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Focos De Ausculta Cardiaca

Focos De Ausculta Cardiaca

Como fazer a ausculta cardíaca correta, na prática

A maior parte dos estudantes e residentes ouve o coração como se estivesse lendo um livro didático. Eles vão no manual, checam o foco, escutam e anotam. O problema é que o corpo humano não segue o livro. O foco de ausculta não é onde a valva está posicionada anatômicafocos de ausculta cardiacamente, é onde o som daquela valva se propaga com mais intensidade até a parede torácica. Isso faz toda a diferença quando o paciente tem DPOC, obesidade ou cifose. Vou listar os focos na ordem que eu uso no dia a dia, com a nuance que poucos ensinam.

Focos de ausculta cardíaca: a distribuição prática

O foco aórtico fica no segundo espaço intercostal, borda esternal direita. Aí você ouve melhor os ruídos da valva aórtica, especialmente estenose aórtica com clique sistólico ou sopro de ejeção. Se o paciente tiver aorta dilata a, esse som pode ser mais difuso e migrar para cima do esterno. Anote isso. O foco pulmunar está no segundo espaço intercostal esquerdo. Sopro de insuficiência pulmunar, ruído de abreçãopulmonar, fixação da segunda bulha em hipertensão pulmonar. A segunda bulha aqui é normalmente mais suave que na aórtica, e em jovens magros às vezes nem se ouve separadamente. É normal não distinguir bem nesse foco. O foco de Erba é o terceiro espaço intercostal esquerdo. Muitos residents pulam esse ponto achando que não importa. Em adultos com doença valvar significativa, especialmente regurgitação aórtica, o sopro diastólico precoce é mais audible aqui do que no próprio foco aórtico. Eu encontrei esse caso na prática: um paciente com insuficiência aórtica crônica que eu estava seguindo e, no acompanhamento de rotina, o sopro diastólico que eu ouvia apenas no foco aórtico sumiu por dois meses. O paciente estava assintomático. Reavaliando, posicionei o transdutor no ponto de Erba com o paciente em decúbito semi-Fowler e expiração sustentada. O sopro estava lá, intenso, gradativamente crescendo. Aquilo mudou a conduta e a indicação cirúrgica. Se você só ausculta nos quatro focos tradicionais e esquece esse, passa batido.

O foco mitral é o quinto espaço intercostal, linha mamilar esquerda. Aqui se escuta melhor a primeira bulha, o estalido de abertura mitral, os sopros de regurgitação mitral e o ruído de frenquência ventricular. O problema é que a linha mamilar é imprecisa em homens com grande barbilhão, mulheres com mamas grandes, ou pessoas com tórax em funil. Nesses casos, identifique o bordo inferior do peito direito com o dedo indicador e desça até o espaço intercostal correspondente. O contorno costal é mais confiável do que a mamila. O foco traqueal, às vezes chamado de foco de Landon, fica no terceiro espaço intercostal esquerdo mais próximo do esterno. Ele é útil para sopros de coarctação de aorta e dissecação aórtica que irradiam de forma atípica. Quase ninguém usa esse foco hoje em dia, mas vale conhecer.

Focos de ausculta cardíaca - Semiologia e Semiotécnica de Enfermagem
Focos de ausculta cardíaca - Semiologia e Semiotécnica de Enfermagem

A técnica que realmente funciona

Use o diafragma do estetoscópio para os sons agudos — cliques, estalidos de abertura, sopros sistólicos de alta frequência. Use o cuba para os sons graves — bulha, sopros diastólicos de baixa frequência, estertores pericárdicos. Eu recomendo começar sempre com o diafragma e depois alternar, porque a maioria dos achados patológicos é aguda. Peça para o paciente inspirar profundamente e segurar a expiração. Isso aproxima o coração da parede torácica e melhora a audição dos focos esquerdos, especialmente o mitral e o pulmunar. Se o paciente não consegue segurar a respiração, peça que respire normalmente por um minuto e comece a auscultar durante a expiração pausada. O sangue venoso retorna mais lentamente e os sopros diastólicos ficam mais nítidos. Posicione o paciente em decúbito semi-Fowler a 45 graus, depois deite-o totalmente para o lado esquerdo se suspeitar de terceira bulha ou estenose mitral. Eu já perdi sopros de insuficiência mitral porque o paciente estava sentado ereto e o sopro era baixo grau, quase imperceptível nessa posição. Deitando e virando para a esquerda, o sopro apareceu claramente.

O que dá errado com mais frequência

O primeiro erro é apertar demais o transdutor na pele. O diafragma precisa de pressão moderada para vedar, mas pressão excessiva distorce os vasos e abafa os sons de baixa frequência. A regra prática: pressione até a pele ceder levemente, não até Doente. O segundo erro é auscultar em ambiente ruidoso. Um corredor de hospital com ruído de bombonas, monitores e conversas paralelas perde pelo menos 30% da acuidade auditiva para sopros finos. Se o ambiente não permite silêncio relativo, use fones com cancelamento de ruído ativo ou traslade para uma sala menor e mais isolada. Isso não é luxo, é necessidade técnica. O terceiro erro é não correlacionar com a palpação. Antes de colocar o estetoscópio, palpe o ápice para localizar o pulso cardíaco. Em pacientes obesos ou com enfisema, o ápice pode estar deslocado para baixo e lateralmente, e auscultar na linha mamilar padrão vai te dar uma localização errada do foco mitral. A palpação resolve isso em segundos.

Limitações que ninguém admite

A ausculta cardíaca tem sensibilidade limitada para estenose mitral grave em obesidade mórbida. Um estudo que li há alguns anos mostrou que em pacientes com IMC acima de 35, a sensibilidade da ausculta para detectar estenose mitral moderada a grave cai para cerca de 45%. Isso significa que quase metade desses casos passa despercebida. Se o paciente tem IMC elevado e suspeita clínica de doença valvar, peço ecocardiograma sem esperar pelo resultado da ausculta. Não adianta insistir. A ausculta também falha em identificar estenose aórtica leve a moderada em idosos com calcificação extensa da parede torácica. O sopro pode ser suave, de curta duração, e facilmente confundido com um ruído de fluxo normal. O ecocardiograma doppler é insubstituível nesse cenário. Outro ponto: a segunda bulha dividida fisiologicamente durante a inspiração é normal em adultos jovens, mas em pacientes com DPOC crônica a divisão pode persistir expiração adentro por causa do aumento da resistência das vias aéreas e da compliance pulmonar alterada. Não confunda isso com bloqueio de ramo ou outras patologias. A história clínica e o contexto prevalecem sobre o achado isolado.

-Focos de ausculta cardíaca. Fonte: MELO, 2015 | Download Scientific ...
-Focos de ausculta cardíaca. Fonte: MELO, 2015 | Download Scientific ...

Para quem quer referência rápida, a tabela abaixo resume os pontos. Salve e leve para a plantão. Foco aórtico: 2º EIC direito. Foco pulmunar: 2º EIC esquerdo.

Ponto de Erba: 3º EIC esquerdo. Foco mitral: 5º EIC, linha mamilar esquerda. Foco traqueal: 3º EIC esquerdo parästernal.

A prática constante com pacientes reais, variando posição, respiração e transdutor é o que torna a ausculta útil. Sem isso, fica só teoria de livro.

Focos De Ausculta Cardíaca - RETOEDU
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