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Gêmeos De Placenta Diferente

Gêmeos De Placenta Diferente

O que acontece quando os gêmeos compartilham ou não a mesma placenta

O achado mais comum quando se diagnostica uma gestação gemelar na primeira ussanografia é descobrir como estão organizados os corion e amnion. A grande maioria dos gêmeos fraternos desenvolve gêmeos de placenta diferente, tecnicamente chamados de dicoriônicos, o que significa que cada um tem sua própria unidade placentária e seu próprio saco amniótico. Isso é importante porque define praticamente tudo: o risco de complicações, a frequência dos exames de acompanhamento e até o momento da decisão sobre a via de parto. Eu atendi uma paciente de 34 anos que foi encaminhada porque, aos 28 semanas, o ultrassonografista notou uma diferença de peso fetal de 22 por cento entre os dois fetos. Como ela era dicoriônica, descartamos imediatamente a transfusão feto-fetal, mas entramos em investigação para restrição de crescimento seletiva. Fizemos dopplerarterial dos cordões umbilicais de ambos os fetos, que era normal. A gente acompanhava de duas em duas semanas com biometria fetal e doppler, e ela teve parto cesáreo aos 37 semanas porque um dos gêmeos começou a mostrar sinais de desconforto. O irmão mais leve pesou 2 quilos e 100 gramas, o outro 2 quilos e 800 gramas. Ambos tiveram boa evolução neonatal, mas o caso mostrou o quanto a corionicidade muda completamente a conduta.

Como identificar gêmeos de placenta diferente precocemente

A identificação da corionicidade deve ser feita entre 11 e 14 semanas de gestação, de preferência antes das 14 semanas, porque depois fica mais difícil avaliar a lamina tricorial com precisão. O sinal mais confiável é o chamado sinal lambda ou sinal da crista, que aparece quando há a inserção da lâmina dicorial nas proximidades da inserção dos cordões. Nos monocoriônicos, a inserção é mais em T, o que é o chamado sinal T. Se você tiver um profissional que faça isso todo dia, o erro de classificação cai para menos de 1 por cento. Mas em serviços com fluxo alto, onde um exame demora 10 minutos, erros acontecem, especialmente se a gestante tiver IMC elevado ou pouca amniotico. Tem outra coisa que a literatura mostra pouco. Em casos raros de gêmeos monocoriônicos, a divisão do trofoblasto pode ocorrer de forma tardia ou incompleta, e ainda assim haver separação parcial das massas placentárias. O ultrassom pode enganar e fazer você pensar que são dicoriônicos. Por isso, se houver qualquer dúvida, o recomendado é repetir a avaliação entre 14 e 16 semanas, quando a anatomia da lâmina fica mais evidente, e correlacionar com a genética, lembrando que gêmeos fraternos são sempre dicoriônicos, enquanto os idênticos podem ser monocoriônicos ou dicoriônicos dependendo de quando o embrião se divide.

Conduta prática e acompanhamento

Uma vez confirmada a dicorialidade, o protocolo usual prevê exames a cada quatro semanas até as 32 semanas e depois a cada duas semanas até o termo. Não há risco de síndromes de transfusão feto-fetal clássicas, mas ainda existe a possibilidade de restrição de crescimento seletiva, que ocorre em cerca de 10 a 15 por cento dos casos dicoriônicos. O manejo inclui monitorização doppler do cordão umbilical e das artérias uterinas, aferição de pressão arterial da gestante e avaliação do líquido amniótico de cada um dos sacos separadamente, porque um pode ter polidrâmnio e outro oligodrâmnio mesmo sem compartilhamento vascular. O parto de gêmeos dicoriônicos pode ser vaginal se o primeiro feto estiver em apresentação cefálica, conforme demonstrado pelo estudo Twin Pregnancy Outcome and Delivery Trial, que não mostrou diferença significativa em desfechos neonatais graves entre via vaginal e cesárea. A cesariana ainda é mais frequente no Brasil, onde cerca de 70 por cento dos partos gemelares são cirúrgicos, mas a indicação precisa ser individualizada. Gestantes com dicorialidade têm risco semelhante ao de gestações unicóricas para pré-eclâmpsia, então o uso de aspirina em baixas doses a partir da 12 semana continua sendo recomendado pela maioria das diretrizes.

Gemeos De Placenta Diferente Podem Ser Identicos - NAZAEDU
Gemeos De Placenta Diferente Podem Ser Identicos - NAZAEDU

Vantagens, limitações e o que os dados realmente mostram

A grande vantagem dos gêmeos de placenta diferente é a redução drástica de complicações relacionadas a anastomoses vasculares, que são a principal causa de morbimortalidade nos monocoriônicos. Por outro lado, a dicorialidade não protege contra outros problemas. Pré-eclâmpsia, parto prematuro espontâneo, distúrbios de crescimento e incompatibilidade Rh ainda são fatores reais. A literatura indica que cerca de 50 por cento das gestações gemelares chegam antes das 37 semanas, independentemente da corionicidade, e o risco de trabalho de parto prematuro aumenta se houver histórico prévio ou multiparidade com múltiplas gestações anteriores. Outro ponto que costuma passar despercebido é a avaliação do líquido amniótico. Mesmo em dicoriônicos, pode haver assimetria significativa entre os dois sacos, com diferenças de índice líquido amniótico superiores a 8 centímetros. Nesses casos, o acompanhamento deve ser intensificado para, e se um dos fetos apresentar desaceleração no doppler, a internação e a decisão sobre o timing do parto precisam ser discutidas precocemente com a equipe de medicina fetal. Algumas unidades optam por partos programados entre 37 e 38 semanas para reduzir o risco de morte intrauterina tardia, mas essa abordagem ainda gera debate na literatura internacional.

Problema específico que encontrei no meu dia a dia

Tive uma paciente dicoriônica que desenvolveu polidrâmnio isolado em apenas um dos sacos amnióticos aos 26 semanas, sem sinais de restrição de crescimento e com doppler normal. A primeira reação foi aguardar, mas como o diâmetro vertical máximo ultrapassou 8 centímetros e ela relatava desconforto respiratório, optamos pela amnioredução focal sob guia ultrassonográfica. Retiramos 1200 mililitros do saco afetado, o que melhorou os sintomas maternos imediatamente. No seguimento, o feto permaneceu estável, mas a gestante evoluiu com parto prematuro aos 34 semanas por indicação deMonitoring feto materno, não por complicação do polidrâmnio em si. Esse caso me fez revisar o protocolo de acompanhamento, pois percebi que a assimetria de líquido em dicoriônicos não é tão rara quanto se pensa, e ignorá-la pode levar a complicações evitáveis. Se você busca material de referência sobre gêmeos de placenta diferente, a Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia publica diretrizes anuais com recomendações baseadas em evidência, e o International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology também mantém protocolos atualizados sobre acompanhamento de gestações múltiplas. Para gestantes que desejam acompanhar a prática clínica, existem aplicativos de rastreamento de sinais de parto prematuro e plataformas de telemonitoramento que se mostram úteis, principalmente para aquelas que moram em regiões distantes de centros de referência em medicina fetal. O diagnóstico precoce da corionicidade é o passo mais importante em toda a condução dessas gestações. Quando feito corretamente na primeira trimestre, ele evita condutas inadequadas, reduz o número de exames desnecessários e permite um acompanhamento centrado nos riscos reais de cada casal. A maioria das complicações graves em gêmeos dicoriônicos está relacionada a prematuridade e restrição de crescimento, não a síndromes de transfusão, e isso deve guiar tanto a conversa com a gestante quanto a programação dos exames ao longo dos nove meses.