POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Excreta Nitrogenada

Excreta Nitrogenada

O que realmente é excreta nitrogenada e como aplicar sem estragar a lavoura

A excreta nitrogenada nada mais é do que resíduos orgânicos ricos em nitrogênio, predominantemente de origem animal, que podem ser utilizados como fertilizantes agrícolas. O termo abrange esterco bovino, suíno, avícola, urina de ruminantes, e até mesmo residuos de abatedouro processados. O nitrogênio nesses materiais aparece nas formas orgânica, amoniacal e, em menor proporção, na forma nitrática. O problema é que a maioria dos agricultores trata esses insumos como se fossem adubos químicos padronizados. Não são. A variabilidade é enorme e quem não leva isso em conta perde dinheiro ou queima a cultura.

Análise da excreta nitrogenada antes de qualquer aplicação

Eu já vi produtor aplicar esterco suíno sem análise e matar a lavoura de soja por salinidade excessiva e amoníaca em níveis fitotóxicos. A coisa começou quando o resíduo foi estocado de forma inadequada, sem cobertura, e a amônia volatilizou enquanto o fósforo e o potássio ficaram concentrados. A salinidade do solo disparou e as mudas apareceram com necrose marginal nos primeiros nós foliares. A solução foi simples, mas exige disciplina: analisar a excreta nitrogenada antes de cada aplicação. Pede-se para o laboratório os teores de N-total, N-amoniaccal, P2O5, K2O, matéria seca, pH e condutividade elétrica. Com esses dados, o cálculo de dose deixa de ser chute e passa a ser engenharia agronômica de verdade. No meu caso, recomendaria sempre uma análise a cada lote recebido, pois mesmo produtores da mesma propriedade podem variar significativamente entre uma cargas e outra dependendo da dieta animal e do manejo da cama.

Preparo e compostagem: o que fazer com a excreta antes de levar ao campo

A excreta bruta nunca deve ser aplicada diretamente no solo sem tratamento prévio. O nitrogênio na forma amoniacal pode volatilizar facilmente, principalmente em solos alcalinos e temperaturas altas. Se o produtor espalhar esterco fresco num dia de 30 graus, grande parte do N some para a atmosfera em poucas horas. A compostagem resolve isso parcialmente. O processo transforma o nitrogênio amoniacal em nitrogênio orgânico estabilizado, libera calor que elimina sementes de plantas invasoras e patógenos, e reduz o volume do material. O ponto crítico é a relação carbono/nitrogênio inicial. O ideal fica entre 25 e 30 para 1. Esterco bovino sozinho muitas vezes já entra nessa faixa, mas esterco suíno e avícola geralmente precisam de adição de material carbonado como maravalha, palha picada ou bagaço de cana. A regra prática que eu uso é: volume igual de esterco para volume igual de palhada ou maravalha, misturar bem, formar leiras de aproximadamente 1,5 metro de altura por 2 metros de base, e revolver a cada 15 dias. Em clima tropical, o processo completo leva entre 45 e 60 dias. O composto maduro tem cor escura uniforme, cheiro de terra florestal, e a temperatura volta à ambiente quando revolvido.

#151 - Excretas Nitrogenadas | PDF
#151 - Excretas Nitrogenadas | PDF

Cálculo de dose e momento correto de aplicação

Para calcular a dose, começa-se definindo a necessidade da cultura. Soja em produtividade de 60 sacos por hectare retira aproximadamente 180 quilos de N por hectare. Parte desse nitrogênio vem da fixação biológica, mas o solo precisa fornecer o restante via reserva ou adubação. A excreta nitrogenada entra como suplemento. Se a análise do composto revelou 2 por cento de N-total, isso significa 20 quilos de N por tonelada de composto. Para fornecer 60 quilos de N por hectare, seriam necessários cerca de 3 toneladas por hectare, desprezando inicialmente as perdas. Na prática, eu desconto entre 20 e 30 por cento para volatilização e imobilização microbiana, o que eleva a recomendação para algo em torno de 4 toneladas por hectare. Esse número varia conforme o tipo de excreta, o estádio da cultura e as condições climáticas do período de aplicação. O momento correto depende da cultura. Em grãos de inverno como trigo e aveia, a aplicação pode ser feita na semeadura, incorporando o composto ao solo. Em soja e milho, o ideal é aplicar até 15 dias antes do plantio ou em cobertura no início do desenvolvimento vegetativo, nunca durante o pico de calor do dia. Aplique no fim da tarde ou em dias nublados, e incorpore ao solo em até 6 horas após a espalhagem para minimizar perdas por ammoniação.

