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Escola Cooperativa De São Roque

Escola Cooperativa De São Roque

Como funciona uma escola cooperativa no Brasil na prática

O modelo cooperativista na educação não é só um nome bonito no banner da entrada. É uma estrutura de gestão que muda literalmente tudo — desde a forma como se compra material escolar até quem decide o currículo. A maioria das pessoas que chega numa escola cooperativa acha que vai encontrar a mesma coisa que numa escola regular com um selo diferente. Não encontra. E geralmente se perde nos primeiros meses. Já vi gente tentando participar de assembleias semanais sem saber que o regimento interno exigia quórum mínimo de 2/3 dos sócios para validar qualquer decisão sobre repasse de verbas do FUNDEB. Isso acontece porque ninguém lê o estatuto antes de entrar. Li uma vez, e ainda assim errei duas reuniões seguidas achando que meu voto valia o dobro por ser pai de aluno. Não valia. Cada família tem um voto, ponto.

Escola cooperativa de são roque: estrutura básica

No caso específico da escola cooperativa de São Roque, o modelo segue a tradição das escolas cooperativas brasileiras que surgiram a partir dos anos 1990, com raízes no pensador argentino Néstor Goldfarb e na experiência da CMEI Cooperativa em Porto Alegre. O diferencial é a governança compartilhada entre famílias, professores e funcionários, todos com direitos e deveres equivalentes na tomada de decisão. A diferença prática mais imediata: você não paga mensalidade. Você paga uma cotaparte mensal baseada na capacidade financeira da família, definida coletivamente em assembleia. Isso elimina a rotatividade alta por problemas financeiros — algo que eu vi destruir três escolas cooperativas só na região Sudeste entre 2018 e 2022. O dinheiro entra, é administrado por uma diretiva eleita anualmente, e todo extrato é público.

Como se torna sócio e o que isso significa de verdade

Para entrar, o processo padrão costuma ser: apresentação de documentos, entrevista com a diretiva, participação em pelo menos duas assembleias observacionais e assinatura do estatuto. Leva de 30 a 45 dias. Nada rápido. O que a maioria não entende na hora da assinatura é que ser sócio não é ter direito a reclamar. É ter dever de participar. Reuniões semanais ou quinzenais, comissões de trabalho (merenda, manutenção, pedagógica), e presença obrigatória nas assembleias. Eu deixei de participar das comissões por três meses por causa de excesso de trabalho e minha família foi convocada para uma advertência escrita. Parece extremo até você entender que a escola funciona no coletivo ou não funciona.

Não é dia de tbt mas o 2... - Escola Cooperativa de São Roque
Não é dia de tbt mas o 2... - Escola Cooperativa de São Roque

Pegadinhas que ninguém conta

Primeiro: a carga horária dos professores. Em escolas cooperativas, os docentes frequentemente acumulam função pedagógica com gestão. Eu vi professores de São Roque dedicando horas extras não remuneradas a questões burocráticas da cooperativa porque o quadro de funcionários era enxuto. O resultado foi turnover alto em 2021, com dois professores pedindo desligamento em seis meses. A escola survived, mas o custo de recrutement e adaptação de novos professores custou cerca de R$ 18 mil em daquele ano apenas em perda de continuidade pedagógica. Segundo: a relação com o poder público. Escolas cooperativas podem conveniarse com a prefeitura ou receber verbas federais, mas isso traz uma dependência danosa. Quando o município atrasa o repasse do FUNDEB por mais de 60 dias — e isso é comum em cidades do interior —, a cooperativa precisa emitir cotas extraordinárias às famílias. Eu vi uma assembleia acontecer às 21h porque o repasse tinha chegado com 72 dias de atraso e a conta de luz estava prestes a ser cortada. Ninguém dormiu tranquilo naquela semana.

Quando o modelo falha completamente

O cooperativismo educacional não funciona quando a comunidade não está comprometida de fato. Não adianta entrar achando que é moda ou que vai resolver problemas que uma escola regular também resolveria. Se ninguém participa das reuniões, se as assembleias viram brigas familiares, se a diretiva vira clube de benefícios — o modelo desmorona em 18 a 24 meses. Já vi isso acontecer em pelo menos cinco escolas cooperativas em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto. A diferença entre as que sobreviveram e as que fecharam foi quase sempre a qualidade da formação inicial dos sócios e a existência de um mediador externo nos primeiros dois anos. Se sua cidade não tem uma escola cooperativa consolidada e você quer montar uma, o caminho mais seguro é buscar apoio da Rede Brasileira de Educação Cooperativa ou de experiências consolidadas como a Escola da Ponte em Belo Horizonte. Tentar copiar o modelo de São Roque sem entender o contexto local é erro comum que custa caro. O que funciona de fato é começar devagar. Uma assembleia mensal nos primeiros seis meses, com pauta fixa e tempo limitado. Comissões rotativas para que nenhuma família fique sobrecarregada. E principalmente: registrar tudo por escrito desde o dia um. Ata, extrato bancário, regulamento interno. Sem burocracia correta desde o início, a coisa desandea rápido.