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Função De Um Estoquista

Função De Um Estoquista

O que esse cargo realmente envolve no dia a dia

A função de um estoquista costuma ser mal compreendida fora do chão de loja ou do galpão. A gente vê em descrições de vaga palavras como "organização", "controle de entrada e saída" e "inventário", mas o trabalho real é muito mais específico e frequentemente mais frustrante do que o anúncio sugere. Na prática, você é a pessoa responsável por saber onde cada item está, em que quantidade, em qual condição e quem deve receber o quê e quando. Se isso não funcionar, toda a cadeia logística da empresa engasga. Não há equipe centralizada para resolver o problema quando o estoque físico diverge do estoque registrado no sistema. Você é o ponto final.

Função de um estoquista: o que acontece nas primeiras horas

Chego no galpão, levo cerca de vinte minutos conferindo os avisos de entrega previstos para o dia. Anoto no caderno de ponta o que está confirmado, o que está atrasado e o que foi cancelado sem que o sistema tenha sido atualizado. Isso sempre acontece. O fornecedor diz que saiu, a SEDEX mostra como entregue, e quando vou verificar no setor de recepção, a caixa não existe. Depois disso, faço a conferência física dos materiais recebidos na noite anterior ou nas primeiras horas da manhã. Comparo nota fiscal com o que entrou. Item por item. Quantidade por quantidade. Lote por lote quando aplicável. Se houver divergência de mais de dois por cento entre o que consta na NF e o que está fisicamente no almoxarifado, o procedimento padrão exige que eu levante um registro de diferença antes de dar baixa no sistema. Pulei esse passo uma vez num depósito de materiais eletrônicos porque o sistema estava lento e o operador de carga queria liberação imediata. Descobri três dias depois que tínhamos recebido mil unidades a menos de um lote de capacitores. O custo foi de oito horas de pesquisa, uma discussão acalorada com o fornecedor e a perda de um pedido de cliente que dependia daquele material. Nunca mais pulei esse passo. Depois da conferência de entrada, organiza-se o movimento de saída. Os pedidos da produção ou das vendas são separados, conferidos contra a lista de separação e encaminhados. A separação errada é o erro mais comum e o mais caro. Um estoquista pode enviar parafuso M6 em vez de M8, e ninguém percebe até a linha de montagem parar ou o cliente montar o produto e perceber que as peças não encaixam.

Métodos de controle que funcionam e os que simplesmente não funcionam

O método FIFO (first in, first out) é o padrão para a maioria dos materiais, especialmente aqueles com validade ou que sofrem deterioração com o tempo. Funciona bem em teoria. Na prática, depende inteiramente de você etiquetar e registrar a data de entrada de cada lote no momento em que ele chega. Se o material entra sem etiqueta de data, o FIFO vira "quem tá visível na frente sai primeiro", que é basicamente uma loteria com consequências financeiras. A curvula ABC é outra ferramenta padrão que merece atenção. Classifica os itens em três grupos: A (alto giro e alto valor), B (média relevância) e C (baixo giro, baixo valor). A parte que ninguém conta é que essa classificação deve ser revisada trimestralmente. Já vi estoque de uma empresa onde os itens categoria A haviam mudado completamente em dezoito meses por causa de alterações de linha de produção, mas a classificação permanecia a mesma porque ninguém atualizou. O resultado era o pessoal fazendo conferência detalhada em materiais que nunca saíam e deixando passar por alto desvios nos itens que realmente moviam o negócio. Sistemas de varredura por código de barras reduziram drasticamente o tempo de conferência. Antes, uma operação de recebimento com duzentos itens levava aproximadamente uma hora e meia. Com o scanner integrado ao ERP, o mesmo processo leva entre quinze e vinte minutos, desde que os códigos estejam corretamente registrados e os produtos não estejam danificados a ponto de impossibilitar a leitura. O problema é que scanners quebram, baterias falham e leitores portáteis travam justamente quando você mais precisa deles. Ter um tablet de reposição carregado e um scanner reserva no almoxarifado economiza duas horas de espera por manutenção.

QUAL A FUNÇÃO DE UM ESTOQUISTA DE UM SUPERMERCADO - YouTube
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Erros que todo estoquista inexperiente comete

O primeiro erro grave é confiar cegamente no que o sistema mostra. O registro no ERP indica que há cinquenta unidades de um componente, mas uma contagem física revela trinta e dois. Isso acontece com frequência absurda. Motivos incluem: mercadoria recebida e dada como baixa sem conferência efetiva, materiais desviados sem registro, devoluções de produção que não foram devolvidas ao estoque, e robôs de inventário que não foram recalibrados após manutenção. O segundo erro é a falta de padronização nos locais de armazenamento. Um material pode ser Registrado como estando no corriqueiro A-12-03 e fisicamente estar no A-12-04 porque um colega reposicionou a caixa sem atualizar o sistema. Se dois estoquentes fazem isso no mesmo dia, a divergência se multiplica. A solução mais simples é exigir que qualquer reposicionamento físico seja registrado imediatamente no sistema, com data e hora, e que o estoque físico seja auditado aleatoriamente pelo menos duas vezes por semana por uma terceira pessoa. O terceiro erro é subestimar a importância da classificação de itens perecíveis ou sensíveis. Produtos químicos, materiais eletrônicos e componentes sujeitos à umidade exigem condições específicas de armazenamento. Um estoquista que não sabe diferenciar um item que precisa de controle de umidade de um item que pode ser armazenado em qualquer prateleira vai causar perdas desnecessárias. Nesse ponto, o conhecimento técnico do material é tão importante quanto a capacidade de operar o sistema de gestão.

Quando o sistema falha completamente

Não adianta romantizar. Existem cenários em que qualquer sistema de gestão de estoque, por mais moderno que seja, simplesmente não resolve o problema. O principal deles é a falta de disciplina operacional. Se os operadores de carga não registram saídas, se os compradores não informam cancelamentos, se a produção retira material sem emitir requisição, nenhuma ferramenta vai corrigir isso. O sistema só reflete a qualidade dos registros que recebe. Entrada lixo, saída lixo. Outro cenário problemático é o estoque de itens personalizados ou de baixa rotatividade onde a descrição do produto é vaga. Recebi uma vez um pedido de um cliente que especificava "suporte tipo Y para máquina Z". O sistema tinha quatro itens com descrições similares. Separei o errado porque a ficha técnica não detalhava as diferenças dimensionais. O cliente ligou reclamando duas horas depois. O suporte correto estava no corredor B, prateleira 07, identificado apenas como "suporte genérico tipo Y". Ninguém havia separado os itens corretamente na recebimento inicial. A partir desse incidente, passei a exigir que todo item de reposição received com descrição genérica passasse por verificação física obrigatória antes de ser colocado no local de armazenamento definitivo. Para operações que envolvem milhares de SKUs e movimentação intensa, o controle manual ou semi-manual é inviável. Nesse caso, a recomendação é investir em um WMS (Warehouse Management System) com integração RFID, embora o custo de implementação seja significativo e a curva de aprendizado seja pronunciada. Até lá, a auditoria periódica do estoque físico continua sendo a única garantia real de precisão.