Estrutura Da Narração
O que realmente acontece quando você tenta estruturar uma narrativa
A estrutura da narração é o esqueleto invisível que segura qualquer história de pé. Sem ele, o texto despenca. Com ele, o texto pode ainda ser ruim, mas pelo menos fica em pé. O modelo mais citados nos livros de redação é o de três atos: apresentação, confronto e resolução. É um esquema útil para entender o básico, mas raramente basta quando você vai escrever algo de verdade. A maioria dos roteiros que eu vejo nas bancas de revisão falham porque tentam encaixar o material num tripé rígido sem observar o que o conteúdo pede.
Como montar a estrutura da narração na prática
O passo real é começar pelo ponto de ruptura. Você identifica o momento em que o protagonista perde o controle da situação e a partir daí constrói para frente e para trás. Isso define a largura do seu segundo ato. Se você tentar começar pela introdução clássica, vai perder tempo reescrevendo três vezes porque o peso emocional da cena vai mudar conforme a história se revela. Depois de achar esse ponto central, você lista os estados do personagem antes e depois dele. Cada estado gera uma necessidade narrativa. A necessidade mais urgente vira o primeiro impulso da trama. O restante se organiza por prioridade, não por ordem cronológica. Muitos iniciantes organizam os eventos em sequência temporal e acham que isso é estrutura. Não é. Sequência temporal é cronologia. Estrutura é causalidade. Para verificar se a estrutura está funcional, você faz um teste simples: remove um evento do meio e pergunta se o final ainda faz sentido. Se sim, esse evento é decorativo. Se não, ele é estrutural. Anota os eventos estruturais. O resto pode ser cortado ou movido para outra peça.
Quando eu estava revisando um roteiro de longa-metragem independente há alguns anos, nos decepcionamos com um segundo ato que parecia enorme mas não avançava nada. O problema era que o conflito principal estava diluído em seis subtramas paralelas. A solução foi determinar qual subtrama carregava o peso da transformação do protagonista. Só uma. As outras cinco viraram cena de transição ou foram excluídas. O roteiro passou de cento e vinte páginas para noventa e duas, e a pressão dramática dobrou. A estrutura da narração nesse caso exigia corte, não adição.

Erros comuns que você vai cometer
O primeiro erro é confundir reviravolta com estrutura. Uma reviravolta é um evento surpresa. Estrutura é o encadeamento de causa e efeito que leva até aquele evento. Colocar reviravoltas sem encadeamento gera um texto que parece movimentado mas não sustenta emoção alguma. O leitor sente que algo aconteceu, mas não entende por que deveria se importar. O segundo erro é tratar o clímax como o momento mais intenso da história. O clímax é o momento de decisão irreversível. O pico de intensidade pode acontecer antes, depois, ou em outro eixo. Quando você confunde os dois, o final perde força porque a tensão já explodiu três páginas antes e sobra apenas um epílogo explicativo. Outro problema frequente é a estrutura de descoberta aplicada cegamente. A descoberta é quando o personagem aprende algo que muda sua direção. Ela funciona bem em narrativas de formação, mas em histórias de ação pura ou romances estruturados por dilema moral, a descoberta often não é o motor. O motor pode ser uma escolha, uma perseguição, ou um prazo. Identificar o motor certo economiza meses de reescrita.
Quando a estrutura tradicional não funciona
Existem formatos que se quebram se você tentar-forçar o modelo de três atos. Narrativas epistolares, contos de múltiplas perspectivas não sincronizadas, e estruturas não-lineares como as que aparecem em filmes como Pulp Fiction ou Blade Runner 2049 não obedecem à divisão padrão. Nesses casos, a estrutura funciona por temas, contrastes ou ecos, não por ato. Se o seu projeto tem dessas características, use uma estrutura de mapa instead. Mapeie os pontos de conexão emocional entre as seções. Cada seção deve responder a uma pergunta que a seção anterior levanta. Se uma seção não levanta nem responde nada, ela precisa ser reavaliada ou removida. Esse método é mais lento no início, mas evita que você escreva trechos bonitos que não sustentam o todo. Também é importante saber que estrutura não substitui caráter. Um protagonista bem desenhado resolve problemas estruturais por si só. Personagens planos exigem que a estrutura faça todo o trabalho de gerar tensão, e estrutura sozinha cansa rápido. O tempo médio que um leitor comum tolera uma trama bem construída com personagens mal construídos é cerca de trinta por cento menor do que o tolera com personagens sólidos e trama mediana. Isso é algo queeditores percebem na primeira leitura, mesmo sem conseguir explicar o motivo.
Um exercício prático em quinze minutos
Pegue uma sinopse que você já tenha. Grife o estado inicial do protagonista. Grife o estado final. Entre eles, marque tudo que for uma causa direta do estado final. Tudo que for consequência indireta ou ambientação, risque. O que sobrar é a espinha dorsal da sua estrutura. Se a espinha dorsal tiver menos de cinco pontos, você tem dois caminhos: expandir as causas diretas com consequências secundárias bem desenhadas, ou aceitar que a história é curta e ajustar o formato. Esse exercício costuma revelar imediatamente o que está sobrando e o que falta. Eu aplico esse método em todas as peças que reviso, e em média ele corta de trinta a cinquenta por cento do material que precisa ser reescrito depois, porque identifica os nós estruturais antes que o autor se apegue a eles.

Galeria
-
estrutura da narrativa | DOC -
Estrutura Narrativa Da Historia O Que é A Estrutura Narrativa? -
Elementos e Estrutura da Narrativa | PDF