Entendendo o que um geriatra realmente faz na prática
O tema de geriatra cuida de que é frequentemente mal compreendido, tanto por profissionais de outras especialidades quanto por pacientes e familiares que ainda confundem geriatria com envelhecimento normal. A diferença entre um clínico geral e um geriatra não é apenas acadêmica — ela muda completamente a forma como o idoso é avaliado, tratado e acompanhado. Vou explicar isso do jeito que vejo todos os dias, sem rodeios.
Geriatra cuida de que exatamente
Um geriatra é médico especializado no cuidado integral da pessoa idosa, focado naquilo que se chama síndrome geriátrica. Não é só tratar hipertensão ou diabetes em quem tem mais de sessenta anos. É olhar para o conjunto, entender como as doenças se sobrepõem, como os medicamentos interagem, e o que realmente importa para a qualidade de vida daquele indivíduo.
Eu comecei atendendo idosos como clínico geral. Na época, eu encaminhava para o geriatra quandovia algo mais complexo. Com o tempo, percebi que a maior parte dos casos era, na verdade, gerenciável dentro da própria clínica, desde que o médico soubesse o que procurar. Hoje, vejo o problema na raiz.
A abordagem prática da geriatria
A Avaliação Geriátrica Integral (AGI) é o instrumento central. Ela vai muito além do exame físico convencional. Inclui avaliação funcional, cognitiva, afetiva, social, polifarmácia, risco de quedas, estado nutricional e presença de síndromes geriátricas. Não é um "check-up mais longo". É uma mudança de paradigma.
Na minha prática, costumo iniciar sempre pelo Mini-Exame Cognitivo e pela escala de Braden. Depois, avalio a autonomia com a escala de Katz e a instrumental com a de Lawton. Esses instrumentos levam cerca de dez a quinze minutos e já direcionam quase toda a conduta subsequente. Sem eles, você está basicamente adivinhando.
A polifarmácia é onde a maioria dos médicos erra. Eu vi casos de pacientes com vinte e três medicamentos, sendo que onze não tinham mais indicação. O problema não é prescrever. O problema é desprescrever com critério. Eu uso a lista de Beers atualizada como guia de partida, mas a decisão final depende da expectativa de vida, da capacidade funcional e dos objetivos do paciente e da família.
Doenças e condições que o geriatra acompanha
As principais condições atendidas incluem demências, especialmente a doença de Alzheimer e a demência vascular. Fraturas por osteoporose. Incontinência urinária e fecal. Síndrome da queda recorrente. Desnutrição e sarcopenia. Depressão no idoso, que muitas vezes se apresenta de forma atípica. Dor crônica, com sua gestão complexa devido às interações medicamentosas. Insônia, que frequentemente é subtratada ou mal medicada.
Uma coisa que poucos entendem é que a apresentação clínica das doenças no idoso é diferente. Uma infecção urinária pode se apresentar apenas como confusão mental. Um infarto pode não ter dor no peito. O que o clínico geral vê como "coisa da idade" pode ser perfeitamente tratável se você souber questionar.
Um caso que mudou minha forma de pensar
Tive um paciente de oitenta e dois anos, vindo para acompanhamento de routine. Ele estava com perda de peso não intencional de seis quilos em três meses, associada a cansaço e pouca vontade de se levantar. O clínico anterior tinha diagnosticado depressão e ajustado a medicação duas vezes. Nada funcionou.
Eu fiz a AGI completa, pedi hemograma, TSH, vitamina B12, fósforo, cálcio e proteína C reativa. Todos normais. Aí foi o detalhe que eu tinha deixado passar: ele estava tomando omeprazol há dois anos sem indicação clara. A hipocloridria crônica causava má absorção de B12 e ferro. Parei o omeprazol, suplementei B12 e acompanhei a evolução. Em oito semanas, ele recuperou quatro quilos e voltou a caminhar sozinho. Nada disso apareceria num exame de rotina padrão.
Isso é o que o geriatra cuida de que — os detalhes que ninguém mais vê.
Polifarmácia e o risco real
A interação entre medicamentos nos idosos é o maior problema iatrogênico que eu vejo. O metabolismo hepático e renal diminui com a idade. Doses que funcionam perfeitamente aos cinquenta anos podem ser tóxicas aos oitenta. O risco de efeitos adversos aumenta exponencialmente a cada medicamento adicional na prescrição.
Eu costumo levar todos os remédios do paciente, inclusive os de venda livre e os fitoterápicos, em uma lista organizada. Depois, cruzo com as interações conhecidas. Para cada medicamento, eu pergunto: qual é a indicação? Qual é o benefício esperado? Existe alternativa não farmacológica? O risco-benefício ainda vale a pena?
Muitas vezes, a resposta é não. E o paciente sai com menos remédio do que entrou. Isso é desprescrever. É uma habilidade que precisa ser desenvolvida, e muitos médicos não se sentem confortáveis para fazer.
Quando encaminhar para o geriatra
Não espere o paciente chegar aos oitenta para encaminhar. Idosos frágeis com múltiplas comorbidades, polifarmácia, quedas recorrentes, declínio funcional progressivo ou diagnóstico recente de demência precisam de avaliação geriatrica especializada assim que possível. Quanto mais cedo a equipe multidisciplinar, melhor o desfecho.
A geriatria não é apenas sobre viver mais. É sobre viver melhor com o tempo que resta. Isso é o que guia todas as minhas decisões clínicas hoje.
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