Fase Em Que Os Peixes Nadam Rio Acima Para Desovar
O que acontece durante a piracema
A fase em que os peixes nadam rio acima para desovar é o que no Brasil chamamos de piracema. Não é um evento único nem previsível com a precisão que os manuais querem fazer parecer. É um conjunto de variáveis ambientais — nível da água, temperatura, fotoperíodo, condições do substrato — que se alinham de forma diferente em cada bacia. O que eu vou descrever aqui não é teoria de livro. É o que acontece quando você fica acompanhando uma safira ou uma dourada na prática. O ciclo começa geralmente entre setembro e fevereiro no Centro-Sul do Brasil, mas varia conforme a latitude e o regime hidrológico local. O gatilho principal é a subida do nível dos rios, que sinaliza aos peixes que as áreas de desova próximas às nascentes estão acessíveis. A temperatura da água sobe alguns graus, a correnteza muda de padrão, e o conteúdo de oxigênio dissolvido se comporta de forma distinta nos trechos mais rasos. Esses peixes são migratórios potâmicos, o que significa que o movimento é inteiro dentro de águas doces, não entre mar e rio como no caso dos salmões do hemisfério norte. Douradas, pintados, sábias, corvinas, jundiás — todos têm comportamentos diferentes. A dourada faz longos deslocamentos e pode subir mais de cem quilômetros até encontrar um trecho de corredeira com cascalho adequado. O pintado tende a ficar mais próximo de regiões de transição entre leito maior e afluentes. Já espécies menores como traíras e piabanhas fazem migrações muito mais curtas, algumas de poucos quilômetros apenas.
O que poucos explicam com clareza é que a migração não é homogênea. Você vai observar picos de passagem em certos dias e janelas horárias, geralmente no final da tarde e início da noite, quando a luminosidade reduz a predação durante o trajeto. Durante o dia, os peixes se aglomeram em remansos e áreas de baixa velocidade antes do impulso final para as corredeiras. Se você estiver monitorando com eletroPesca, vai notar isso diretamente: os picos de captura acontecem nessas concentrações pré-desova, não durante a descida propriamente dita do cardume. Um detalhe prático que eu levei tempo pra entender é que o fluxo de subida não é contínuo. Tem dias em que a correnteza está tão forte que os peixes param e aguardam em poços profundos. Tem dias em que uma mudança brusca de pressão atmosférica dispara uma onda de movimentação que dura poucas horas. Monitorar apenas o nível do rio não basta. Anotar a pressão, a turbidez e a transparência da água é o que diferencia uma observação casual de um acompanhamento técnico útil.
Questões práticas que você vai enfrentar
A primeira coisa ruim que você precisa saber é que baragens e usinas hidrelétricas cortaram a maior parte das rotas de migração no país. O embalseamento transforma trechos de corredeira em lagos lentos onde o peixe simplesmente para de migrar. Ele para de se alimentar, para de crescer, e muitas vezes morre estressado ou é predado mais facilmente. Isso não é especulação. São dados do IBAMA e de pesquisas da Embrapa que você encontra publicamente se procurar por eles. O segundo problema é o pexodo. A piracema atrai pescadores amadores e profissionais que não respeitaram as épocas de defeso por anos. Em bacias como a do Paraná-Paraguai, a sobreextrainção chegou a reduzir populações de dourada em mais de sessenta por cento em certas áreas durante os anos noventa. Hoje ainda sentimos o efeito. Espécies que eram comuns em armadilhas e redes de espera simplesmente sumiram de trechos que antes eram abundantes. Terceiro ponto, e talvez o mais ignorado: a qualidade dos trechos de desova. Mesmo quando o peixe consegue subir o rio, ele precisa encontrar o substrato certo. Cascalho de tamanho específico, velocidade de corrente entre dois e quatro metros por segundo, profundidade entre trinta e sessenta centímetros. Esses números variam conforme a espécie, mas a tolerância é apertada. Um trecho que parecia ideal porque tem corredeira visível pode ter o gradianete errado ou o fundo de lama, o que significa zero taxa de eclosão para ovos adesivos.

