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Fim Do Segundo Reinado

Fim Do Segundo Reinado

Como estudar o fim do segundo reinado de verdade

A maioria dos estudantes decora datas e não consegue explicar por que uma república foi proclamada num golpe militar sem resistência. Isso acontece porque os livros didáticos vendem uma versão limpa demais dos fatos. A minha sugestão é diferente. Vá direto às fontes primárias e entenda os interesses envolvidos. O Segundo Reinado durou de 1840 a 1889. O golpe que derrubou Dom Pedro II foi dado em 15 de novembro de 1889, pelas forças republicanas chefiadas pelo marechal Deodoro da Fonseca. Nada de revolução popular. Nada de manifestação nas ruas. Foi uma conspiração entre militares e elites civis, feita nos bastidores, anunciada de forma apressada. As causas são múltiplas e interligadas. Vou listar as principais que realmente importam:

  • A questão militar — Os oficiais do Exército passaram a discordar cada vez mais do sistema parlamentarista e da subordinação ao Ministério da Guerra, civil e conservador. O manifesto dos vinticinco, de 1884, e a Questão Militar de 1887-1888 foram sinais claros de ruptura.
  • A Questão Religiosa — O conflito entre o imperador e o Papa, mediado por Dom Pedro II, desagradou setores católicos influentes. A prisão dos bispos Dom Macedo Costa e Castanho de Almeida gerou revolta e afastou importantes alianças políticas do palácio.
  • O movimento abolicionista — A Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, consolidou o fim da escravidão. As elites agrárias, especialmente os cafezais do interior paulista, sentiram-se traídas pelo governo imperial, que não ofereceu indenização ou transição ordenada.
  • O declínio pessoal de Dom Pedro II — O imperador era culto, moderado e respeitado internacionalmente. Dentro do Brasil, porém, envelhecia, via sua família sendo ameaçada por escândalos (o caso do visconde de Ouro Preto) e sentia que seu prestígio político evaporava. A proclamação da República, curiosamente, encontrou-o quase sem defensores.
  • O apoio das oligarquias regionais — O Partido Republicano, fundado em 1870, era majoritariamente composto por elites provinciais que não viam mais vantagem em sustentar uma monarquia centralizadora. São Paulo e Minas Gerais eram os principais motores.

A proclamação em si

No dia 15 de novembro, Deodoro da Fonseca recebeu de Campos Sales, Ruy Barbosa e Tancredo de Paula Souza uma carta exigindo que ele assumisse a liderança do movimento. Ele estava em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Foram atrás dele de carroça, o que já diz muito sobre o caráter improvisado do golpe. Voltou à capital, ordenou a ocupação do Ministério da Guerra e, no dia seguinte, convocou um conselho de governo provisório. Dom Pedro II foi notificado e obrigado a deixar o país com a família em 17 de novembro. A bordo do vapor Alcantra, seguiram para a Europa. Um dos problemas que vejo sempre é a ideia de que a República nasceu de um levante popular. Os quadros escolares ainda pintam 15 de novembro como uma revolução. Não foi. Foi um golpe de estado conduzido por uma minoria. Os soldados que ocuparam prédios públicos não gritavam slogans republicanos. Estavam sendo mandados por superiores hierárquicos. Outro erro grave é culpar exclusivamente o marechal Deodoro da Fonseca. Ele era um general respeitável, herói da Guerra do Paraguai, que na época não demonstrava simpatia ideológica pela República. Segundo depoimentos da época, ele era relutante. O que moveu o episódio foram os civis republicanos que o manobraram. Ruy Barbosa, por exemplo, foi um dos arquitetos intelectuais do novo regime.

Fonte primária essencial

Se você quer mesmo entender o contexto, leia Memórias do Visconde de Ouro Preto, o próprio ministro que tentou reformar o Império antes do golpe. Ele apresenta uma defesa detalhada do que estava sendo feito contra a monarquia e mostra como as pressões eram externas e internas ao mesmo tempo. Também recomendo A Proclamação da República, de Joaquim Nabuco, que embora seja apologético à monarquia, fornece um retrato preciso dos bastidores. A questão econômica também foi subestimada. O Império enfrentava uma crise financeira séria após a Guerra do Paraguai, que custou cerca de 6% do PIB brasileiro à época. A dívida externa crescia e a inflação apertava. A abolição, sem indenização, destruiu a base de renda de uma classe inteira. Isso foi um catalisador importante que a historiografia tradicional muitas vezes deixa passar.

Fim do Segundo Reinado e Primeira República no Brasil by Joedson Soares ...
Fim do Segundo Reinado e Primeira República no Brasil by Joedson Soares ...

O que ficou depois

A República Velha, instaurada naquele novembro, foi marcada pelo domínio das oligarquias estaduais, pelo café com leite e pelo coronelismo. O novo regime se revelaria altamente autoritário desde o início, com a Constituição de 1891 consolidando o poder dos governadores. A ironia histórica é que muitos monarquistas aceitaram melhor a república do que os republicanos aceitariam a democracia de verdade. Dom Pedro II morreu em Paris em 5 de dezembro de 1891. Seus restos mortais só retornaram ao Brasil em 1921, nas comemorações do centenário da independência. O ex-imperador era amplamente respeitado até pelos republicanos mais radicais, algo que mostra a complexidade das relações daquele período.

Onde encontrar material complementar

Para acesso a documentos, o arquivo do Museu Imperial em Petrópolis e a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional são os melhores recursos gratuitos. A coleção do período no Diário do Rio de Janeiro permite acompanhar a cobertura jornalística dos dias que antecederam o golpe. A análise comparada de jornais republicanos versus conservadores revela como a narrativa foi construída antes mesmo da proclamação acontecer. Se estiver estudando para concurso ou prova de história, preste atenção especial à diferença entre as causas profundas do fim do Império e os motivos imediatos do golpe. A distinção é fundamental. As causas profundas vêm do processo de deslegitimação da monarquia entre 1884 e 1889. O golpe em si foi apenas o momento final, uma sequência quase trivial de eventos dentro de um contexto já maduro para a mudança. Uma coisa que eu sempre aponto quando levo alunos aos arquivos é como a correspondência diplomática estrangeira da época oferece uma visão muito mais clara do que os textos internos. Os embaixadores franceses e britânicos registravam com frieza que o regime imperial estava acabado e que a transição seria controlada, não revolucionária. A visão deles, livre de paixão partidária, confirma o que os documentos brasileiros muitas vezes tentam esconder.