Auto da Compadecida tem passagens onde o ritmo da fala e o gesto do boneco precisam estar sincronizados. Um boneco que abre os braços dois segundos depois da linha "Tende compassion" destrói o efeito cênico. Grave os ensaios e revise frame a frame.

Fonte e referências
Para quem quer se aprofundar, o livro "A Teoria do Teatro" de Ariano Suassuna traz capítulos sobre a concepção dos bonecos. A coleção do Centro de Artes de Caruaru também possui documentação fotográfica de marionetes encouradas utilizadas nas primeiras encenações do Auto. Não existe um manual passo a passo único publicado — a técnica é transmitida principalmente de forma artesanal entre bonequeiros nordestinos. Se quiser baixar referência de padrões de articulação para bonecos encourados, grupos como o Bonecos de Couro do Recife postam tutoriais esporadicamente em suas páginas. Não há um repositório centralizado confiável; desconfie de sites que prometem "modelos prontos" — a maioria não funciona porque as proporções do Auto da Compadecida são específicas demais para serem adaptadas genericamente.
Galeria
-
Auto da Compadecida (Set2019) -
O Auto da Compadecida - História e personagens da obra -
O Auto da Compadecida - História e personagens da obra