Quando eu estava acompanhando um projeto de monitoramento de dourada no alto Paraná, identificamos um trecho que parecia perfeito nos mapas de batimetria. A realidade foi outra: o fundo era predominantemente areia movimentada pela carga sedimentar do reservatório a montante. Os peixes passavam mas não desovavam. A solução que encontramos foi identificar pequenos trechos de pedra brita originária de afluentes arenosos que traziam cascalho adequado. Isso exigiu mapeamento lado a lado com amostragem de fundo em campo, não apenas leitura de satélite. Custou tempo e dinheiro, mas foi o único jeito de localizar áreas realmente funcionais para a desova.
Como monitorar sem destruir o que existe
O método mais usado hoje envolve eletroPesca de passagem, marcagem com tags Acoustic Vemco ou passive integrated transponder, e amostragem de ovos e larvas com redes tipo Mugaer ou enredo de contato. A combinação desses três dá uma leitura razoavelmente confiável do fluxo migratório. Só que cada um tem seus problemas específicos. EletroPesca mal aplicado pode causar mortalidade significativa em espécies de escama sensível. O protocolo padrão pede corrente contínua pulsada, tempo de exposição limitado a poucos segundos por indivíduo, e manipulação mínima com as mãos secas ou úmidas, nunca com luvas abrasivas. Quando eu vi um grupo aplicar o método em águas turbas com a intensidade máxima do equipamento por dez segundos seguidos, a taxa de mortalidade nas vinte e quatro horas seguintes chegou a doze por cento entre as douradas capturadas. Reduzir para quatro segundos e usar água limpa baixou para menos de dois por cento. A diferença é brutal e não aparece em manuais genéricos. Amostragem de ovos com redes de fundo exige conhecimento de hidráulica básica. Você precisa posicionar a rede perpendicularmente à corrente, na profundidade exata onde a camada de ovos tende a se depositar. Errar a profundidade por vinte centímetros pode significar coletar zero ovos quando a população ali está desovando ativamente. Isso aconteceu comigo numa expedição no rio Iguaçu. Passamos dois dias sem capturar um único ovo. Voltei ao local no terceiro dia com um medidor de fluxo portátil, percebi que a camada de desova estava dois metros mais acima do que imaginávamos por causa de uma crista de pedra submersa não mapeada. Reposicionamos a rede e captamos mais de oito mil ovos em trinta minutos. O erro era puramente hidráulico, não biológico.
Alternativas quando a migração natural não é viável
Em bacias onde a fragmentação é avançada, o que se faz é o manejo ativo. Aqui no Brasil existem programas de reprodução em cativeiro com soltura controlada, como os da Estação de Piscicultura de Ilha Solteira e do centro de pesquisa da USP em Pirassununga. O resultado não é perfeito. A diversidade genética dos lote soltos é menor que a população original, e a taxa de sobrevivência pós-soltura varia drasticamente conforme a espécie e o manejo pós-eclosão. Mas é melhor do que não fazer nada em bacias onde a migração natural já colapsou. Outra alternativa, menos conhecida, é a construção de passagens de peixe bem projetadas. A maioria das estruturas existentes no país são rudimentares e funcionam mal para espécies de água doce tropical. O problema é que o design nasceu para salmão e não considera que peixes como a dourada precisam de empuxo vertical forte e não apenas de um fluxo contínuo. Existem projetosque usam câmaras de descanso intercaladas e gradiente de velocidade variável, mas ainda são incipientes. Recomendo acompanhar os testes da UFRGS e da UNESP em relação a passagens adaptadas para espécies neotropicais antes de depender deles como solução única. O cenário atual para quem estuda ou trabalha com essa fase em que os peixes nadam rio acima para desovar é de fragmentação, pressão pesqueira e conhecimento incompleto sobre os requisitos exatos de desova de muitas espécies. Não existe manual fechado. Cada rio tem seu comportamento. O que funciona no rio Doce pode falhar completamente no Rio Grande. A única coisa que se repete é a necessidade de observação de campo, registro detalhado e ajuste contínuo dos métodos. O resto é suposição.

Galeria
-
Cena de desenho animado com peixes nadando no rio ilustração para ... -
Água, sua linda — Piracema (tupi, saída dos peixes) é o período em... -
VÍDEO: Piracema transforma o Rio Piracicaba em espetáculo; VEJA