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Fonoaudiologia Tem Que Fazer Medicina

Fonoaudiologia Tem Que Fazer Medicina

A polêmica que nunca morre

O tema fonoaudiologia tem que fazer medicina apareceu em reunião de conselho regional há uns três anos. De novo. Todo mundo cansou de discutir isso, mas aparece nova leva de estudante ou profissional tentando defender uma ou outra posição como se fosse algo novo. Vou explicar como isso funciona na prática, porque a teoria já foi escrita mil vezes.

Por que esse debate existe

A fonoaudiologia no Brasil é regulamentada pela Lei 12.317/2010 como profissão de saúde. Isso já gera confusão natural. As pessoas veem "saúde" e pensam medicina. Não é bem assim, mas o sistema de saúde brasileiro tratar todas as profissões como se tivessem a mesma hierarquia não ajuda. Alguns argumentos a favor da Medicalização vêm de questões práticas: acesso a medicamentos, prescrição de exames complementares, necessidade de entender fisiopatologia profunda. Outros argumentos contra são mais simples: a fonoaudiologia tem seu próprio corpo de conhecimento, suas próprias indicações, seus próprios limites. Eu já vi fonoaudiólogo pedir exame de imagem para paciente com disfagia crônica e ter o pedido recusado pelo convênio porque "não é médico". Esse é um dos pontos reais que alimentam o debate. Não é filosofia, é burocracia do dia a dia.

O que acontece na prática clínica

Trabalhando com avaliação neurofisiológica da fala e da deglutição, eu lido com isso diretamente. Um paciente com suspeita de AVC com alterações de deglutição precisa de ressonância magnética. Eu posso solicitar o exame? Depende do estado, do contrato com a clínica, de quem está no prontuário. Em alguns lugares, sim. Em outros, o técnico de enfermagem precisa encaminhar e o médico precisa assinar. Isso atrasa o diagnóstico em dias. Às vezes semanas. É um problema real que quem vive na ponta sente todo dia. Por outro lado, já me deparei com situação inversa: médico solicitando avaliação fonoaudiológica para paciente pós-AVC sem nenhuma indicação clara, só porque "faz parte da reabilitação". O fonoaudiólogo vai lá, avalia, constata que a disfagia já estava resolvida há duas semanas. Tempo desperdiçado, paciente encaminhado à toa.

Importância da Fonoaudiologia Hospitalar | PDF | Medicina Clínica ...
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O ponto é que ambos os lados precisam se entender melhor, e culpar a medicina não resolve nada.

A questão dos medicamentos

Este é o cerne de parte do argumento fonoaudiologia tem que fazer medicina. Fonoaudiólogos não prescrevem. Em casos como disfagia orofaríngea com refluxo laringofaríngeo associado, você sabe que o tratamento farmacológico é parte do manejo. Você indica consulta com gastroenterologista, aponta a suspeita, mas não decide a medicação. Isso funciona na maioria dos casos. Nem sempre, mas na maioria. O problema aparece quando o paciente não tem acesso a outro profissional ou quando o tratamento medicamentoso seria pontual e simples. Você sabe que um IBP por 30 dias poderia resolver o quadro, mas não pode receitar. Aí o paciente vai embora sem tratamento adequado ou precisando de múltiplos encaminhamentos que nem sempre são aceitos pelo sistema.

Não estou defendendo que fonoaudiólogos devam prescrever tudo. Estou dizendo que existem gaps reais no sistema que afetam o cuidado.

FONOAUDIOLOGIA: O QUE É, COMO FUNCIONA E EM QUE ÁREAS ATUA ESSA ...
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O que eu aprendi com anos trabalhando nessa fronteira

O conhecimento médico é importante. Não no sentido de "precisamos ser médicos", mas no sentido de que entender fisiopatologia, farmacologia básica e semiologia clínica melhora muito a sua avaliação. Um fonoaudiólogo que consegue diferenciar disfagia orofaríngea de disfagia esofágica com base na anamnese, que sabe quais achados em uma VCFS pedem investigação complementar, que reconhece sinais de aspiração silenciosa... esse profissional não precisa de diploma de medicina. Precisa de formação sólida. O problema é que a graduação em fonoaudiologia no Brasil varia muito entre as universidades. Algumas dão base muito boa em fisiologia e anatomia. Outras ficam no operacional. Isso cria profissionais desiguais, e a discussão sobre medicina muitas vezes mascara essa desigualdade interna. Já tive paciente com voz espasmódica diagnosticada como "ansiedade" por dois médicos antes. A avaliação fonoaudiológica com videoflutoscopia mostrou as fechaduras glóticas intermitentes. O diagnóstico correto veio pela especialização do fonoaudiólogo em voz, não por ter mais conhecimento de medicina. Mas também não veio por acaso: eu conhecia a fisiologia do espaço laríngeo, sabia interpretar o movimento das pregas vocais, e reconheci o padrão clínico.

Isso é formação de fonoaudiologia, não formação médica. São cosas diferentes.

E quando a coisa complica de verdade

Tem scenario em que o limite fica ainda mais claro. Paciente com disfagia pós-cirúrgica de laringe, status pós-quimiorradiação. O fonoaudiólogo faz a avaliação funcional, sugere adaptação dietética, indica suplementação. Mas o paciente desenvolve uma fístula travéqueoesofágica. Aí você encaminha para cirurgia. Não é competência sua resolver isso. Se a discussão fosse apenas "fonoaudiologia deve fazer medicina", a resposta seria não. Você precisa saber quando NÃO é da sua alçada. Isso é tão importante quanto saber quando é.

#fonoaudiologiahospitalar #fonoaudiologia #fonoempalmas # ...
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Uma alternativa que funciona

Alguns estados e redes de saúde já adotaram protocolos de atuação conjunta onde o fonoaudiólogo tem autonomia para solicitar exames de imagem básicos e certos laboratoriais dentro de sua área de atuação. Isso é mais útil do que qualquer discussão teórica sobre medicina. Resolve o problema prático sem precisar mudar a formação de ninguém. O caminho não é transformar fonoaudiologia em medicina. É definir claramente o que cada profissão pode e deve fazer, com base em evidência, não em tradição hierárquica.