Erros comuns que todo mundo comete

O erro mais frequente é tratar a excreta como adubo NPK completo sem considerar a disponibilidade real do nitrogênio. Apenas 30 a 50 por cento do N-orgânico no composto está disponível para a cultura na primeira safra. O resto se mineraliza nas safras seguintes. Quem calcula como se 100 por cento do N fosse disponível logo no ano da aplicação estará superadubando e causando lixiviação de nitrato para o lençol freático. Outro erro grave é aplicar excreta nitrogenada em solos encharcados. A condição anaeróbica favorece a desnitrificação, convertendo nitratos em gases N2 e N2O, que são perdidos para a atmosfera. Em áreas de drenagem precária, o recomendável é adiar a aplicação para quando o solo apresentar condição de operacionalidade adequada, geralmente após 3 a 5 dias sem chuva significativa em solo argiloso. Também é importante não misturar excreta nitrogenada com calcário no mesmo dia. O aumento do pH pelo calcário acelera a conversão de amônio em amônia gasosa, especialmente em solos quentes. Se for necessário calagem e adubação orgânica na mesma operação, faça a calagem com 15 dias de antecedência à aplicação da excreta.

Vantagens, limitações e quando evitar o uso

A principal vantagem da excreta nitrogenada é o custo. Quando o produtor tem acesso a fonte local a preço baixo ou gratuito, o custo por quilograma de nitrogênio fica sensivelmente inferior ao do sulfato de amônio ou da ureia. Além disso, o material melhora a estrutura do solo, aumenta a matéria orgânica e fornece micronutrientes que adubos sintéticos não carregam. Mas existem limitações claras. O transporte de excreta com alto teor de umidade é economicamente inviável para distâncias superiores a 30 quilômetros. Cada quilômetro extra come a margem de economia. Outro ponto negativo é a possível contaminação por antibióticos, hormônios e sementes de plantas daninhas, principalmente quando a fonte é suína ou avícola. Resíduos de tilosina e monensina podem permanecer ativos no composto e afetar a microbiota do solo se o processo de compostagem não atingir temperaturas superiores a 55 graus centígrados por pelo menos 3 dias consecutivos. Evite usar excreta nitrogenada em culturas sensíveis a sais como morango ebatata, a menos que a condutividade elétrica do composto esteja abaixo de 3 milissiemens por centímetro. Em solos salinos já existentes, o risco de fitotoxidez é real e documentado. Nestes casos, adubos nitrogenados sintéticos de solubilidade controlada são mais seguros, ainda que custem mais caro por hectare.

Excreção 2 Tipos de excretas nitrogenadas - YouTube
Excreção 2 Tipos de excretas nitrogenadas - YouTube

Fontes confiáveis para baixar manuais sobre excreta nitrogenada

Para quem quer aprofundar, os manuais da Embrapa e das secretarias estaduais de agricultura são os mais práticos. O documento Embrapa 392, "Uso de Dejetos Animais na Agricultura", traz tabelas completas de composição por tipo de animal e manejo. A secretaria de agricultura de Minas Gerais também publicou material técnico gratuito com receitas de composto e cálculo de dosagem que funciona bem para pequenas e médias propriedades. Ambos estão disponíveis nos sites oficiais dessas instituições, sem necessidade de cadastro ou pagamento. A informação técnica disponível gratuitamente supera, em muito, o conteúdo pago que se encontra em marketplaces agrícolas. O que diferencia quem faz bom uso da excreta nitrogenada de quem simplesmente espalha esterco e torce para dar certo é a análise prévia, o controle do processo de compostagem e o respeito às condições do solo no momento da aplicação. O resto é tentativa e erro que custa caro no campo.